quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Mosaico

Poeta, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, romancista, jornalista e crítico literário. Quem? Machado de Assis. Hoje é aniversário dele. Ou seria, nunca sei direito. Ele, o cara da Capitu e da Iaiá Garcia. Devo tanto a ele. Um tanto da minha feminilidade. Outro tanto das minhas possibilidades. Sabe o que mais gosto em Machado de Assis? Era um bobo apaixonado. Sua Carola era tudo. Poxa, ele assinava as cartas como Machadinho. É lindo ver toda a erudição e talento reformularem-se pra servir a esse amor de tantos anos. 35 anos. Uma vida. Minha vida. Eu leio e releio Machado de Assis já faz muito tempo. E nunca canso. Nunca deixo de me divertir e deleitar. Gozar cada frase. Se você não leu Machado de Assis não sabe até onde a língua portuguesa pode ir. Não sabe até onde pode ir-se na língua.
Até onde eu vou? Fiquei pensando nisso e fiz uma escavação. Arqueóloga das minhas palavras, fui buscar-me onde eu já me disse. Eu mudo. Eu permaneço. Há tanto do que sou hoje no que já disse. E há tanto no que digo do que já fui. Complicado? Mosaico. Eu. Borboleta. Menina. Velha. Mulher. Graúna. Boba. Quem? Alguém me ajuda?


É melhor morrer de vodka do que morrer de tédio, disse Maiakovski. Ainda bem. Já tentei e tentei ser blasé, mas sou mesmo é uma deslumbrada. Este é meu perfil quando me vejo assim: cara a cara comigo mesmo. Ou seja, meio de lado. Somos mosaicos, eu sei. Mas as rachaduras são sempre tão evidentes? Em mim, sim. Eu sou assim: tagarela, riso frouxo, desajeitada. Ando esbarrando. Mesmo. Leio furiosamente. Amo desvairadamente. E tento comer devagar. Sei lá, pra compensar, talvez. Adoro esporte. Assistir, claro. Jogar, jogar mesmo, é baralho. Ou sinuca. Ou, num rasgo de disposição, porrinha. Tem gente que tem a cabeça no mundo da lua. Eu não. Quando vou lá, vou toda. Sou questionadora, mas aceito qualquer resposta. Só não, não. Aí demoro mais. Descobri recentemente que meu nome devia ser Elsa. Ou louca. Ou trator. Mas vou ficar com o de sempre que já me acostumei. Adoro televisão. Não assisto tanto, mas deixo ligada quase sempre. Se der sorte, tá passando um filme. Adoro filme. Adoro, ainda mais, o escurinho do cinema. Gosto de filme velho, quase cheirando a naftalina. Mulheres chamadas Gilda, homens que sabem demais, os maiores espetáculos da terra. Dos manda-chuva gosto dos óbvios Fellini e Hitchcock. E os menos unânimes: Billy Wilder, John Houston, Coppola, Almodóvar, John Ford. Uffa! E reverência sempre a Woody Allen. Não me canso de seguir sua mente neurótica e suas realizações brilhantes. Quando um de nós dois morrer, eu vou pra Paris! Ele disse, eu ri e fiz. Simples assim. Sou mulher de cama, mesa e banho. E forno. E fogão. Mas tenho horror a tanque. E à faxina. Sushi, paella, comida indiana...adoro e, claro, não sei fazer. Um dia aprendo. Ou não, porque tenho paixão por restaurante. Também adoro quase tudo que termina em ada: feijoada, panelada, palhaçada – se for de palhaço mesmo e não de ex-namorado. Depois da última viagem, fiquei hiperbólica. Queridíssimo, belíssimo, chatíssima. Digo seguidamente bobagens e inventei a origem do nome Patagônia. Se eu ganhasse na Mega Sena (bom, primeiro teria que jogar, mas aí já é outra história) eu seguiria viagem. Pra todo canto. Cigana, de alma e alma (assim mesmo). Bebo cerveja, bebo vinho e, depois das músicas italianas, bebo sonhos. De preferência na companhia de amigos, que tenho a graça de ter uma ruma e todos de primeira qualidade. Os que visito já, já: Um é médico do meu coração e o outro mantém relações públicas e privadas com minhas emoções. Tenho amigas do tempo que eu andava só de calcinha na rua e fiz amigas quase ontem, mas que já se tornaram das melhores. Aspecto físico? Língua afiada. Desvio no olho o que me torna inspiração pra música do Chico. Gesticulo muito, isso devia me garantir cidadania italiana. Uma voz que não sai, mas a menina com uma flor do Vinícius também. Gosto de fazer passeios: pegar o ônibus e dar a volta na cidade, olhar prateleiras do supermercado, viajar de balão. Bom, esse último nunca fiz, assim, pessoalmente, mas às vezes filme vale, né? Agrada-me envelhecer, uma vez ouvi e achei lindo que as marcas do rosto eram como um mapa da vida. Puxa, quero um mapa bem detalhado porque sou meio perdida. Tenho certeza de que sou como vinho, porque o tempo tem me ajudado pra caramba. Tenho religião, não tenho é tempo. E tenho boas desculpas. Quase sempre. Minha família é um espetáculo, podem prestar atenção: sou eu aplaudindo. Diversão garantida. Não vou nem falar dos fofos que são meu pai e mãe. Tenho uma irmã que administra o mundo, um irmão gênio e a outra que tem um GPS, um computador e uma calculadora na cabeça. E todos são gente fina. E olhe que eu nem sou de ficar me gabando. Muito. Quando criança eu era o cão chupando manga de danada, mas eu não lembro então não conta. Pra todos os efeitos, sempre fui assim: calma. Até que alguém comece uma discussão qualquer. Aí não sou mais. Gasolina? Pólvora? Presente. Gosto de fazer o que eu gosto. No mais, preguiçosa. Pouca culpa, poucas manias. Chorona assumida em quase todo tipo de filme, peça, show, pode é elencar. Tem um bocado de coisas de que não entendo nada: tecnologia, beisebol, fotografia, nova ortografia. Tem um bocado de coisas que gosto: cheiro de livro novo, andar descalça, banho de chuva, dormir de rede. E o mar. Perto de muita água tudo é feliz, já anunciava Guimarães Rosa e Bethania repetia. Amém.

Acontecem-me coisas surreais. Podia parar aqui, mas não paro. Uma certa inclinação para a felicidade ou, pelo menos, para o riso. Finita, por nascimento e vocação. Leio de tudo e com desespero. Escrevo sem vírgulas, pontos ou educação. E me inflamo com facilidade. Já fui mais jovem, hoje sou mais feliz. Certa da solidão, fui me acostumando a ser boa companhia. Grata por ter amigos, porque, pensando bem, sou uma péssima amiga. Daquelas que esquece o dia do aniversário, raramente liga só pra saber se o amigo vai bem e, muitas vezes, diz exatamente o que o amigo não quer ouvir só pelo excesso de zelo com a verdade e um apego irremediável às minhas próprias idéias e opiniões. Mas tenho sorte. Às vezes faço de conta que sou completa, geralmente com uma taça de vinho na mão. Ou vendo o meu Mengo. Ou cheirando o cangote do meu filho. Hollanda, por parte de mãe e de Chico. John Wayne, por parte de pai. Borboleta e Graúna por escolha e história. Tenho uma sacola de viagem permanente no meu juízo e a alma, de tão cigana, não para em palavra nenhuma. No turismo, sou amuleto. Gostaria de escolher meus defeitos, mas não dando certo isso, continuo teimosa. Não sei usar a nova regra ortográfica. Nem a velha, talvez. Nunca fui inocente: o mundo nu e o assombro. Agatha, Duras, Clarice. Vozes: Piaf, Callas, Bethania. Vinícius, bastante. Na ponta da língua: sushi, massa, scamorza, torresmo, pele e línguas alheias. Mangueira no samba e pra suco. Fred, porque faz dançar até um cabide. Para citações: The Godfather. Desejos: Money pra caprichos e viagens. Ainda vou: Maracanã, dançar todo dia, voltar a Roma. Came, Marcelo! Ave, Ava, Anita, Vivian. Filmes, sim obrigado. P&B, melhor. Nino e Norma. Dama e Vagabundo. Tomas e Teresa. Conforto, sim. Gata de apartamento, adoro “mei de rua”. Andar de mãos dadas. Cama. Cama, mesa e banho. Mas, bom, bom mesmo é sal, se você já leu Verissimo.

35 eus: Avião. Banho de mar. Beijo. Café. Callas. Cerveja. Cinema italiano. Colo. Dançar nua. Eletricidade. Filho. Fazer aniversário. Gaitada. Hotel. Irmãos. Jantar com amigos. Lamparina. Marquesa. Mengo. Musicais. Natal. Ovo. Panteras. Piaf. Queijo. Rastros de Ódio. Scarlett. Tv a cabo. Uva. Vadiar. Ventilador. Viajar. Violino. Wayne. Zeus e sua cambada.

Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. E olhe que a concorrência é pesada, pois já tem um monte de gente rindo também. Sou crédula. E cínica. Pode? Em algum momento decidi que ser eu mesma era muito mais gostoso que ser um eu que eu poderia querer ser. Em relação ao amor, por exemplo, sou ridícula. Capaz de desenhar corações entrelaçados em guardanapos e guardar como se fossem tesouros inestimáveis. E capaz de seguir adiante sem lamentar se simplesmente assim o decidir. Eu já não tenho pejo de listar meus encantos como não me aborrece o elenco de defeitos. As duas sequências são enormes. Gosto do repetir dos dias. Sou grata pelas pequenas coisas. E pelas grandes, claro, como respirar. E café. E coca-cola. E beijo na boca. E o Flamengo.

Sou uma mulher. Uma mulher que é mãe. Uma mulher que é apaixonada. Uma mulher que é amiga. Uma mulher que, se não é de Atenas, é quase, e com certeza é uma mulher de Hollanda (com duplo sentido). Uma mulher que descobriu que fazer 30 anos é maravilhoso (ou que descobriu que é maravilhosa com todas as idades, mas como está na casa dos 30...). Uma mulher que ri escandalosamente. Uma mulher desajeitada, mas charmosa no seu sem jeito. Uma mulher que ama desbragadamente. Uma mulher que se atira. Uma mulher que tem nervos, coração, estômago, tudo à flor da pele (o que dá uma impressão estética meio estranha, você não acha?). Uma mulher, que é gente, mas é muito, muito mais mulher. Uma mulher que é gata (conforme a canção de Enriquez/Bardotti) e que de vez em quando sonha ser Scarlett. Uma mulher de família (pois amo cuidar da casa, cozinhar, receber familiares e amigos). Uma mulher da rua (amo bar, dançar, ver o sol raiar). Uma mulher que não sabe ficar na sua (dou pitaco em tudo). Uma mulher meio fora de tempo (estrangeira na terra, como diria Clarice). Uma mulher prolixa,como você pode ver e ler...


Ser mulher é delicado. Exige concentração. Planejamento. Não é algo dado. Escrever também não é nada fácil. Demanda entrega e precisão que às vezes nos escapa. Imagine se ocupar das duas coisas. A gente sofre. Rala. Ama. Ri. E tenta. Tenta agradar e ser autêntica. Tenta ser acolhida e viagem. Ser mãe e amante. Ficar e partir. Tenta acertar pra fazer tudo ficar bem. E tenta errar pra não estar sempre com a razão e diminuir o amado. Tenta, como diz Clarice, escrever, porque é preciso, mas sem esmagar as entrelinhas.Tenta mudar sem perder o que é sua própria essência, que não existe, porque a essência só é na medida da existência. Ser mulher é submeter-se por amor. E só por amor. É saber-se pescoço e se divertir com isso (casamento grego, quem já viu, entende...). É ir de princesa a bacorinha sem pestanejar. É ser porto e lenço. É não ser nada disso e ser outra coisa que é imprescindível pra alguém - ela mesma. Ser mulher não tem forma, regra nem modelo. Só indícios. Salto, batom, sutiã. Colar e brinco. Sim, ser mulher é brincadeira. É um a mais, depois de aprender a ser falante. É uma máscara do nada, mas que lindo é poder ser um pouco de cada vez. A cada mês. Ser mulher é ser lua, às vezes cheia às vezes minguante, vazante. Ser mulher é ser noite escura, mistério e terror. É não poder dizer, nem escrever. É saber-se em falta (nos dois sentidos). É ter todos os sentidos e mais alguns. Ser mulher é delicado, embora nem toda mulher o seja. Ser mulher é ficar feliz como eu estou e, ainda assim, não esquecer a possibilidade da tristeza. É não esquecer Vinícius:uma mulher tem que ter qualquer coisa de triste. Qualquer coisa que sente saudade. Um molejo de amor machucado... Ser mulher é ser uma mulher. É ser uma. Única. Ser Rebecca. Ser Gilda. Bonequinha de Luxo.De qualquer maneira. À sua maneira.

De onde veio tudo isso? Dos vários cantos que insistem em receber letras minhas. Daqui mesmo, Do Graúna, do Miolo de Pote (tudo linkado aí ao lado).

E o mundo virtual me dá respostas inesperadas e tocantes. Um dos blogs que realmente gosto é o Cracatoa Simplesmente Sumiu. E o texto que trouxe riscas ao rosto, sal à boca e uma certa vontade de ser feliz chama-se Dezoito Mil Duzentas e Cinquenta Mulheres.

10 comentários:

HG disse...

Ufa!!!
Já disse uma vez... mas qual o prblema em se repetir?! Sou como Nelson Rodrigues:- Eu me repito!

Quando crescer quero escrever assim...
Lindo mosaico de lindos texto!

Receita de mulher?! Não... receita desta mulher, tão única, verdadeira e linda!

te amo!

Danielle Martins disse...

Quando terminar d eler pela 7ª vez eu comento, tá?! Te amo!

S. disse...

Eu te amo. Já disse? então tá!

Rita disse...

Oi, Luciana. "Ser mulher é delicado. Exige concentração." Esse trechinho tem várias camadas filosóficas, sociológicas, culturais e políticas, hehehehe. De verdade. Vou usar por aí, vou logo avisando.

PARABÉNS por ter seguido em frente na brincadeira de concurso de blogueiras. Viu?

Beijinhos... fiquei com uma vontade de ler Machado mais um pouquinho.. mas ainda ando aos papos com a destemperada da Mme. Bovary. Falta um tiquinho de concentração naquela dali, não falta não?

Bj
Rita

Fred Caju disse...

De tudo um pouco por aqui. não há borboleta que explore mais os ares que essa!

Peterson Quadros disse...

Um começo exaltando o Machado... Já li o Cara e também me encanto a cada leitura...
E a Luciana...Que ser que você é???... Eu entro aqui e saio tão feliz, completamente diferente do que eu era...Chamo sempre a minha Simone para lermos juntinhos e quando não pode, faço como agora, em voz alta para ela, ao final, vibrar em ser mulher!!! Obrigado.

Borboletas nos Olhos disse...

HG, eu me repito e adoro. Só tenho pena dos amigos fiéis...

Dani, como você lê devagar...ainda não terminou a sétima leitura?

S. cadê você?

Rita, já disse lá quase tudo, menos: te quero muito bem, viu?

Fred, tô toda paba e preparando vôo pra seu terreiro. Bjs

Peterson, não aceito. Quero Simone, ela mesma, ora. Tenho certeza que é uma pessoa incrível também (veja, ganhou um elogio às custas dela). E, agora, tentando ser séria (não garanto) quero dizer que eu é que agradeço. Ter comentadores sempre presentes dá uma idéia de aconchego que me faz bem e me dá vontade permanente de escrever. Beijos carinhosos aos dois

Atitude do pensar disse...

Arrepiada, Lu. Quase não aguentando o tremor do corpo.
Preciso lembrar que somos tudo isso, assim a vida fica mais...
Lindo!
Amo-te, viu!?

Liliane disse...

Nem sei como foi que cheguei aqui, mas que bom que foi hoje depois de ler o teu coment lá no blog! Assim retribuo a visita e suas palavras doces :D
Depois de ler um texto assim é bem facil faltar as palavras... Dá até receio de comentar e falar bobagem, e ficar feio depois do lindo acalanto e da rebuscada descrição precisa de todos esses recortes que dão forma a uma pessoa super que nem tu...
Fica bem e não chora não!
bjo

Clara Gurgel disse...

Adoro mulheres que têm esse furacão nos pés como vc, Lú! Li de uma "golada" só. Assim fica mais "parecido" com vc. Ah, e já sabe onde isso vai parar, né?! rsrsrs Bj!

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