domingo, 12 de setembro de 2010

Merci pour le plaisir, l'irrévérence, l'art et, bien sûr, Merci pour le chocolat


Então, morreu. Morrem todos, parece-me. E não morrem, que peculiar. Porque não estão mortos quando eu os vejo, ouço, recordo. Não estão mortos quando seus enquadramentos ainda enchem meus olhos e seus roteiros ainda alentam minha imaginação. Ele não é daqueles que lembro no primeiro pensar. Não figura no Top 5 de diretores, talvez nem no Top 10. E daí? Como mensurar a alegria, os arrepios, as inquietações que suas imagens, seus filmes tão seus, proporcionaram-me? E não é a mágica do cinema justamente ser imensurável? Há palavras para dizer tudo? Eu não as conheço. Morreu, mas há tanta beleza em saber disso: se você nada viu, ainda pode ver tudo (ou tudo que achar, o que a cada dia se torna um tantinho mais fácil com Amazons e afins a suprirem desejos).

Algumas vezes brinquei com a idéia de que filmes são como comida, há os fartos e populares, os de encher os olhos mas sem tanto sabor, os sofisticados, os fast-food, os de rara e saborosa combinação (qualquer dia desenvolvo tudo com exemplos). Pois bem, hoje, mergulhada no meu luto particular de sabê-lo morto, li que ele disse, em sua última entrevista, que gostava de cozinhar e que, afinal, isso não é tão distante de fazer cinema. Se assim é, deve ser um bom cozinheiro. Ele sabia usar a espera. O suspense. E o que há de mais saboroso na comida do que antecipá-la? Usava, irreverente, fortes temperos. Com certeza, eram pratos com gosto. Nada mediano. E podia alimentar muitos, fez tantos filmes que nem sei contar. Foi irregular, mas não tinha medo disso. Sua obra-prima não era a última, mas a próxima. Gosto dos audazes.

Ferino. Impertinente. Mordaz. Tinha um alvo: a burguesia francesa. Com humor, desvelava hipocrisias e violências. Mas não se esquecia de viver. Conversava, comia, bebia, trepava - como bem queria o tal Sardanapalo. Ele sabia a simplicidade, é uma coisa boa de se saber. Ele sabia o sorriso. Outra coisa que me apetece.

Como será o mundo, como será o cinema sem Claude Chabrol? Não sei, mas acabo de recordar Isabelle Huppert em A Comédia do Poder. “Qu’ils se démerdent”. Pois é. Morreu.



2 comentários:

Caso me esqueçam disse...

cada visita aqui me apresenta mais coisas legais.
sinto muito pela sua perda... btw.

Borboletas nos Olhos disse...

Querida, eu adoro suas visitas. Sinto-me très chic. Bjs, grata pela solidariedade...

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