segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Banzo


Então, eu sou uma pessoa de muito riso, pouco siso e, menos ainda, pranto. Até quando estou triste faço piada, não tenho jeito. Só que não estou triste. Não estou deprimida. Não estou ansiosa. Estou mesmo é de banzo. Um grande, profundo e inescrutável banzo. Um ano e seis meses na nova cidade. O primeiro ano eu não senti. Era tempo de aventura e de preparação. Gente nova pra conhecer, trabalho gostoso pra me ambientar, esperando o grande amor e filho que viriam morar junto, casa nova a ser planejada, viagens freqüentes pra ver papys e mamyys, clima de festa sempre, reencontros...eu não sentia nada, a vida me levava em largas pernadas que eu nem me esforçava pra acompanhar.

Mas ano novo e a vida nunca é o que planejamos. Pelo menos a minha. Enfim: o grande amor virou fumaça, a casa nova ainda está em construção, o filhote veio na adolescência, as pessoas a conhecer já estavam todas conhecidas, os lugares todos desvendados. E eu comecei a sentir falta do cheirinho de casa. Quero minha cidade. Quero além, quero quem sou quando estou por lá. É até meio contraditório porque gosto mesmo é do meio da rua. Mas não tenho dinheiro pra viver viajando, então, o melhor lugar entre uma estação e outra é...minha casa. Aquela localizada na avenida de sempre. Lá, onde passam todos os ônibus.

Quero minha cidade onde eu sei tudo que eu quero saber: onde cobrir um botão, onde comprar papel laminado, onde consertar um sapato. Quero todos os cinemas perto. Quero minha cidade de sinucas e conversa jogada fora no pé do balcão. Quero os bares de sempre. Quero os restaurantes de nunca. Quero a praia com jeito de meu quintal. Quero me lambuzar de caranguejo. Quero ir ao Mucuripe e comprar cinco quilos de camarão. Quero ser aquela eu. Só que de cabelo curto. Quero ir ao Teatro Celina Queiroz. Ao José de Alencar. Quero farrear na Casa Alheia. Quero fazer compras no Mercado Central. Quero ser bairrista. Quero meu mar azul e verde e azul numa variação de belezas que estão nos meus olhos.

Quero me sentir na minha. Quero deitar encolhida e saber que a minha dor tem canto certo. Quero gargalhar na janela e ouvir o eco. Quero as esquinas conhecidas. Quero as ruas desconhecidas mas já tão minhas antes mesmo de chegar lá. Quero me saber em detalhes e desconhecer em partes iguais. Quero meu banheiro de vidro, tão planejado e tão mangado. Quero minha sala quente de pegar sol o dia todo. Quero o pó preto do asfalto cobrindo os móveis e me chateando. Quero me chatear. Não quero ser estranha na minha cidade, não quero pegar uma rua e descobrir que está em obras já faz tempo. E eu não sabia. Eu quero saber. Quero minhas livrarias, aquelas em que eu já sei onde deixei cada livro que quero comprar. Quero os sebos, poeira enchendo meus olhos de espanto e descobertas. Quero sentir que sou estrangeira em meu lugar, mas de uma forma íntima e cúmplice. Quero me sentir na palma da mão.

Eu sei que eu sou a própria mão. Eu sei que eu sou minha própria casa. Eu sei que o cheiro conhecido é o meu. Eu sei que só eu sou meu fim da estrada. Eu sei que sou meus pontos de referência, minhas placas, minhas esquinas íntimas. Eu sei. Mas e daí? Não se faz uma canja com um saber. Não se gela uma cerveja com um saber. Não se sente um abraço com um saber. Um saber não é uma língua outra na minha boca. Um saber não é o barulho de carros lá em baixo e nem o riso de gente conhecida cá na sala. Um saber não é.

No último post terminei a saga 5 (que viraram 25) coisas que me fazem feliz. Vai ver isso é ressaca. Aliás, esta é uma coisa que sempre quis partilhar e nunca deu certo. Vou fazer de conta que isso foi uma deixa apropriada: eu nunca tive ressaca. Pois é, até já me embebedei (no meu chá de panela) a ponto de esquecer de tudo que disse (intimidades de fazer corar uma stripper) e tudo que fiz (o mesmo que a mocinha que corou na frase anterior faz). Mas caí desmaiada e acordei quatro horas depois como nova. Lépida e fagueira. Outra vez, em JP, uma tal cachaça de canela quase tirou meus pés do chão (ou foi o rapaz fofo e de língua gentil?). Mas ressaca, nada, nadica. Acho isso bem perigoso.

De qualquer forma, de alguma forma, sempre há alentos. Como um cumprimento gentil (tema de um post em gestação: as mais fofas cantadas e os elogios mais comoventes já recebidos por esta Borboleta gabola). Ou os homens. Sabe, eles surpreendem. No desejo inesperado do camarada fofo, nas lembranças doces de uma voz estrangeira, nas quase indecências de um anseio além-mar, na possibilidade suave do moço bonito. Eu nunca disse porque ele é bonito, disse? Ele é tão sério. Tão diferente do meu muito riso. E ele é repentinamente doce. Mas também seco. Ele parte. Ele sabe ficar. Ele ainda não é. Nem, talvez, venha a ser. Mas me faz bem, tão bem.

UTILIDADE PÚBLICA. Uma coisa que me impressionou e fez pensar: Elena e os Polímeros. Leiam, sofram, revoltem-se, sintam.

E, claro, perguntinha básica: já votou? Já vai começar a quarta fase. Vai lá, vai.



11 comentários:

Rita disse...

Oi, Luciana

Huumm... homesick. É engraçado esse negócio de um lugar da gente. Porque nem sempre é óbvio. Às vezes queremos porque queremos, não porque o lugar seja melhor em nada... bom, divaguei. Estou aqui pensando se um dia ainda vou mudar de novo. Ou se virei planta. Viajei.

Beijo
Rita

HG disse...

Ai amiga... me identifico tanto com teu banzo! Sei que ainda tenho muito a conhecer e desvendar desta Holanda, mas queria tanto meu Cearazim de volta!!! Sei e sinto, extamente, o que descreveste...

P.S.: Mas, não dava pra não mangar, né, amiga! Desengonçada como tu és, fazer um banheiro de vidro... Era engraçado! kkkkkkkkkkk
Mas até que tu nem o pususte a baixo!
beijos

HG disse...

* puseste.

Caso me esqueçam disse...

ai, que bom ler esse post. quer dizer, sinto muito pela sua situacao, mas eh que o post traz conforto a quem partilha dela. "Quero minha cidade onde eu sei tudo que eu quero saber: onde cobrir um botão, onde comprar papel laminado, onde consertar um sapato". pois eh! hoje me vi querendo tirar uma simples xerox e nao sabia onde. em JP, conheço, sei la, mil lugares onde eu possa fazer isso. me vi muito nesse post: depois que a novidade passa, sobra a saudade...

Allan Robert P. J. disse...

Tenho uma má notícia para você: uma vez expatriado, estrangeiro para sempre. As pessoas mudam, as cidades também. O clima jamais será o mesmo e quando você estiver em um lugar, vai sentir falta do outro. Desista agora ou torne-se cidadã do mundo. Sem arrependimentos.

Peterson Quadros disse...

Quando as borboletas chegam aos meus olhos, normalmente acabo pensando em coisas adormecidas... Minha Pomerode, que saudade de casa!!!
Que descricao a sua hein??? Me levou a um lugar maravilhoso, depois veio a saga e um final apaixonado porém com os pés no chao...Obrigado pelo texto ...

Danielle Martins disse...

E eu? tenho saudades de você!!!!

Lunna Guedes disse...

Eu hoje quero um canto pra chamar de meu sem ninguém pra chamar por mim. Gostei do nome disso "banzo". rs
Bacio carissima

Belos e Malvados disse...

Ai Lu, banzo não combina com você. Sinta-se abraçada mil vezes.

ALEX disse...

Sobre o banzo

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

Sobre a ultima parte do Post

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente

Um cheiro

Alex Ramos

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, não viro planta nem pedra que rola. Não crio lodo, mas esverdeio. Fazer o que? E divague aqui, é tão bom...

Hg, como disse a Rita aí em cima, nem melhor nem pior, mas é o que a gente quer...e pois é, fui resistente e mantive-o intacto.

Casomeesqueçam...você sempre me faz tão bem! Fico feliz de ter dado algum conforto. Bjs

Allan, acho que sou cidadã de outro mundo. Estrangeira na terra.

Peterson, sempre celebro sua visita, pois seus comentários são tão lisonjeiros e perspicazes. Um beijo

Dani, a recíproca...

Lunna, sentimento feito frase na mais perfeita compreensão. Bjs e bjs

Belos, estava com saudades! Senti seus abraços e já fiquei um tantinho melhor...

Alex, perdoe-me ter pulado você nos comentários de ontem. Agradeço duplamente hoje sua presença carinhosa e seus comentários sempre inspirados. Bjs

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