sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Aulas com Cor: Laranja

Tenho que confessar: estou gostando muito da minha turma de Psicologia Jurídica. Claro, todas as reservas continuam: não é minha área de pesquisa, o programa não é bem estruturado, desvia-me das minhas atividades de interesse, etc. É verdade que tive que sair da minha zona de conforto. E que estou tendo que estudar muito e mais ainda. Mas, confesso: estou gostando. Primeiro, os garotos e garotas são curiosos. Eles realmente chegam à aula com os textos lidos e refletidos. E perguntam. E respondem. E participam de debates e atividades com vigor e foco. E, poxa, é bom vê-los inquietos, pensativos, empolgados, protestando, querendo entender e se sentindo "balançados". É assim mesmo que se deve estudar psicologia, como se ela fosse um enorme ponto de interrogação no nosso vazio. Depois: estou voltando a uns assuntos e textos que há muito eu não visitava. E me surpreendo envolvida. Que gostoso ir redescobrindo o que sei. Conceitos, raciocínios, idéias, que eu nem imaginava mais em mim, vão se desvelando, as palavras se encadeando numa lógica que eu quase paro a aula só pra apreciar.

E, ontem, foi ainda melhor: vimos Laranja Mecãnica. Yes. Primeiro, adoro a linguagem com que Alex narra sua história. Nadsat. As palavras são um convite a viver uma experiência tão próxima e tão alheia. Depois: os erros de continuidade. Quer dizer, erros é só um jeito de dizer que nem tudo permanece o mesmo durante o filme. De propósito, Kubrick alterava posição de pratos, por exemplo, pra causar uma certa confusão mental. Funciona. E, então, a música. Não sei se, em algum outro filme, a música é, ao mesmo tempo, tão protagonista e tão moldura. Ela qualifica as cenas, contrapõe-se, objeta. A música é, em alguns instantes, caminho de empatia entre espectador e personagem e, em outros tantos momentos, quase um safanão pra nos mostrar o horror das ações realizadas. A Nona é tocada à exaustão e, em cada momento, coloca-se diferente, única, situação irrepetível (existe essa palavras?). A atuação de Malcolm McDowel vale um comentário à parte. Expressões faciais indescritíveis e um olhar que me chega como abismo. Gosto das perguntas sobre o que nos faz realmente humanos. Gosto de pensar sobre as escolhas. De pensar sobre a violência, sobre desejos, sobre a sociedade. Nos tempos do hoje, tempo de eleições no Brasil, gosto de pensar no Estado. O filme é tão bom porque trata com estranheza o que é usual e comum e com extrema intimidade o que é tão alheio ou raro. E nos faz perguntar se realment eo que sentimos como comum é comum e o que nos parece distante é tão distante assim. E é bom, também, porque tecnicamente falando é brilhante. O uso das cores, os cortes, os closes. Cenas coreografadas de fazer inveja a qualquer Comissão de Frente de Escola de Samba do Grupo Especial no Rio de Janeiro. Um filme fascinante. Um filme perturbador. Bom demais.


Um comentário:

HG disse...

Eu sempre soube que ias dar a volta na Psicologia Jurídica! kkkkkk

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