quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Nas Ondas do Rádio

Sempre que te escrevo, começo hesitante, incerta quanto ao lugar onde minhas palavras repousarão. Penso se não é idealizada a imagem que tenho de ti e das coisas que você faz; ou o fato de eu considerar, a mim, por vezes, uma personagem de Dostoievski, Natassia Fillippovna, Katja ou Grushenka, e sempre oscilar entre o drama e o incompreensível. Mas o fato é que vivemos melhor por essas imagens de sonho e fantasia, com as quais atravessamos a vida, com todos os sentidos que atravessar possa ter. Escrevo, então, porque o que mais pode fazer quem tem o corpo no exílio? Restam-me as palavras porque não posso estender a minha mão e tocar o dorso da tua, numa intimidade de mostrar o mundo, restam-me as palavras porque não esbarramos os ombros quando andamos distraídos de nós mesmos. Restam-me as palavras porque não podemos, de costas um pro outro, ver quem é mais alto nem podemos medir nossas mãos e ver a minha se perder na tua. Restam-me as palavras porque não posso saber tua pele, cheiro e gosto. As palavras são insuficientes, eu sei, eu sinto, mas são o que me resta e, assim, são o que melhor posso ter. Esforço-me procurando as que se aproximam dessa fome, dessa solidão de estar só de ti.

À parte disso tudo, dessa vontade que não sei dar nome, eu sempre te escrevo certa de que haverá alguma coisa muito interessante que você vai me mostrar, algo belo, impactante e certo, como um relicário, como um poema, como uma tarde de maio.

Lacan já dizia “digo sempre a verdade, não toda, pois dizê-la toda é impossível”. Eu penso que ele não se referia às pequenas coisas cotidianas, o respeito aos fatos compartilhados entre nós, humanos, não falava da necessidade de dizer com exatidão horários e tamanhos. Essa verdade impossível, a verdade sobre nós mesmos, esta é impossível de ser dita toda, pois não existe um todo em nós. Não, ela – a verdade - não existe toda em nós. Nós, humanos, nos constituímos exatamente por essa falta, essa ausência que nos dá sentido e que nos faz falar (ou, no caso, escrever) para dela dar conta sem nunca conseguir dizê-la toda. Assim as imagens que construo podem não ser verdadeiras, mas jamais serão falsas, pois tratam exatamente desta dificuldade de ser humana.

Nessa tentativa de dizer-me, de dizer a parte da verdade possível, faço escavações nas ruínas da minha memória em busca de palavras que digam o calor da pele, digam a ânsia da alma, digam a sombra do desejo. Palavras que sejam abraços, aconchego, apoio. Palavras que exijam, desafiem, provoquem, incomodem. Palavras que me tornem tangível, palavras que você possa afagar, quase como se fosse possível tocar a letra como se pele fosse. Palavras que me apresentem, me representem. Tipo: ternura, laços de fita, toque, mão, suspiro, mar, música, não, sim, porque, dormir, madrugada, estrada, épico, amanhã, quero, cartas, olhos. E o corpo espera. Espera o encontro, o abrigo, espera a vez dele. Espera, principalmente, um tempo em que não precisará esperar.

7 comentários:

HGlauce disse...

Que lindo, Borboleta!
Amei o texto... Mesmo na preguiça de hoje, me alertei ao ler-te!
Beijo.

Rafa disse...

Ai: Alegria - Tu és um tu para mim.

Danielle Martins disse...

Estou aqui.. bem quietinha.. mas estou aqui... Beijinhos!

S. disse...

já passaram os cinco dias?
Abraços sabidos

Insana disse...

Sauba que suas palavras sempre chega ao coraçao mais incerto ainda de quem ler.

bjs
Insana

Borboletas nos Olhos disse...

HG, aqui para melhor servir-te.

Rafa, você já sabe né? Amizade pra sempre

Dani, eu sempre recebo seu amor

S. ele me escreveu, vou ter que começar a contagem de novo

Insana, sua presença e comentários sempre me alegram

Borboletas nos Olhos disse...

S., SMS de além mar vale, né?

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