quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Mulher da Vida

Eu leio um blog maravilhoso em que coisas importantes são apresentadas, discutidas, consensuadas. Tenho uma vontade danada de dar uma palhinha nos comentários, mas cadê a coragem? Lola é tudo de bom. Aí ela resolveu lançar um concurso entre as blogueiras. Claro está que eu me alvorocei toda, né? Pensei: agora vai. Mas veio o tema e um balde de água fria. É pra cada uma escrever sobre as origens do seu feminismo. Taí o problema, não sei se sou feminista. Não me sinto assim. Não me sinto também machista e não acho que essas sejam situações absolutas do tipo ou um ou outro. A Rita (por quem todo mundo já sabe que me derreto) escreveu um post lindo, lindo. Não vi os demais concorrentes mas, por mim, o dela levava fácil, fácil.

Foi o post da Rita que me fez pensar o meu não-sei-se -sou-feminista. O título do post já foi - pra mim - uma interrogação: Menina pode, sim. E eu: ué, claro que pode. Como não pode? A rua em que cresci era muito peculiar, uma rua fechada, mais ou menos 20 casas, mas ou menos 20 crianças. Hora de correr? Todos corriam. Hora de dormir? Era de todos. Carrinho, boneca, bola, giz e asfalto? De todos. Meu colégio era só de menina. Não tinha ninguém fazendo nada que eu não podia fazer (pelo menos não ali, na minha cara). Ah, minha mãe não trabalhava fora de casa. Mas, isso, nunca foi percebido por mim como demérito. Aliás, sendo totalmente sincera, isso nunca foi notado por mim e ponto. Eles (pai e mãe) combinavam tudo (até meus castigos) em longas e igualitárias conversas. Se algum dia notei que rolava poder de um sobre outro, era da minha mãe pro meu pai e isso porque ele é tão apaixonado por ela que dá pra notar os olhos dele babando. Sempre fui incentivada a pensar. A falar. A agir. A responsabilizar-me pelas minhas escolhas. E sempre me foi dito nãos, simples e diretos, quando os assuntos eram além do meu poder de decisão, não porque eu fosse menina, mas por ser criança e/ou adolescente sem maturidade nem dinheiro pra bancar os anseios. Quando chegou o tempo do amor, essa coisa de "valorizar-se" e "se dar ao respeito" apareceu sim. Mas apareceu igualzinho e sem cortes, dez anos depois, quando chegou o mesmo tempo pro meu irmão. Podia fazer Ctrl+C, Ctrl+V do discurso que foi feito pra mim pro discurso que foi feito pra ele. Depois, com quinze anos, estava escolhendo o curso pra fazer vestibular. E, contra todos os -bons ? - conselhos, nunca houve uma reserva, uma contemporização por parte dos pais. O que eu queria era o que era e pronto. Nos amores, tudo sempre foi simples: como não sei paquerar mesmo, se eu ficasse a fim e fosse mais rápida, era eu que tomava a iniciativa mesmo. Nem conto as vezes que disse: gosto de você. Pode ser ou tá difícil? (claro que com um pouco mais de classe, poesia e citações buarqueanas).
Eu tenho valores humanistas. Acredito e luto pela proteção à vida (inteira, complexa e bonita), pela liberdade, direito de expressão, dignidade. Pra homens e mulheres. Sou, também, a favor da eqüidade e acho mesmo que é preciso uma luta muito mais intensa na proteção de todas essas coisas (liberdade, expressão, dignidade) no que se refere às mulheres, já que violentadas nesses direitos por mais tempo e mais intensamente. Se ser feminista for buscar a igualdade de direitos políticos e sociais para pessoas de todos os sexos, bom, eu posso inscrever este post e concorrer no blog da Lola. Mas se tiver mais coisas que, se não estão explícitas nos tratados, estão latentes em muitos discursos feministas, aí não sou. Eu não acredito em uma natureza humana. Assim, não posso crer em uma natureza feminina ou uma natureza masculina. Assim, não posso defender que homens e mulheres são, naturalmente, iguais. Ou naturalmente, diferentes. Assim, eis-me fora de novo. Eu sempre brinco que meu problema foi ter conhecido o Alberoni e seu O Erotismo. Então, coragem Borboleta, vá à luta e descubra. Ou melhor, ao concurso. Feminista? Eis-me aqui.

PARTE II
Começou o horário eleitoral. Claro que chorei ao ver o programa da Dilma. Tenho um orgulho danado do governo que o Lula conseguiu fazer e uma alegria potencial de pensar no tanto que a Dilma pode completar. E, por não achar que homens e mulheres são iguais (e nem achar que pessoas quaisquer possam ser iguais, inclusive Lula e Dilma) tô no maior alvoroço esperando as mudanças que Dilma implantará.

PARTE III
E tem a Sakineh Ashtiani. Desde a primeira vez que li sobre essa história minha garganta travou e eu me dei conta da minha impotência. Como, como, como é possível que não só um ser humano mas um Estado se proponha a legislar sobre o direito à vida de outrem? Não é por ela ser mulher que sou contra sua condenação à morte. Sou contra a pena de morte em qualquer situação e para qualquer sexo. Mas entendo (e me revolto) que é por ela ser mulher que está sendo condenada, neste regime, à morte. É por ela ser mulher e ter tido prazer com seu corpo com quem quis, como eu faço sempre que posso/quero, sem ter nunca pensado nisso como um ato potencialmente perigoso, que ela agora se vê exposta ao ajuizamento alheio de como ela deveria se comportar e do tanto que deve viver. Estou sendo simplista? Claro que sim, este é um blog bobo, escrito por uma menina tola e esvoaçante que passa a maior parte do seu tempo entre livros e filmes e sonhos. Mas me dói todo o dia o dia todo sabê-la assim. Vulnerável. Tola, superficial e restrita é a minha abordagem do tema. Não importa. O que importa é que a gente se importe. Porque, parece-me, cada dia estamos mais distantes do necessário.



Valeu-me, sempre, Milton Nascimento: a vida é mulher,

13 comentários:

Caminhante disse...

Ih, tbm brochei com o tema. E olha que vivem me chamando de feminista.

Insana disse...

Obrigada pela dica do Blog.

bjs
Insana

HGlauce disse...

Ai Borboleta... o post foi maravilhoso. nem sei se comento o feminismo (não sou, definitivamente!), não sei se falo do Milton (que amo, loucamente)... Mas sei que inveja senti ao te ler falar sobre o programa da Dilma! Como eu queria ter visto.. e ver os próximos!!!!

Rita disse...

Borboleta, oi.

Claro, em primeiro lugar, obrigada por seus doces comentários. Sempre. De verdade.

Em segundo lugar, seu post, tirando aquela primeira parte pela qual agradeci aí em cima, enquadra-se perfeitamente no concurso. Você não se lembra que a Lola abriu um pouco o tema, deixando que o feminismo seja explorado da forma como toca a vida de cada uma? Tá lá, vai ver, no post em que ela divulga o concurso. Então seus valores humanistas e a forma como seus pais encaram a criação dos filhos e tal estão inteiramente afinados com a temática do concurso. Sugiro que você o republique, editando o início, e divulgue o link para a Lola. E, pelo amor de buarque, comece a comentar por lá, ora pois!! E sim, feminismo quer todo mundo igual. E sua percepção ilustrada na parte III do seu post mostra claramente que seu feminismo, rotulado ou não, está aí, com você. E considere que se você tivesse tido outra criação e tivesse convivido com o machismo dentro de casa, talvez não tivesse a menor dúvida de que isso aí que você tem é feminismo, sim. Ou será que não? 3 minutos para a tréplica.

Beijos, querida.
Rita

Borboletas nos Olhos disse...

Minha queridíssima Rita, será que estou nos três minutos? Eu acho que os valores que tenho são resultado da forma como fui educada e das experiências que tive. Não sei, não consigo imaginar como eu poderia ser, se eu não fosse eu. Se tivesse tido outras experiências e modelos, como seria? Sim, eu podia ser sabida e guerreira como tantas, mas, não posso ter certeza, poderia ser o que tanto me chateia, mulheres que se sacodem ao som de ah, só as cachorras, as popozudas, as preparadas. Sou chata, nem de brincadeira eu aceito que se cante(?) perto de mim que um tapinha não dói. Mas, quem sabe, eu não cantaria? Como leitora de psicanálise e apaixonada pelo materialismo histórico dialético eu não posso, não consigo, supor uma natureza igual para homens e mulheres porque não consigo supor uma natureza humana.
Apesar disso tudo, sou facilmente influenciável pelas pessoas que respeito e gosto. E, poxa, respeito e gosto de você uma montão. Vou tentar reeditar o começo sim (suponho que voce se refira ao já ganhou, ja ganhou da minha torcida) e vou tomar coragem ou uma cerveja e enviar o link pra Lola. Bjs carinhosos

Borboletas nos Olhos disse...

HG, eu adoro horário político, porque os programas do PT sempre me comovem.

Insana, é um blog incrível, vale a leitura.

Caminhante, também me dizem, mas não consigo me reconhecer no título.

Danielle Martins disse...

Que texto lindo! Você é sempre maravilhosa, me deliciei! Cheiros de uma mulherzinha!

Rita disse...

Minha linda, esse papo de "natureza feminina, masculina, meio a meio" me dá sono, sim. Acho que posso ter me expressado mal. Qdo digo que o feminismo quer "todo mundo igual" falo politicamente, socialmente, sabe? Ai, esse papo vai tão longe. E acho que o concurso é uma chance de esticarmos a coisa um tantinho mais. Entra, entra, sim. Vai ser divertido, no mínimo!

(ah, o objetivo dos concursos da Lola é sempre divulgar blogs, pôr blogueiras em contato, discutir um tema relevante; a gente já entra ganhando. Fiz amigas por causa do último concurso.)

Beijocas
Rita

Nathália. disse...

"Este é um blog bobo", diz você. Este é um blog cheio de sentimentos. Belo texto. É bom ver gente com ideologia, ainda mais quando a ideologia sua não destrói a vida de ninguém! :-)

primeirocego disse...

Oi, Borboleta, obrigado pelso comentários lá no meu blog!

Então, um dos principais alvos de questionamento feminista é justamente essa natureza humana, porque ela é usada implícita ou explicitamente para justificar diferenças de tratamento entrem os gêneros. As mulheres criam os filhos porque é natural delas, elas têm instinto materno. Os homens ganham salários melhores porque é natural deles serem mais competitivos, etc., etc.... Não acho que você precise acreditar que homens e mulheres são naturalmente iguais para ser feminista,
pra mim a essência de ser feminista é exatamente o que você falou: "buscar a igualdade de direitos políticos e sociais para pessoas de todos os sexos". A partir daí, cada pessoa é que define o que significa para si ser feminista, ninguém é dono do movimento nem do rótulo. Aliás, não é nem necessário se reconhecer no rótulo, basta acreditar e trabalhar de qualquer pequena maneira para a igualdade social entre os gêneros, que importa que nome isso tem?

Abraço!

Glória Maria Vieira disse...

Borboleta! Que poste maravilhoso! Adorei, viu?! Olha... eu acho que você é sim uma feminista e de mão cheia, tá?!;)

Beijo!

Clara Gurgel disse...

Oi Borboleta! Me identifiquei muito com o seu texto.Muito bom!Ainda bem que vc participou.Só acrescentou!Bj!

Niemi Hyyrynen disse...

olá borboleta.

acho que essa busca pelo que se é e pelo que se acredita é totalmente válido.

querer igualdade é antes de qualquer rótulo, um ato humano. :)

que os nomes das ações não sejam mais importantes do que as idéias que os movem.

Niemi

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