terça-feira, 10 de agosto de 2010

Em Estado de Graça...

Há, em certas produções humanas, a capacidade de me arrebatar. Como assim? Assim mesmo, tal como do dicionário...

sm (arrebatar+mento2) 1 Ação de arrebatar. 2 Furor repentino; impulso. 3 Excitação, transporte. Ver: arrebatadura, arroubamento.

Ou, de forma mais completa, o verbo arrebatar:

■ verbo
1 puxar, levar com força, violência ou de súbito; arrancar; 2 levar, carregar pelos ares (o vento); 3 cometer o crime de rapto contra; seqüestrar ; 4 atrair ou sentir-se atraído; enlevar(-se), encantar(-se), extasiar(-se); 5 enfurecer ou deixar-se levar pela fúria; encolerizar(-se), irar(-se); 6 provocar, suscitar, despertar (reações emocionadas);
7 exercer domínio sobre a afetividade de (alguém); 8 experimentar sensação de êxtase; enlevar-se, maravilhar-se; 9 tornar-se apaixonado; enamorar-se .

Assim é, sinto-me arrancada da morna tranqüilidade necessária ao correr dos dias. O vento varre as certezas, as âncoras, as raízes, seqüestra minha paz e a mantém refém dos meus anseios sem nome. Há êxtase e riso e uma certa loucura. Há também uma quase ira de saber que há um fim do arrebatamento, que não se pode viver um tom acima. Eu maravilho-me, enamoro-me do meu próprio sentir, gozo do incrível fato de estar com todos os sentidos em alerta.

Sinto-me tomada, excitada, em um impulso poderia valsar, rodopiar, gritar ou quedar-me muda e extasiada por horas ante o que me arrebata o espírito. O arrebatamento exige corpo, exige movimento, exige expansão. O que me arrebata? Pode ser uma fotografia, um quadro, uma música. Pode ser um prédio, um trecho de um livro, um arranjo de flores. Há qualquer coisa além da beleza, um a mais que não pode ser definido, que toca meu desejo, expõe minhas lacunas, incita todos os sentidos. Fico ofegante, esfomeada, elétrica.

Isso me veio de ouvir Pois Con Tanta Graça. Desde hoje cedo que, sempre que há uma oportunidade, fecho os olhos, deixo o corpo mover-se como quer e, simplesmente, escuto. Escuto com os ouvidos, com as mãos, com os seios, com o estômago e com os pés. Escuto com a boca, com o pescoço, com o coração. Escuto, principalmente, com os olhos que se fecham para melhor enxergar as vozes. Eu, se fosse vocês, qualquer um de vocês, escutava. Mas há aqueles que não recomendo, peço: escute. Escute, Rita, pois há uma leveza como em sua pena. Escute, HG, pois há uma tal completude. Escute, você, que se encanta com a graça.



Se você ficou encantado e quer saber mais, pode ler aqui, no cemitério de sempre, foi de lá que roubei o vídeo, ou aqui.



Depois de quase fechado o post, lembrei-me de um querer, um querer que me norteia e determina, um querer que deriva de palavras que sempre e repetidamente me arrebatam. Eu quero assim...


Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher. À noite eu vejo, às vezes, a silhueta de um homem que, numa estrada vazia e numa paisagem deserta, anda atrás de um carro fúnebre. Eu sou esse homem. É você que esse carro leva. Não quero assistir à sua cremação; nem quero receber a urna com as suas cinzas. Ouço a voz de Kathleen Ferrier cantando: “O mundo está vazio, não quero mais viver”, e desperto. Eu vigio a sua respiração, minha mão toca você. Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la junto.

E, se não é possível viver tal qual as palavras de An
dré Gorz,
que me seja possível desejá-las.

12 comentários:

HGlauce disse...

Adorei!!!
Obrigada por me apresentar!
Um beijo na alma.... arrebatada!

Danielle Martins disse...

E como não desejar?
Beijos!

S. disse...

Eu quero um velhinho para chamar de meu...
eu queroooooooooooo.
beijinhos doces

Lunna Guedes disse...

E agora eu tenho um sorriso aqui em meus lábios. Meu menino me faz pensar que sim (no meu caso) é completamente possível. Engraçado isso porque há pouco eu estava lendo alguns trechos desse livro e fazendo uma brincadeira comparativa com o meu menino. Acho que vou postar lá no teorias. Bacio

Rita disse...

Sabe quando você tem um dia bom e sente-se já satisfeita? Porque correu tudo bem e teve a yoga e as crianças e a comilança e algumas leituras e pinturas e carinhos? E aí você diz: já pode acabar, foi bom, esse. Mas ainda restava uma surpresinha, sabe? O que dizer, agora? Obrigada, minha linda. Eu vou crer que a Rita sou eu - se for outra, sorry about that - e digo que atendi seu pedido doce com prazer, olhos fechados e alegria. Obrigada, de novo.

Bj
Rita

. disse...

Belíssimo post! Tão bom pousar aqui... =)

Beijo,
Ane

Insana disse...

a forma que você colocou o verbo arrebatar, foi perfeita.

bjs
Insana

Belos e Malvados disse...

Ótimo post, eu estava precisando de uma chacoalhada. Já tem um bom tempo que as coisas não me "arrebatam". Abços.

Manuel S. Fonseca disse...

Borboleta, post arrebatado e arrebatador. Faz tempo que não escreve e vim aqui visitá-la, para ver se estava bem. Suas incursões inteligentes fazem falta ao cemitério. Não se esqueça de aparecer.

Borboletas nos Olhos disse...

HG, beijos sempre, claro.

Dani, desejemos, pois não somos mais que humanas.

S, eu quero um velhinho pra chamar de meu [2]. Faz tempo que procuro...

Rita, você é você. Docemente e, espero, arrebatada, você. Que bom que gostou. Gosto que gostes. Bjs

Anne, bom recebê-la e bom visitá-la. Bjs viajantes

Insana, sempre és demasiadamente generosa comigo. Eu gosto, Continue, por favor...

Belos e Mal, como canta Vanessa, não me deixe só...vê lá, hein!

Manuel, flano agora mais vermelhinha e sorridente...

Borboletas nos Olhos disse...

Lunna, pulei você, como isso aconteceu? Ah, já sei, inveja, provavelmente...

SUBÚRBIO-SP disse...

Muito bom o blog, parabéns.
Escrevi uma poesia ai saiu você.

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