quinta-feira, 22 de julho de 2010

Só Coisas Boas ou O Sertão da Borboleta

Não aguentando mais o clima Caio Fernando Abreu, está decidido: só coisas boas (pelo menos até a hemorragia voltar). Uma delas: férias. Muito bem registradas aqui (e a autopromoção continua...). Outra: família. Estou no clima. Acho que é porque vou viajar com meu irmão. Amo muito tudo isso. Minha família extensa (incluindo tios, tios dos tios e toda a primarada semi-conhecida) é extensa mesmo. E tem gente em uma porção de lugares. Mas, se falar assim: visitar a família, já penso Pedra Branca. Lá, a felicidade sem gelo. Pura. O riso mais solto. As melhores histórias. As comidas mais saborosas. Até a natureza eu gosto, lá (e apenas lá, ninguém se anime).

Eu sou uma pessoa de muitas referências, como sempre digo: livros demais, filmes demais. Mas se for pra escolher, eu sou uma sertaneja. Sim, há controvérsias, cresci quase dentro do mar. Mas eu crescia na praia e o sertão crescia em mim. Estava procurando as palavras pra explicar isso, como me sinto e me lembrei que as palavras já existem, já escrevi isso, em outro lugar e tempo, mas ainda assim, eu. E, como eu nunca tive pejo de me reinventar, reescrevo e reedito:

Gosto de ser brasileira e não sou separatista nem nada do gênero. Mas que a Borboleta "dá o móvalô" ser nordestina, ah, dá sim (caso não saiba o que é: "dar o móvalô" tá bom de ler o dicionário de cearencês)...E os motivos? Vão de uma rede com varanda embalada por descalços pés até a sonoridade da fala, o som da sanfona choradeira, a belezura dos termos: chamegar, xodó, lundu, descambar, cangote, léguas, amiudar, remexer, minina e afins. Gosto de bolo de milho, ovo caipira, galinha à cabidela. Banho de açude. Gosto do sol rachando a terra e gosto da ânsia com que recebo a chuva. Também pra mim, como pro Gonzaguinha, o lindo "é céu cinzento, com clarão entoando o seu refrão, prenúncio que vem trazendo alento, da chegada da chuva no sertão..."

Ser nordestina, eu sinto, é sertãozão a perder de vista, molecada correndo solta misturada com galinha, porco, bode...Ser nordestina pra mim é ter sempre café coado pra oferecer ao passante, é ter sempre o riso maior do que a boca, é ter sempre mais boca do que dente. Ser nordestina é se abobar vendo a lua e acender fogueira como quem acende o peito e manda notícia pra São Jorge. Ser nordestina é ser religiosa, de uma fé arteira, com menos culpa do que festejos. Ser nordestina é deixar o tempo passar sem passar por ele. É saber do mar e pensar se é bom que nem açude.

Eu cresci à beira-mar, mas minh' alma cresceu lá pelas outras bandas, ouvindo canto de assum preto, acauã e asa branca. Ser nordestina é ser esprangida e recatada, num vai e vem de dizer que a saia termina cedo pois pra dançar o xenhenhem facilita mas se cobrir de rubor só de pensar no par com que se vai dançar. Váentender...

Ser nordestina, em mim, é saber de uma sabedoria que se perde nos modernismos, é saber que é bom andar de mão dada, dormir cedo, ficar calada no ir e vir da cadeira de balanço vendo o tempo passar, é sentir cheiro e gosto de leite "mugido", é calar quando fala o mais velho, é saber dos parentes de antes: "é a filha do cumpade Pedro, neto da Joaninha de Barro Novo que se casou com o Bastião da d. Preta". Ser nordestina, pra mim, é ser filha e neta e sobrinha e sobrinha neta e sei lá mais o quê da felicidade.

Ser nordestina é difícil? Sim, não falei ainda da dureza de se acordar cedo e andar léguas atrás de um balde d'água mesmo nesses tempos de internet. Não disse do machismo, das mortes vãs, da precariedade dos serviços, não disse das dificuldades de escola, museu, cinema e tudo mais que abrilhanta a alma. Não falei de enxadas, seca, lampiões, safra perdida. Não disse tantos ditos que se pode dizer das dificuldades deste Nordeste. E nem falei de serras - que temos, de praias - que lindas, nem das cidades/quase metrópoles tão plenas de novidades, violência e beleza. Não disse nada disso porque quando a Borboleta se vê nordestina vem logo lágrima e canção: "não há, oh, gente, oh, não, luar como esse do sertão..." e tudo é tão doce...

Doçura e força, resistência e beleza, uma beleza estranha, quase feia, uma beleza de Viramundo. É exatamente assim que sinto, minha alma feito canto:

Sou viramundo virado, nas rondas das maravilhas,
cortando a faca e facão os desatinos da vida
Gritando para assustar a coragem da inimiga,
pulando pra não ser preso pelas cadeias da intriga
Prefiro ter toda a vida a vida como inimiga
a ter na morte da vida minha sorte decidida
Sou viramundo virado pelo mundo do sertão,
mas ainda viro este mundo em festa, trabalho e pão


6 comentários:

Insana disse...

Sua alma esta na essência do seu viver..


bjs
Insana

S. disse...

Gosto de chamego.
Muito.
rrsrsrsr.
Beijinhos com sotaque.

HGlauce disse...

Lu, minha Lu...
Nem sabes o qto me emocionou com seu texto... Daqui, das terras distantes, cheguei a sentir o cheiro bom de terra molhada qdo cai uns poucos pingos de chuva... Vi o céu "bonito pra chover"...
Ai, meu Cearazim, meu Brasilzim... Que saudades!
"Não se admire se um di um beija-flor invadir a porta da tua casa, te der um beijo e partir. Fui eu quem mandou o beijo que é pra matar meu desejo... Ai que sodade d'ocê..."

Belos e Malvados disse...

Também tenho o maior orgulho de ser nordestina e moro na cidade conhecida como Princesa do Sertão. Nem posso reclamar, né? E férias, quem não merece? Bjos

Borboletas nos Olhos disse...

Insana, você tem sempre uma poética palavras. obrigada...

S, chamego é tudo de bom (com variados sotaques, então)...

HG, a gente sai do ceará mas o Ceará num sai da gente, hahaha...

Bela, pertinente moradia...

Borboletas nos Olhos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...