quinta-feira, 8 de julho de 2010

Quem conta um conto...

como dizia Caetano: você precisa saber de mim,

para que tomar o caminho mais fácil,
quando os arredores são tão interessantes?

Sabe o que gosto? De história dentro de outra história. Resolvi escrever uma história sobre uma mulher. Porque? Porque hoje amanheci pensando nela. Nessa mulher. Então, era uma vez. Era uma vez uma mulher. Uma mulher comum. Uma mulher alegre. Uma mulher de filmes, panelas, amigos. Ela escrevia um blog. Resolveu escrever, certa madrugada, um post sobre uma mulher. Escreveu assim: era uma vez uma mulher comum, uma mulher alegre, uma mulher de livros, panelas e amigos. Que escrevia blogs. Que lia blogs. E que, de repente, deu pra esperar. Essa mulher nada sabia do inquietar-se à janela. Nada sabia do espreitar palavras como se anseia por um olhar. Não sabia que se podia ficar esperando sem saber o quê. Era uma desavisada a moça dos blogs. Aí, um dia. Uma pequena janela de dizeres. Uma frase no meio de outras frases. Uma palavra no meio de outras palavras. Desassossego. Pronto. Ponto. E ela soube. Soube das janelas, das esperas, das palavras que tiram o sono. E, de tanta ansiedade e de tanto saber, fez a única coisa que podia: escreveu. Disse coisas como: quero tergiversar. Ou, talvez, disse: eu espero. A mulher que escreve sobre a mulher que escreve, pára. Essa mulher pensa: que enxerida! E se constrange de sua personagem ser assim tão atirada. Mas logo a perdoa: ela também é uma louca. Porque escrever assim é um desnudamento da alma e desnudar-se não é seguro. Mas o abismo atrai as três: a mulher que espera e escreve blogs, a mulher que escreve a mulher que espera e escreve blogs e eu, que tanta ternura tenho e acordei pensando nelas. A mulher que escreve continua: a mulher que espera se angustia: eu disse algo errado? entendi algo errado? e de tanto saber passa a desconhecer-se. E dói. E ela, a mulher que escreve, já não sabe escrever outra coisa. Ela se repete. A mulher que escreve o post sobre a mulher que espera e escreve, pára, outra vez. Ela também se repete, ela sabe. Revira os olhos, ela é assim, tem manias, pequenas e amáveis manias de mulher gentil. E fica pensando nas dúvidas que ela mesmo criou para a mulher que espera: terá ela se enganado? quando ele disse o que disse era uma jocosa brincadeira que ela, ávida, tomou por verdade? o dvd prometido é um gentil gesto de amigo ou uma pergunta de outra ordem? Perguntas que nenhuma das duas pode responder. A mulher que espera porque só poderá saber o que a mulher que escreve lhe permitir. A mulher que escreve, porque não tem certezas, só interrogações. Ela quase esquece a outra mulher, a mulher que ela escreve e se lembra do Homem e se pergunta: deverei enviar uma poesia? serei entendida? Ela já sabe que palavras escolheria para os olhos dele. Ela diria como Adélia. Isso mesmo, seu pensamento em um susto volta pra mulher que espera, espera até a escrita da mulher que escreve. A mulher que escreve, escreve assim: a mulher que espera levanta-se, escolhe um livro, é Adélia, e escolhendo palavras, já não espera e volta a não saber, ela quer apenas e seu querer é um grito. Ela grita assim:

"Começou dizendo: ' o amor'
Mas não pôde concluir
Pois alguém lhe chamava.
'O amor...' como se me tocasse
falava só para mim,
ainda que outras pessoas estivessem à mesa.
'O amor...' e arrastou sua cadeira
Pra mais perto
Não levantava os olhos, temerosa
Da explicitude do meu coração.
A sala aquecia-se
Do meu respirar de crepitação e luzes
'O amor...'
Ficou só essa palavra do inconcluído discurso,
Alimento da fome que desejo perpétua
Jonathan é minha comida"



5 comentários:

Angélica disse...

Ai que lindo, borboleta!!!!!!!!! minha alma ta alimentada pelo fim de semana inteiro agora.
E seja bem vinda a casa, viu? Sinta meu abraço :)

Hertenha Glauce disse...

Boa viagem!!!

Contra a Maré disse...

Uma história dentro de outra, dentro de outra dentro de outras... entendi! Achei bunito e a tua cara.

Borboletas nos Olhos disse...

Angélica, grata pelo carinho na recepção mesmo à distância. Que bom que você gostou!Tem histórias que só se conta quando a coragem nos vela os olhos...

HG, tem sido boa, muito boa. Sinto saudades!

Contra a maré, "bunito" e a minha cara quer dizer que minha cara é "bunita"? pra isso servem os amigos pra melhorar nossa autoestima. Bjs pra vc e pra ela...

Rita disse...

Oi!

Nossa, gostei tanto desse texto. Li assim que você publicou, mas não consegui comentar.

Enfim, voltei pra dizer que a-do-rei.

Bj
Rita

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