segunda-feira, 26 de julho de 2010

Palavras Para Dizer o Desejo* - Parte I

Tem coisas que ficam à espreita, esperando uma conjunção de situações que as deflagrem. Foi exatamente isso: já faz um tempinho devo a mim mesma uma lista de livros inspirada por interessantes iniciativas dele, dela e dela. Mas eu ficava postergando, postergando...Até que ontem descobri, em angústia, que não conhecia Cornélio Pena e nunca, nunca li “A Menina Morta”. Como isso é possível? Claro que existe uma infinidade de livros que nunca li, nunca ouvi falar, etc. Mas este, por sua origem, época e características era sério candidato a ser livro de estima. Doeu. Assim começou a lista (como na proposta, fui criando as categorias, assim, entre aleatória e loucamente):

Livro que já devia ter lido: A Menina Morta (Cornélio Pena)

Livro Casa dos Espelhos: A Insustentável Leveza do Ser (Milan Kundera). Porque Tomas e Teresa são outros jeitos de dizer meu nome. Porque o pequeno dicionário de palavras incompreendidas é a mais perfeita tradução da impossibilidade dos amantes se compreenderem. Porque o amor pode mesmo nascer de metáforas. Porque eles dormem de mãos dadas.

Livro pra ralar o pulso no asfalto: Morangos Mofados (Caio Fernando Abreu). Porque uma vez lido, a angústia se torna companheira de cama e mesa, sai do sótão e se abanca na sala. Porque a vida – como já dizia Geraldo Vandré – não se resume a festivais.

Livro Todo Mundo Gostou e Eu Também: Cem Anos de Solidão (Gabriel Garcia Marques). Muito provavelmente porque Aureliano promoveu 32 revoluções armadas e perdeu todas. Talvez, ainda, pelo tempo mítico. Mas, o mais provável, porque todos andam com a paixão tão à flor da pele.

Livro Só por essa vez eu queria ser homem: Moby Dick (Herman Melville). Esse foi difícil escolher, porque tem também Os três Mosqueteiros de Dumas. Mas Moby Dick me levou em perguntas que não foram respondidas: onde está o mal? qual meu limite? devo me submeter a Deus, Sorte, Destino? Para além disso, Moby Dick tem cheiro de morte, de tragédia, de obsessão. Gosto, os homens são tão focados!

Livro que li depois de ver o filme: O Amante (Marguerite Duras). Ela traduz almas minhas que eu nem sei se tenho. Para além do sensual O Amante, ela me obseda com seu A Dor e O Amante da China do Norte. O filme me cativou em suas cores sensorialmente provocativas, em seus diálogos mais insinuados que revelados, em sua implacável condução. O livro ainda mais. A descoberta do sexo, a descoberta da impossibilidade de fazer uma conjunção simples: corpo e sentimento.

Livro que amo e nunca está comigo: Água Viva (Clarice Lispector). Essa é uma verdade não só sobre ele, mas sobre as obras de Clarice em geral: eu presenteio. De uma forma particular: compro pra mim, mas sempre me parecem que devem ser possuídos por pessoas que amo. E, assim, já vou no sétimo ou oitavo exemplar só de Água Viva. Já tive e não tenho mais: Felicidade Clandestina, Uma Aprendizagem, A Bela e a Fera, A Paixão Segundo G.H., A Hora da Estrela.

Livro que está ao alcance da mão: Toda Mafalda (Quino). A melhor personagem. Os mais precisos textos. História, ironia, singularidade e ingenuidade, tudo no baú da América Latina. Não largo. É tipo a égua do Luiz Gonzaga: essa égua eu não vendo, não troco e nem dou.

Livro que é uma carícia: Para uma Menina com uma Flor (Vinícius de Moraes). Este livro é suave, terno, morno. É um abraço, um roçar no rosto com o torso da mão, é uma mão fazendo cafuné. Textos que se colocam à disposição do cotidiano. Uma linguagem limpa, linda, imprevisível.

Livro chic que tinha medo de não entender mas amei: Flores do Mal (Baudelaire). Tem tudo: sensualidade, amor, decadência, perda, angústia, morte, finitude, solidão, tédio. Um livro atroz, nas palavras do autor. Sublime.

Livro para levar pra praia: Quintana de bolso. Seleção de frases, pequenas poesias, pensamentos de Mario Quintana. Ironia, leveza e uma enorme ternura pela vida. Aliás, livro pra levar pra todo lado.

Livro que me faz tremer na base: Crônicas do Amor Louco (Charles Bukowski). Um livro sobre o submundo sem pudores, restrições, concessões. Uma crítica mordaz. Um lirismo fétido, com gosto amargo. Um universo onírico, uma leve ameaça de que sim, talvez, esperança.


Ainda falta a parte II e, talvez, ainda role um epílogo.

*Les mots pour le dire (palavras para dizer) é o nome de um filme que assisti em tempos outros, onde ainda existia como universitária de psicologia. Penso que alguém escreveu um artigo sobre ele, mas já não lembro autor nem idéias...mas o título me persegue. Tanto que é o segundo post com o mesmo título...

9 comentários:

HGlauce disse...

Saudade!
Amiga... adorei a lista! Fiquei com medo de tentar fazer uma. Tu és tão preciosa...
Dá uma passada no Travessia. Dois posts novos.
Bjs

A.S. disse...

Tuas palavras têm a leveza e graciosidade do voo das borboletas...

BeijOOO
AL

Insana disse...

boa a lista, pensando aqui junto com a Glauce vou fazer a minha. medo do resultado.

bjs
Insana

S. disse...

Afe, linda lista. Fiquei com medo de pensar em tudo que diva ter lido e não... enfim...
saudades de tú, pessoa que flana

Fred Caju disse...

Gostei da proposta nordestina ao extremo, mas, na primeira semana de setembro estarei em Fortaleza, pois não é só de poesia que vive o homem. Tenho que me vender (e baratinho, baratinho) para ganhar a vida. Mas em novembro há chances de ir para João Pessoa.

Belos e Malvados disse...

Estou às voltas agora com quatro livros do poeta português Al Berto. Uma delícia, dá vontade de não fazer mais nada.

Ricardo Chicuta. disse...

Bukowski é fodástico,li poucos dessa lista.Mas Bukowski já li até em forma de quadrinhos.

Borboletas nos Olhos disse...

HG, faz sim, é infindável mas uma delícia.

AL, grata, beijos borboletantes pra você...

Insana, é aterrorizador fazer escolhas difíceis...mas estou curiosíssima de ver a sua.

S. é horrível saber o que ainda não...saudade também

Fred, já te disse né? Novembro, positivo e operante

Belos, você sabe que tenho imenso xodó por Portugal? rsrsr...

RC, não é porque é minha, mas a lista é boa...se eu fosse você, lia.

Lou Albergaria disse...

Borboleta, só faltou em sua lista MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES. Em minha opinião um dos melhores contos do Gabo de todos os tempos. A apologia do amor e da paixão na sua forma mais dual: voraz e suave ao mesmo tempo. Simplesmente chapei!

Mas amei sua lista! Eu também faço lista de livros a ler, compro-os ou pego nas bibliotecas, alguns leio outros ficam só na intenção, mas sem nunca perder o tesão pelas letras...

Beijo!

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