sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Linguagem é um Equívoco...

"Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo,
narro indiferentemente a minha autobiografia sem fatos,
a minha história sem vida.
São as minhas confissões, e,
se nelas nada digo,
é que nada tenho que dizer".

Acontece. A linguagem é um território estranho mesmo. A semântica se assemelha a um castelo de espelhos em que formas desproporcionais assombram minha noite. Eu entendi que. Mas não. E eu, que estava quieta e nada sofria, agora sangro. É rubro, eu já nem lembrava, é rubra a dor. Não me pergunte qual dor...embaraço? constrangimento? frustração? insatisfação? Não sei. Ir com muita sede ao pote, dizia minha vó. Agora fez um sentido imenso. A sede parece não ter fim e demasiado ímpeto consegue, no máximo, partir o pote em pedaços como se uma coração fosse. E era, talvez. Eu já não vou saber. Mas eu sou assim, a intensidade me acompanha. Não sei querer a não ser com voracidade. Com sangue nos olhos. Eu só sei querer assim: com suave verdade. Transparente. Sem jogos. Sem paciência, talvez. A linguagem, digo e paro, o sentir incerto. Sempre meu refúgio, a linguagem agora me traiu. Iludiu. Velou os olhos e abriu o portal dos desejos. Mas é, ainda, pra linguagem que retorno, com Clarice - aqui, nesta seara, Adélia já não pode me valer - e com Clarice digo: "não tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite"

E, se nada disso bastar, digo como Almodóvar lhe diria: Fale com Ela. Ou, ainda, digo como eu mesma diria: Ata-me. Nunca se sabe o que vai deixar a Carne Trêmula.

Um adendo ao fim da tarde...

Se tu viesses ver-me…

(Florbela Espanca)

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca… o eco dos teus passos…

O teu riso de fonte… os teus abraços…

Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…

Quando os olhos se me cerram de desejo…

E os meus braços se estendem para ti…


6 comentários:

S. disse...

miga, miga. Amú, tú, tatú.

Rafa disse...

Ah... Clarice! Minha mãe... eu mesmo.
P.S. Bora agitar este encontro aqui? Anota aí meus tels: (21) 3734-3917 e (21) 9694-1364. Vc vem hj? Vou pra Lapa à noite se não chover. Bj

A.S. disse...

Neste teu belo texto existe a fragilidade duma borboleta, mas também a leveza e graciosidade do seu voo...


BeijOOO
AL

Turmalina disse...

Tenho muitos motivos para gostar de Florbela. Levei-a comigo, hoje, ok?
Bjos

Borboletas nos Olhos disse...

Botando as respostas em dia:
S, também te amo,

Rafa, tudo anotado;

Poeta, obrigada pela visita e pelo elogio, corei...

Turmalina, leve o que quiser, a casa é sua...

Contra a Maré disse...

Que venha a vida, mesmo que tarde, mas que venha certa, pois o que descobre e fere, não basta. Que venha tudo que importa, para melhor, que seja, a menos que importe menos a vida que a tristeza da maldade.

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