sábado, 3 de julho de 2010

Eu me repito ou Pirando o Cabeção

Uma perturbadora e inacabada conversa me fez ficar pensado o papel da Psicanálise na civilização ocidental. Pois é, eu nunca tinha pensado nisso(e porque eu nunca tinha pensado nisso? porque não sou sabida, culta, informada, inteligente como eu queria ser, mas eu pelejo, ah, eu pelejo). Meu pensar vadiava só no impacto de deslocar o sujeito do psiquismo pro inconsciente (amo a idéia do dono da casa espiando pela janela do sótão) e, principalmente, na historinha do gozo (claro, né). Porque eu me repito.

Por exemplo, ontem eu vi Ligações Perigosas não sei por qual milionésima vez. E, de novo, apreciei. Apreciar talvez não transmita exatamente o frêmito de acompanhar a Marquesa em seus desejos e dissabores. Não me importo nada, nada, que ela seja a vilã. Ontem fiquei reparando nas roupas. Mais exatamente nas cores das roupas e de como, no começo do filme, as cores da Marquesa e do Visconde coincidem lindamente e vão se afastando ao longo da história. Doloroso. A Marquesa é um alter ego que nunca precisei encarnar (todo mundo sabe que tenho uma sorte enorme e sempre sou bem tratada pelos homens, mas enfim) e me dói quando o Visconde em sua inconsciência descreve a felicidade ímpar que teve com a tal Madame santinha/chatinha/insuportável. Sinto sua (dela, Marquesa) solidão e compreendo a desilusão que lhe assalta ao pensar que viveu sozinha uma experiência de amor e intimidade que sempre lhe parecera a dois. Mas, aí minha Pollyanna brada, ela não pôde descobrir que ele está certo (toda felicidade na cama é única mesmo) e errado (não é no ímpeto do agora e sim na intimidade do logo a seguir que se sabe o amor). Uma outra cena em que eu praticamente me sinto a Glen Close é quando o delicioso Visconde cumprimenta-lhe beijando o topo do colo. Alguém jamais conseguiu transmitir tanto desejo num bater de pestanas? Não que eu lembre. As minhas próprias mãos agarram o pedaço de pano mais próximo sempre que ele se inclina em direção a.

O certo é que repetir-me aqui me dá um prazer enorme. De novo e de novo trazer em palavras Marquesa, Corleone ou Scarlett me dá uma definição de mim que tantas vezes me escapa. Mas que agora eu penso na tal civilização ocidental, ah, eu penso.

E ainda tem o futebol, né?


10 comentários:

Hertenha Glauce disse...

Falar em Ligações Perigosas, me dá orgulho de lembrar do nosso cearense Pauo Abel, arrasando em árias, por eles (personagens) assistidas...
Que linda voz de "eunuco" tinha o Paulo, que tão jovem morreu...
Foi bem aí... um dia desses!

Angelica disse...

é delicioso como vc escreve!

S. disse...

Amore, doida que chegues logo. saudades e abraços (e quantas novidades! como assim despejada?) beijinhos

Borboletas nos Olhos disse...

HG, cearense é igual capim, "dá" em todo canto...

Angélica, repito: é delicioso como você escreve!

S., tô chegando, mala pronta já...

José Navarro de Andrade disse...

Menina: are you talking to me?
então:
1) havemos de continuar o debate sobre a psi - prometo.
2) não aceito que tu te subestimes. tens os dons da escrita, da curiosidade, da delicadeza e do gosto apurado. Não te queixes, sff.
3) se gostas da ideia do dono da casa espreitar pela janela do sotão, estás a descrever uma cena do mais belo filme romântico de sempre (digo e defendo esta opinião: "A Matter of Life and Dead".
4) quando voltamos a falar?

Rafa disse...

Não vi, ainda não vi Ligações perigosas.. o duro de se estar vivo é isto: o que vc não leu, não viu, não pensou.. será que dá tempo de tudo? rs Bj

Allan Robert P. J. disse...

Diga-se, de passagem, que a psicanálise é uma invenção ocidental. Em muitos países orientais (incluindo aqui o Médio-oriente) não conseguir lidar com os próprios problemas e pedir ajuda é sinal de fraqueza. Meditação, aceitação do carma e outras saídas são os substitutos da psicanálise.

Borboletas nos Olhos disse...

Zé, minha extensa resposta foi para o facebook.

Rafa, veja, veja, o filme não envelhece, é delicioso e inspirador. Não dá tempo de tudo (ate porque eu adoro a repetição) mas este é imperdível.

Allan, adoro suas visitas. Eu ainda prefiro a psicanálise. Sem gelo.

Contra a Maré disse...

Meu Pai, que papo cabeça dos infernos! kkkk O pior é que oncordo com metade das coisas, ou o melhor. E tenho dúvidas sobre a putra metade. Mas falar em ligações perigosas ocorreu-me outra questão: O filme é bom, mas e o livro. Achei o livro divino. Contudo, fiquei a refletir sobre a qualidade e diferença entre o livro e o filme!

Borboletas nos Olhos disse...

Contra a maré, eu amo muito o livro, é um dos que releio pelo menos uma vez a cada três meses. E que bom que concordamos em pelo menos metade...isso é tão raro, rsrsrs!

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