quinta-feira, 1 de julho de 2010

Cegueira. Confusão. Café. Cafofo.

Cegueira. Meu maior e obsedante medo é ficar cega. Não tenho medo da decrepitude física. Nem da morte. Nem da solidão. Nem das perdas. Tudo isso faz parte do jogo e dói e rasga e sangra, mas é. Agora a cegueira, isso me atormenta. Não ler. Não ler é como não viver. Eu quase não escuto se não vejo. Se fico cega, fico surda. E, ontem, foi assim. Tudo, tudo borrado. As letras se misturavam numa crueldade de me fazer chorar. Eu forçava, insistia e até andei escrevendo errado por aí, pra não perder o hábito nem a esperança. Mas tive tanto medo. Não enxergar é um exílio de mim mesma. Não quero. Foi aterrorizador e eu não sabia nem pedir: me dê sua mão. Ah, isso não é literatura. Não é metáfora. Não é poesia. Foi pesadelo feito vida e eu não quero outra vez. Por favor.

Confusão. Podia ser confissão, também. Eu não esperava. Eu não sabia. E, agora, ficou tudo misturado dentro de mim. Eu não sei o que dizer, nem como dizer. Mas gostei e isso me perturba. Porque eu não sabia. Eu não esperava. Agora, espero.

Café. A Pollyanna que me habita tem uma ar meio nouvelle vague e, por esses dias, tem exigido uma cota de café maior, muito maior. As noites são curtas, as madrugadas longas. Pra que dormir mais do que duas horas? Não sei. Minha vida passa em contínuo escrever-me. Tenho medo de virar personagem. Quero logo andar de mãos dadas, beijar na boca, reclamar das aparas de unha na cama. Mais Adélia do que Nélida. Eu gosto da felicidade.

Cafofo. Fui despejada. Aliás, fomos. A grande e temporária família. Fomos mandados embora da sauna em que estávamos. Hoje é dia de encaixotar, não só Helena e todos os Machados de Assis, mas também roupas, bibelôs, artigos de cozinha. Enfim, encaixotar a vida. De novo e mais um pouco. Minha alma cigana até que nem se importa com as mudanças. Só não gosto mesmo é das coisas que temos que levar na bagagem. Porque há viagens que deveriam ser feitas assim: nua. Mas, o que importa: cafofo novo! E com quarto só pra mim. E com mini varanda pra armar minha rede, colocar o computador no colo, mesinha com vinho (cerveja) ao lado e olhar a lua ou imaginá-la. Ok, tem um horrível guarda-roupas de portas azuis no meu quarto. Mas será só meu. E um banheiro pra eu espalhar pétalas secas e sabonetes líquidos. Seis meses ainda pra, enfim, chegar em casa. Quem já perambula por aqui a mais tempo sabe a minha saga de sem-teto. Mas, agora, a vista da ponte está mais bonita.




6 comentários:

Insana disse...

Parabens pelo seu novo momento.

bjs
Insana

Rafa disse...

Pra mim você citou 2 coisas fundamentais à vida: visão e café. Parabéns pelo cafofo! Tenho o meu, sem varanda, sem vista de ponte, mas quando fecho a porta sou só eu, livros e músicas... Bj

Hertenha Glauce disse...

Mais Adélia do que Nélida e nunca gélida!!!
rsrsrsrs
Bom "vê-la" (ainda que cega), com humor de novo!!!
Ah... precisas vir conhecer meu cafofo... da nossa cama, vemos a lua, linda (mesmo agora minguando)... E da janela da sala, um pôr-do sol alucinante, todos os dias!!!

Angelica disse...

Pode parecer loucura mas eu acho a cegueira uma coisa poetica, limita mas expande os sentidos também , ja que estamos tao conformados a so saber vendo. Portanto, de todas as deficiencias assustadoras prefiro essa. Eu estou no norte, em Trento.
Beijos borboleta, bom voo ao novo lar.

Borboletas nos Olhos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Borboletas nos Olhos disse...

nsana, grata...eu adoro mudar.

Rafa, eu sou assim: espalhada. venha conhecer o meu cafofo quando for o meu de verdade verdadeira...aí sim teremos café e vista pro mundo da lua, rsrs

HG, baby, basta alguém financiar a passagem pra Europa que você já pode me considerar embarcada.

Angelica, já li no blog mais apaixonante que existe um lindo post sobre escritores e cegueira. Vou procurar e linkar pra você. Mas eu não sou artista, quero só comer, beber, amar..a visão me ajuda, convenhamos!

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