quinta-feira, 24 de junho de 2010

Pintando o Sete - Segunda Temporada: Clarice

É a última desta temporada. Não por acaso. É a mais íntima. Já ri e chorei com ela, já copiei na agenda, já foi epígrafe de artigo, já esteve lá encerrando meus relacionamentos. Ela está comigo. É, talvez por isso, a mais difícil de explicar o porquê do bem-querer. Podia dizer apenas: eu queria escrever como ela escreveu. Mas não seria verdade. Podia dizer: queria escrever o que ela escreveu. Aí sim, doeria mais um pouco e seria mais real. Mas não suficiente. Eu já perdi a conta de quantas biografias, teses e dissertações sobre Clarice eu já li. Faz tempo que não sei quantas vezes debrucei-me sobre Água Viva. Ou quantas vezes fui com Lori procurar a aprendizagem. Mergulhar no mar.
Quando leio Clarice alguma coisa se revolve em mim como uma vida primitiva que ainda não sabe ser um eu. Essa vida pulsa e sou eu, bárbara. E sublime, porque as palavras de Clarice sempre me oferecem a transcendência. Quero beijar a fria boca da estátua e gozar de estar viva. Ali, ao alcance do coração, o mistério. Que é paixão: cortes. Selvagem, o que venho a sentir é o mais perto do escuro do mundo. A resposta de um mistério é sempre outro mistério, alertava Clarice. Essa talvez seja minha resposta. Talvez seja minha pergunta. Não há complacência na terna letra que apresenta. Perder-se no instante em jamais tornará a ser é o único convite possível.
Eu queria saber Clarice em mim. Desvendar-me. Poder dizer: aqui, aqui e aqui. Mas não, a palavra - vadia - já virou carne, sangue, eu. Só posso cantar um aleluia. E rezar a reza sem palavras e sem deus de me saber só. Absolutamente só. Dela. Do mundo. Em mim. Entrego-me ao nada dizer e é assim escrever. Ler Clarice é não saber-me. Não entender não me libertou. A sedução escraviza. Mas não saber libertou o mundo de mim. Ser feliz na história errada é uma possibilidade. Não sou triste, estou triste - diz Clarice. Viver é muito perigoso.

7 comentários:

Hertenha Glauce disse...

Viver pode até ser perigoso, mas é tão bom!
E por que não correr perigo!?
Eu corro perigo todos os dias... Não me satisfaz o certo, o tradicional, o cotidiano, talvez por isso tenha feito a escolha de me aventurar "rumo ao desconhecido", absolutamente!
às vezes qdo olho ao meu redor e me vejo só, sem entender nada que este povo diz, penso:- que perigo corro aqui!!!
Corro... e daí?!
Mas, voltando à Clarice... obrigada! Nem sei se sabes, mas foste tu que me envolveste nesta seara de palavras nunca esquecidas.
beijo na alma!

Borboletas nos Olhos disse...

Ler Clarice é um prazer. Partilhá-la com pessoas amadas é maior alegria. É uma tal felicidade. Bjs

marcella disse...

oba!
Vou esperar ansiosa.
Beijos

S. disse...

Fofinha flanante, melhorei um bocado com dengo de mãe, tanto que estou de sainha curtinha indo pular umas fogueiras por aí. beijinhos doces. Falamos amanhã?

Lunna Guedes disse...

Assim sendo, te convido a participar da coluna Sempre Clarice do Teorias que consiste em você escolher um trecho de um de seus livros e contar sua vida através dela. Será um prazer tê-la por lá. Bacio

Rita disse...

Oi.

Minha monografia de graduação foi sobre A Imitação da Rosa, o conto dela de que mais gosto. Faz tempo, devo ter escrito um monte de bobagens. Mas a paixão nunca passou. Entendo e compartilho de cada linha de seu deslumbramento. Clarice é gênio. Mesmo! (Perto do Coração Selvagem foi publicado quando ela tinha 16 anos).

Bj
Rita

Borboletas nos Olhos disse...

Rita, que fofas as coincidências desse mundinho ovo em que vivemos. E bobagens sobre paixão por Clarice devem ser lindas...

Lunna, que honra. Vou tratar de começar a rascunhas agorinha mesmo...Obrigada pelo convite.

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