terça-feira, 8 de junho de 2010

Pintando o Sete - Segunda Temporada: Marguerite Duras

Não podemos fazer mais do que amar - ou execrar -
essa pequena mulher provocante, rodeada dos seus fantasmas.
(...) Foi sobretudo uma mulher voraz,
de uma literatura que é um grito de amor
ao longo de todas as páginas. Uma Piaf.
Jean-François Josselin

Eu não tenho um rosto devastado. Nunca tive um amante chinês. Não tive que proteger meu irmãozinho do ódio do outro irmão. Não tinha, adolescente, um chapéu de homem. Mas tal como a jovem de vestido de seda natural e sapatos de lamê na barca sobre o Mékong, "muito cedo na minha vida era tarde demais".

Marguerite Duras. Autora de dois dos livros que mais me contaram sobre mim: O Amante da China do Norte e A Dor. Mas ela escreveu, ainda: O Amante (livro mais famoso e ganhador do Prêmio Goncourt), Moderato Cantabile, Barragem sobre o Pacífico, A Doença da Morte, tantos livros de seca angústia.

É uma autora de estilo e beleza, palavra densa, algumas vezes dura, um texto que expressa o humano: paixões e misérias. Não há redenção, salvação, há apenas o dizer. Angustiado e angustiante, o dizer de Duras me persegue. Entontece-me. Por vezes, sacia-me. Amor e morte rondam em seus textos e, honestamente, o que mais há pra ser dito sobre o homem? Ou, ainda mais, sobre a mulher? Talvez, loucura, mas loucura também se apresenta. Dói ler Marguerite Duras, mas de uma dor de gozo, do encontro com o que não pode ser dito, do que falta, do que grita em silêncio.

Alcoólatra, como se o álcool fosse a vida que ela não podia ter toda.

Marguerite me acompanha. Ela está aqui quando me apaixono. Quando me entrego. Quando gozo. Quando sucumbo. Quando choro. Quando parto. Quando esqueço. Ela está nas palavras dela e nas minhas que tantas se fizeram das dela.

Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever...

Textos Secretos, Quetzal Editores, 1992 - Lisboa

4 comentários:

Paulo disse...

Oi, minha querida!! Já vi Marguerite Duras na biblioteca lá de casa, mas confesso que nunca li!

Deu vontade... hora de corrigir o erro!

E não to namorando!! Ainda... :D

Belos e Malvados disse...

"Muito cedo da minha vida ficou tarde demais".

Bjos.

S. disse...

Engraçado, ainda n tinha lido seu post qd escrevi o meu, agora vejo que acordamos no mesmo espirito. rsrsrsr. Amo Duras. Beijinhos.

ALEX disse...

Sabe depois deste texto lembrei-me de algo
Às vezes olho no espelho e percebo que às vezes ele se manifesta...
E me pergunto quem é ele, de cavanhaque e olhos grandes, com semblante de intelectual... Sem nunca ter sido..., seu ar é de fadiga, mas às vezes ostenta uma postura de grandes projetos...
Mas “ele” só aparece, de relance, pois o tempo urge e tenho que escrever... Digo trabalhar...
Um cheiro
Alex

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