terça-feira, 1 de junho de 2010

Pintando o Sete - Segunda Temporada: Adélia Prado

“Uma borboleta pousada. Ou é Deus, ou é nada”

Adélia é mineira e isso é tudo de biografia que se terá por aqui. O que mais amo nas palavras de Adélia é o cotidiano. E o mais cotidiano nas palavras de Adélia é o amor. O dito de Adélia é atemporal. E prosaico. Ler Adélia me devolve a mim mesma. Suaves, as palavras de Adélia deslizam, acarinham, abraçam. Adélia é precisa, nenhuma palavra poderia ser outra. Musical, mas de uma musicalidade de sotaque e não de canção. Ela observa o mundo, ali na varanda, cadeira de balanço...e o mundo se ilumina e ela se maravilha e nós com ela. Eu, com certeza, maravilho-me. E não me canso nunca. Os meus poemas favoritos, entre os belos e tantos que ela já escreveu, são cada vez mais preferidos porque a cada vez lidos são mais lindos. Mistério, beleza, simplicidade. Palavras formigando no juízo. Lúcidas. Bem humoradas. Sagradas, as palavras de Adélia são sagradas.

De todas e tantas belezas, é com Ofélia que eu mais sei de Adélia, de mim, de viver:


Ofélia tem os cabelos tão pretos
como quando casou.
Teve nove filhos, sendo que
tirando um que é homossexual
e outro que mexe com drogas,
os outros vão levando no normal.
Só mudou o penteado e botou dentes.
Não perdeu a cintura, nem
aquele ar de ainda serei feliz,
inocente e malvada
na mesma medida que eu,
que insisto em entender
a vida de Ofélia e a minha.

Ainda hoje passou de calça comprida
a caminho da cidade.
Os manacás cheiravam
como se o mundo não fosse o que é.

Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora.
Não quero contar histórias,
porque história é excremento do tempo.
Queria dizer-lhes é que somos eternos,
eu, Ofélia e os manacás.

5 comentários:

S. disse...

Gosto (A)del(i)a por demais tb.

Belos e Malvados disse...

O jeito como Adélia mistura a religiosidade aflorada com as cenas do cotidiano é muito tocante. Confesso que ela me comove muito. As palavras quase sem rebuscamento. É tudo simples e ao mesmo tempo profundo. Amo.

Poema esquisito

Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra que, se para chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros,
porque o zelo do espírito é sem meiguices:

Ôôôôi fia.

Insana disse...

BOM de mais.

Bjs
Insana

ALEX disse...

É uma pena que em nossa sociedade existam poucas Ofelias...

Um Cheiro

Alex Ramos

José Navarro de Andrade disse...

Este seu post leva-me a pedir-lhe um conselho, pois quem publica umm poema destes só pode ser uma excelente guia. Quais são os seus prosadores brasileiros favoritos, entre os contemporâneos, i.e., vivos e activos. Só conheço e gosto de Bernardo Carvalho (muito antes, não tanto ultimamente), Raduan Nassar (moderadamente), Sérgio Sant'ana (idem). Adoro Cony, Ubaldo Ribeiro e Ruben Fonseca, mas são já doutra geração.

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