sexta-feira, 11 de junho de 2010

Olhos de Ressaca

Machado de Assis está morto. Como ele mesmo disse, podemos elogiá-lo à vontade. Mas estará? Em mim, não. O maior escritor brasileiro, um dos dois maiores da língua portuguesa, destacado na Literatura Mundial. Isso nada me importa. Eu disso tudo desconhecia quando Iaiá Garcia me chegou. Chegou em cheiro de poeira, livro encantoado, esquecido na prateleira. Iaiá ainda não é personagem realista, mas já não é mais heroína romântica. É uma corajosa amante. Um texto convencional, argumentam alguns. Convencional, rio-me eu. Quando amar pode ser trivial? O amor só segue sua própria convenção interna e o mais repetitivo dos enlaces ainda é único na sua letra. É um romance sobre a dor moral, uma reflexão sobre o que é permitido. Fiquei perdida de amores por Machado. Do que mais gosto? Da refinada ironia. Um olhar que tudo percebe num doce cinismo que a quase tudo perdoa. Fui de Marcela a Helena, Lívia a Guiomar, de Virgília a Sofia, de Fidélia à ambígua Conceição. Mulheres a serem conhecidas, inquiridas, desejadas, respeitadas, amadas. Perdoadas. Como diria Vinícius: "e no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende piedade das mulheres!" Há, claro, maldade, sofrimento, pessimismo, mas o que é isso senão mais e mais da vida? E, claro, há Capitu.
Capitu é o impossível de dizer. Que me importa se traiu, não traiu, quis trair e não traiu, não quis e sim, sim, sim...nada disso vale o que eu sei: ela foi amada. O que mais sei: dos seus olhos. Capitu é mulher. Nada mais era preciso dizer em sua apresentação. Capitu é um enigma, seria outra forma de dizê-la. De dizer-me. De dizer, apenas. Os olhos de ressaca são esses que aprisionam. Que arrebatam. Uma vez disseram-me isso: tens os olhos como os de Capitu. E eu sou como Machado: "Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e até ao corpo. As melhores digestões da minha vida são as dos jantares em que sou brindado". Ter os olhos como os de Capitu é tanto ver. É trazer em si as rebentações, as calmarias, as tempestades. Um olhar que prescinde do tempo e tem a duração das felicidades e dos suplícios. Machado fez de Capitu uma morada para as perguntas. Os livros de Machado de Assis não são para ser lidos. São para ser relidos. Tantas vezes encontrados os personagens e situações, todas elas de novo o prazer. Prazer de uma frase tão bem escrita que, de nenhuma outra forma, poderia ser dita. O belo está em tudo que é dito, mas principalmente no que é mal dito, nem insinuado nem negado, o equívoco não da palavras mas da linguagem. Machado é tão, tão reverente que se dá ao deboche. É lindo isso de rir-se. Há jeito mais bonito de dizer o gostar? "Capitu sorriu abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma, provavelmente porque não gostei tanto das outras. As pessoas valem o que vale a afeição da gente, e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece”.
Machado de Assis me deu belezas. Está morto, mas como seu Brás Cubas, ele começa do fim.



Como uma encantada, leio e releio esse texto de Fernanda Montengro. Eu, se fosse você, lia também.

5 comentários:

S. disse...

ai...ai... tão inteligente essa minha querida. Beijinhos.

Dona Mila disse...

Leio e releio também. Por falar nisso, concordo muito com a passagem "Os livros de Machado de Assis não são para ser lidos. São para ser relidos."

Beijos!

ALEX disse...

Já li alguma vezes Dom Casmurro

Detestei as adptações conteporaneas ("Dom" e a "Mine serie" que ea TV exibiu)

Mas confesso que GOSTO MESMO DE Bento

Um cheiro

Alex Ramos

José Navarro de Andrade disse...

Não gosto que digam que Machado de Assis é Um "escritor brasileiro" e a seguir de "língua portuguesa". A nossa literatura só há de ser tão grande como a hispânica e como a anglo-saxónica, quando só ligarmos à língua e ignorarmos a proveniência. Leio Machado como se fosse hoje, e até gosto mais dele que de Eça de Queiroz. Guimarães Rosa escreveu o "Ulisses" da nossa literatura, mas em melhor: "Veredas / Sertões". E Drummond é com Pessoa o grande poeta da língua. E hoje identifico-me mais com Bernardo Carvalho do que com qualquer escritor que por acaso tenha anscido em Portugal. Quero-os meus, todos.

Borboletas nos Olhos disse...

Meu caro Zé, pois se é justamente isso que digo! Não me importa origem, importa-me a letra, a palavra tão minh'alma que ele tem. São todos seus se consentires que sejam todos meus também!

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