domingo, 27 de junho de 2010

Ofício*

Escrever é uma morte. Em dado instante sou eu plena de palavras, frases, estórias que latejam, que passeiam, que balançam na ponta da língua, num emergir de infinitas possibilidades. Eu sou tudo que poderia pensar, tudo que poderia dizer, tudo que poderia escrever. Todas as estórias não contadas que me habitam me fazem viva. Escrever é uma imposição. Recuso e reluto até que as frases se reúnem num esforço assassino. Uma estória escrita sou eu morta. A primeira palavra registrada em papel e eu me quedo na renúncia de todas as outras que poderiam ter sido. A língua é um calvário. A estória se constrói na exata medida em que esvai vida do meu corpo. Um texto é a negação de toda a obra que não será porque o texto é. Um texto é a negação da vida. Da minha vida. A palavra escrita tem origem desconhecida, cristaliza a idéia que, falada, eu altero, dimensiono, aperfeiçôo. O escrito é irreversível. O que escrevo não sou eu, ou ainda, não sou eu que escrevo, é a escrita que se faz em mim. As palavras se exigem, organizam-se e, por fim, meu fim poderia dizer, o texto está pronto. Ele pronto me fita, num desafio que me emudece. Só ele diz. Diz tudo e não me restam outras palavras. Por um momento nada me resta. O que escrevo é um punhal, belo e perigoso mesmo em mãos inocentes. O que escrevo é um abismo. Eu o fito e a vertigem de mim se apodera. Um novo texto, suicídio.


* Texto escrito em 2008, ressurgido por esse post aqui do encantador blog Sábados de Caju, uma escolha e indicação de S. (S. de sensível? de sedutora? de simpática? S. de Sim).


7 comentários:

Allan Robert P. J. disse...

Belo texto.
Escrever é deixar um pedaço de si em cada folha.

:)

Hertenha Glauce disse...

Queria eu, morrer assim, como tu morres ou mata-se!!!

Rita disse...

Uau.
Show.

Fred Caju disse...

A nossa ponte foi eficiente, hein?
Estou convencido que colocar "ressignificações" para designar os comentários foi, modestamente, uma boa escolha minha. Nesse teu texto me lembrei de duas pessoas que me influenciaram bastante na escrita (não no jeito de colocar no papel, mas de fazer escolha): Paulo Leminski e a Graça Graúna.
Ah, e infelizmente, dia 08 meu trabalho não permitirá me juntar a vocês.
E outra, o espaço aqui é aconchegante!

Borboletas nos Olhos disse...

Meus generosos e queridos visitantes, obrigada. Allan, você deixa lindos pedaços por aí. Hertenha, morremos juntas, não? Rita, não me engana, show é uma certa anil estrada. Fred, a casa está à disposição, entre sempre que quiser

José Navarro de Andrade disse...

Morremos de qualquer maneira, com o tempo a passar. Escrever dói muito, sobretudo quando nunca está bem. A não ser... A não ser que, de repente,a escrita se solte. Estive 10 anos sem escrever, horror à escrita,depois de outros 10 a escrever por ofício e que correram muito mal. Agora, que não tenho obrigações, a escrita sai-me cheia de vontade. Estranho, não é?

Borboletas nos Olhos disse...

Zé, custa-me crer que em algum tempo você e a escrita não se entendiam...

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