sábado, 19 de junho de 2010

No meu túmulo ou Feliz Aniversário, Chico

Muita coisa pra sangrar hoje. Ou ontem, dependendo da hora que eu acabar de escrever. Primeiro de tudo: ponha uma colméia no meu túmulo e deixe o mel encharcar tudo. Que idéia linda. Estava lá, na A Vida Secreta das Abelhas. Não, não é um filme excepcional e, às vezes, chega a ser bobo. Mas, ah, o delicioso mas, onde há paixão, relampeja a beleza. E a beleza, eu a encontrei nesta idéia: ponha uma colméia no meu túmulo e deixe o mel encharcar tudo. Porque morrer é preciso, saber morrer é preciso. Eu já vou morrendo com alegria. Como quando faço aniversário. Um dia a menos de vida, não é? Mas tão gostoso! Gosto dos dias a menos, gosto de olhar pra eles e sorrir com a nostalgia de sabê-los meus. E bons. Sim, foram bons dias. Doces. Este morrer de todo dia é doce. Como na canção: "deixo que as águas invadam meu rosto, gosto de me ver chorar, finjo que estão me vendo, eu preciso me mostrar bonita..." Canção do aniversariante Chico Buarque. Parabéns pra mim que desde sempre pude saber-me nas suas palavras. Ele que me disse uma das mais belas mortes: e foram virando peixes, virando conchas, virando seixos, virando areia, prateada areia com lua cheia e à beira-mar. E como uma coisa puxa a outra, fui cair na rede de Caymmi, sussurrando: é doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar... Mas caso eu não vire sal nem me perca em oceanos de saudade, já estão sabendo: ponham uma colméia no meu túmulo...

2 comentários:

S. disse...

Lindona, é tão bom vir aqui, sabe? Algo exatamente do meu número me espera. A mais bonita é uma das minhas músicas preferidas de Chico, fala tb (para mim) da nossa necessidade de dramaticidade. Uma escancaração total da nossa natureza (ou de um parte dela). mas pleo amor de dadá, n morra antes de nos visitarmos, ok? Eu levo o mel. Beijinhos doces.

Dona Mila disse...

Sempre que eu te leio fico meio sem saber o que dizer. Sei lá, medo de estragar seus textos tão lindos com um comentário idiota. Ia dizer que foi o primeiro blog que li hoje depois de acordar, aborrecida com uma penca de coisas, e a idéia da morte, mesmo colocada de forma tão suave aqui, me deu vontade de chorar.
Já passou, já passou.

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