Eu sou cética. Eu sou cínica. Eu não acredito em nada. Nem nisso que eu escrevi, provavelmente. Você não ouviu falar de Edisca? Nem dos balés Jangurussu, Duas Estações, Mobilis? Falta-lhe uma beleza. Ou, ainda, duas. De tanta doçura, fogo e força que já vi, o balé Duas Estações me tatuou a alma. A outra beleza é a força, o fogo e a doçura de fazer nascer, à fórceps, a arte, no árido terreno da exclusão, da pobreza, da falta de perspectiva. Quem já esteve (e eu estive) em contato e trabalho com a desolação pode tentar entender a grandeza de acreditar. Em quê? Em qualquer coisa. Em gente. Em si. No outro. Na arte. Nas possibilidades.
A EDISCA é uma escola de artes e desenvolvimento humano, sem fins lucrativos, que trabalha com crianças e adolescentes em desvantagem social, acreditando que a educação é a oportunidade fundamental a ser oferecida às novas gerações, para que realizem a sua vocação e recriem o mundo. Não sou eu que digo, está lá, linda e corajosamente dito, no site da Ong. E como eles fazem isso? Assim: eles atuam em três dimensões, a primeira, no atendimento direto aos educandos e seus familiares nas áreas de educação, arte, formação profissional, nutrição e saúde. A segunda, na pesquisa, produção e sistematização do conhecimento gerado a partir da observação de sua práxis; e a terceira, na disseminação de sua tecnologia educacional estimulando e estruturando outras organizações que compartilham dos mesmos princípios.
E porque me lembrei disso, justo agora, que não lembrava de nada? A resposta mais óbvia é que acabei de assistir o programa chamado Brasileiros e dizer que eu chorei da primeira cena até a passagem final dos créditos seria ridículo, mas verdadeiro. A Escola de Dança de Paracuru. Senhor, existe mesmo? Existe alguém que saiu de Paracuru com música na alma, dançou pelo mundo, deixou escolas na Suíça e na Polônia pra voltar a ensinar em Paracuru? E faz isso, ainda e também, num assentamento? E faz isso (Outros Mares) acontecer? Faz mais, faz a segunda maior escola de balé masculino do país? E, mais ainda, faz isso sob a ótica e amargura de preconceitos e ignorância? Flávio Sampaio foi bailarino e professor do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, da escola do Bolshoi no Brasil e de outros centros de dança importantes localizados, por exemplo, em Paris e Varsóvia. Aulas de história da arte, ética, inglês, reforço escolar. E dança, claro. E, mais, perspectiva.
É isso. Olhares. O que de mais bonito eu vejo nestes trabalhos é o que eles oferecem à visão de outros, de muitos. Eu sei o que foi ouvir ópera e compreender um bocado mais da minha angústia de existir. E fiz isso (e faço) amadoristicamente, por acaso. Eu poderia nunca ter escutado e viver por aí dizendo, como ouço e tanto e com tanta desolação, que não gosto de opera, aquela gritadeira em italiano. Eu sei o que foi meu primeiro Dostoievski. Minha Bovary. Machado de Assis. Eu sei o que foi sangrar palavras lendo Clarice. E meu primeiro Caravaggio? Ou, quase em contraste, ver Monet? Meu mais querido musical, uma interpretação de Brando, os olhos de Bette Davis. Ou o primeiro violão encantado que me afastou de mim mesma, cavalgando o ar como quem cavalgaria, depois, futuro e amores. E isso é tão pouco. Vou compreendendo a minha ignorância devagarzinho e me dói tudo que não vou ver e viver. E me dói pensar, saber, que vive-se sem isso. Não, o isso não são as minhas vivências, essas são minhas e nem que me pedissem não as cedia. O isso são as possibilidades de cada um ao se encontrar com o extremo horror que é a beleza.
Eu sei, não me digam mais do que o necessário, que é uma campanha de desresponsabilização do Estado pró-Serra. Eu não me importo. Nesse momento, eu não dou a mínima. Porque tem o Flávio, meudeus. Esfregando na minha cara cética e cínica o que é mudar um mundo que seja. O mundo daquela menina linda, inocente na sua crueza de dizer: se existir final. E se não existir? Eu quero que seja infinito.
É isso. Ópera. Ler os clássicos. Dançar balé. Passear - nem que seja virtualmente - pela Capela Sistina. E acreditar. Em quê? Na possibilidade de acreditar, talvez. Acreditar é em vermelho, hoje, pra mim.
Um comentário:
Eu também não me acostumei ainda com o cor do blog... mas amo a ideia da nova Borboleta vermelha que sangra!!!
Ah.... adoro ópera, vc bem sabe!!!
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