sexta-feira, 18 de junho de 2010

Mudar o Mundo com Arte

Eu sou cética. Eu sou cínica. Eu não acredito em nada. Nem nisso que eu escrevi, provavelmente. Você não ouviu falar de Edisca? Nem dos balés Jangurussu, Duas Estações, Mobilis? Falta-lhe uma beleza. Ou, ainda, duas. De tanta doçura, fogo e força que já vi, o balé Duas Estações me tatuou a alma. A outra beleza é a força, o fogo e a doçura de fazer nascer, à fórceps, a arte, no árido terreno da exclusão, da pobreza, da falta de perspectiva. Quem já esteve (e eu estive) em contato e trabalho com a desolação pode tentar entender a grandeza de acreditar. Em quê? Em qualquer coisa. Em gente. Em si. No outro. Na arte. Nas possibilidades.
A EDISCA é uma escola de artes e desenvolvimento humano, sem fins lucrativos, que trabalha com crianças e adolescentes em desvantagem social, acreditando que a educação é a oportunidade fundamental a ser oferecida às novas gerações, para que realizem a sua vocação e recriem o mundo. Não sou eu que digo, está lá, linda e corajosamente dito, no site da Ong. E como eles fazem isso? Assim: eles atuam em três dimensões, a primeira, no atendimento direto aos educandos e seus familiares nas áreas de educação, arte, formação profissional, nutrição e saúde. A segunda, na pesquisa, produção e sistematização do conhecimento gerado a partir da observação de sua práxis; e a terceira, na disseminação de sua tecnologia educacional estimulando e estruturando outras organizações que compartilham dos mesmos princípios.
E porque me lembrei disso, justo agora, que não lembrava de nada? A resposta mais óbvia é que acabei de assistir o programa chamado Brasileiros e dizer que eu chorei da primeira cena até a passagem final dos créditos seria ridículo, mas verdadeiro. A Escola de Dança de Paracuru. Senhor, existe mesmo? Existe alguém que saiu de Paracuru com música na alma, dançou pelo mundo, deixou escolas na Suíça e na Polônia pra voltar a ensinar em Paracuru? E faz isso, ainda e também, num assentamento? E faz isso (Outros Mares) acontecer? Faz mais, faz a segunda maior escola de balé masculino do país? E, mais ainda, faz isso sob a ótica e amargura de preconceitos e ignorância? Flávio Sampaio foi bailarino e professor do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, da escola do Bolshoi no Brasil e de outros centros de dança importantes localizados, por exemplo, em Paris e Varsóvia. Aulas de história da arte, ética, inglês, reforço escolar. E dança, claro. E, mais, perspectiva.
É isso. Olhares. O que de mais bonito eu vejo nestes trabalhos é o que eles oferecem à visão de outros, de muitos. Eu sei o que foi ouvir ópera e compreender um bocado mais da minha angústia de existir. E fiz isso (e faço) amadoristicamente, por acaso. Eu poderia nunca ter escutado e viver por aí dizendo, como ouço e tanto e com tanta desolação, que não gosto de opera, aquela gritadeira em italiano. Eu sei o que foi meu primeiro Dostoievski. Minha Bovary. Machado de Assis. Eu sei o que foi sangrar palavras lendo Clarice. E meu primeiro Caravaggio? Ou, quase em contraste, ver Monet? Meu mais querido musical, uma interpretação de Brando, os olhos de Bette Davis. Ou o primeiro violão encantado que me afastou de mim mesma, cavalgando o ar como quem cavalgaria, depois, futuro e amores. E isso é tão pouco. Vou compreendendo a minha ignorância devagarzinho e me dói tudo que não vou ver e viver. E me dói pensar, saber, que vive-se sem isso. Não, o isso não são as minhas vivências, essas são minhas e nem que me pedissem não as cedia. O isso são as possibilidades de cada um ao se encontrar com o extremo horror que é a beleza.
Eu sei, não me digam mais do que o necessário, que é uma campanha de desresponsabilização do Estado pró-Serra. Eu não me importo. Nesse momento, eu não dou a mínima. Porque tem o Flávio, meudeus. Esfregando na minha cara cética e cínica o que é mudar um mundo que seja. O mundo daquela menina linda, inocente na sua crueza de dizer: se existir final. E se não existir? Eu quero que seja infinito.
É isso. Ópera. Ler os clássicos. Dançar balé. Passear - nem que seja virtualmente - pela Capela Sistina. E acreditar. Em quê? Na possibilidade de acreditar, talvez. Acreditar é em vermelho, hoje, pra mim.


Um comentário:

Hertenha Glauce disse...

Eu também não me acostumei ainda com o cor do blog... mas amo a ideia da nova Borboleta vermelha que sangra!!!
Ah.... adoro ópera, vc bem sabe!!!

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