domingo, 27 de junho de 2010

Lista de homens que gostaria que fossem meus irmãos e das mulheres que Deus nunca permita tal coisa - assim mesmo

Brincando com a idéia que Manuel apresentou aqui, com a qual já me diverti e que Joana e S. tão bem desenvolveram, veio-me esta outra lista. Mais curta, por certo isso diz alguma coisa de mim.

Pensei em começar dizendo que queria ter o Antônio por irmão. Não o Benedito, como já esclareci aqui. E não me faltariam razões para querer tê-lo fraternalmente perto. Começando com umas tais garrafas de vinho. Tantas e tão pessoais razões mas, por princípio e em um princípio possível, eu diria que é porque um irmão deve saber. O que? De tudo, eu digo. Um irmão deve ter histórias pra contar e contá-las, de tal forma, que não nos dê vontade de sair de perto, de olhos e ouvidos arregalados, mas também nos incite a querer vivê-las, todas, de fato e logo. Um irmão deve incomodar, aperrear, implicar com a gente. E deve nos dar aquela sensação de que estamos bem e protegidas. Um irmão deve desbravar caminhos e, ao mesmo tempo, vir na retaguarda. Assim, bem dito seria se eu tivesse dito o que ia dizer. Mas não precisei. Eu tenho o irmão que eu quero ter e que, não tenho nenhuma dúvida, muitas diriam deusnãopermita. Porque ele é lindo. Muito lindo. Meu irmão me faz rir. Ele cuida de mim, sem parecer que. E é tão bom abraçá-lo, parece que estou chegando em casa, sempre. Não uma casa qualquer mas aquela pela qual percorremos a estrada de tijolos dourados e batemos os sapatinhos vermelhos. Meu irmão sabe calar, quando preciso. E ele lembra de tudo, sempre. Meu irmão não estava antes e, quando chegou, fez tudo que devia fazer: me enterneceu, irritou, animou, comoveu, chateou, conversou, amou. Ele sabe contar as histórias. Ele incomoda. Ele me protege. E me acompanha nos caminhos. Um irmão que me ama, quem mais eu podia querer?

E tem as irmãs que nem de jeito nenhum, deus me proteja. Nada de dormir e acordar, partilhando roupas e chocolates com Anastasia e Drizzella. Eu até gosto do borralho, nada contra, mas o mau humor me enerva. Dava-lhes com o sapato de cristal na testa qualquer dia. Também de outra estirpe é a Lúcia, com seu véu, sua amargura e assassinatos frios. Não que eu desgoste de sangue e da vingança, mas é preciso uma certa literatura pra tanto. Nada de fraternos sentimentos com Lúcia, Nelson Rodrigues não me venha com gracinhas e invenções. Com ela não se pode trocar aquelas doces confidências de ah, hoje ele pegou na minha mão, tão queridas reminiscências. Assim, irmã não é, não pode ser.

Também não queria Helena por irmã. E gêmea? No chance. Como emprestar roupa, trocar acessórios e comparar imperfeições ante o espelho? Não me importo com os homens que lhe cabem (sempre preferiria Agamenon e Heitor a Menelau e Páris), mas me irrita que todo o mérito que lhe caiba seja um rosto.

Rostos que são apenas isso causam um mal que antecipo em Baby Jane, essa minha não-irmã entre todas as não-irmãs, versão psicótica, exagerada, mimada e feminina de Peter Pan. A comida pode ser uma oferenda fraterna ou uma agressão. Afasta-me, senhor, de Baby Jane. Não gostaria de ter irmandade, também, com Christine e Léa Papin e sua mudez vazia e mortal. Nem com Rosaura, com sua inabilidade pra cozinha, sua gula, seus gases, sua malévola e quase triste impossibilidade de lidar com a felicidade. Ela nuca, nunca faria um bom brigadeiro pra comermos juntas brincando de ver filmes antigos na tv. Ela não sabe o valor do chocolate.

Mas de todas as não irmãs, de todas as que não quero, porfavormeudeus, livrai-me de Martine (Les Soeurs Fâchées) e sua amargura, infelicidade, inveja e mesquinhez. Seu enfado interminável, sua arrogância, nada me parece mais distante daquela cumplicidade que sempre relaciono às irmãs que tenho e às que escolhi.

Não é uma lista fechada e tenho a impressão de que ainda voltarei a ela, depois de pesquisa e reflexões. Estas são as não-irmãs que a memória me ofereceu. Devem ser as que temo ser.

10 comentários:

S. disse...

Irmã, ta lá o post. agora é boa noite mermo, mermo. Beijinhos bocejantes.

Borboletas nos Olhos disse...

Irmã, já li e já amei.

Anônimo disse...

Genial, a ideia de virar tudo ao contrário, Luciana ... sobretudo na parte das irmãs ... que belas pestes, as suas desqualificadas! Distância delas! Muita!

Joana

Joana

Anônimo disse...
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Borboletas nos Olhos disse...

Joana, grata pelas palavras, mas sabes bem de onde veio a inspiração.

Lica disse...

tá, mas quando virão os elogios rasgados para as irmãs que são irmãs mesmo???

Hertenha Glauce disse...

Ciumenta, essa pós aniversariante!!!!

Borboletas nos Olhos disse...

Relax, Lica, já está no forno...

Lunna Guedes disse...

Gente, eu fiquei aqui a acompanhar seu desenho e fui me perdendo, não de tuas palavras e sim de mim mesma numa espécie de desconstrução. Quero ler tudo de novo para ver se saio do meu conforto agora. rs
Bacio

Borboletas nos Olhos disse...

Lunna, para que servem os textos senão pra baldear nossa alma? Que bom receber sua visita. Bjs

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