domingo, 6 de junho de 2010

Estórias da Madrugada

Há estórias que passeiam na minha cabeça como se dela fossem donas e se recriam e se recontam. Sempre as mesmas, sempre outras. Ficções de mim. Como eu mesma nunca fui, mas poderia ter sido. Elas doem. E alegram. Inoportunas, chegam sem convite e partem sem despedida. Qualquer dia tornam a aparecer. Eu não as procuro. Eu não as recuso. Registro, apago, torno a escrever. Vivo de palavras.

De pé, defronta-se com o espelho como se este fosse um enigma. Os olhos vasculham a extensão deste território outrora desconhecido: seu corpo. Procura marcas, sinais da revolução. Seu corpo, ela sabe, é um país em convulsão. É-lhe estranho que nada se note, ainda ontem era uma pessoa, dentro e fora. E, agora, embora não se encontre signo desta devastação sentimental, é uma pessoa fora, mas, dentro, dentro já é uma mulher. Dentro, já sente o veneno do gozar agindo no sangue.
Virão mudanças no andar, no sorriso, o corpo todo se fazendo desfrutável; ela antecipa, em tremores, o deleite de não poder esconder: conhece o prazer. Mas, agora, madrugada partindo, nada há que indique o gozo morno que ela prende entre as coxas. Vasculha na imagem tranquila um indício qualquer do desvario a que sucumbiu. Talvez os olhos estejam mais velados. Talvez. Talvez seja apenas a pouca claridade da manhã que não chegou inteira.
O corpo é o mesmo, como são os mesmos os seus sinais no mundo: mesmo cheiro, mesmo sorriso, o mesmo corpo no mundo. E, mesma, ela já se conhece outra. Alguém que teve o mundo entre as pernas.
Ela nunca soube que podia ser assim, como o mar e seus segredos, tempestade e calmaria. Fartura e beleza. Ainda ontem ela dançava com um corpo que por tantos anos fora seu. Carregava-o para lá e para cá sem compreender direito seus poderes. O corpo pode. Ele sente. Ele vibra. O corpo agora tem outro senhor, que sabe fazer tudo isto com o corpo: senti-lo vibrar.
Era noite e a mulher não sabia que perderia o corpo. Ou melhor, era noite e a mulher não sabia que se perderia no corpo. Também o homem não sabia, mas seus corpos sabiam e atraíram mulher e homem e eles se souberam. Se souberam em mãos e saliva, tato e paladar, sentindo o agridoce da vida. Sentir o gosto. Sentir o cheiro. Sentir o som, alto e baixo, um mundo se faz num discurso que é um gemido.
Há luz no quarto porque o olho do outro é a delícia de conhecer-se na revelação do desfalecer alheio. O que os corpos sabiam, fizeram, ainda que mulher e homem se inibissem um pouco. O que os corpos queriam, faltou, posto que queriam começar sempre e não parar nunca de se fazer gozo. Mas a mulher e o homem souberam que o que faltou aos corpos tem nome e a este hiato de insatisfação chamaram amor e se chamaram por toda a noite falando de toda a vida.

2 comentários:

ALEX disse...

Profundo.

E como aqui me sinto livre

Digo posso falar abertamente, lembrei como sempre lembro eventos inacabados, entre dois jovens, que se abraçaram, e se beijaram que se escreveram, mas quase... E se escrevem “...

Um Cheiro

Alex Ramos

S. disse...

Ai...ai...
Lindo texto, minha linda. gosto cada vez mais daqui e de vc. Abracinhos carinhosos.

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