sábado, 12 de junho de 2010

A Borboleta e uma Metáfora no Dia dos Namorados

Verás que um filho teu não foge à luta é um dos versos que mais gosto no nosso hino nacional. Assim, não vou me esquivar de falar do Dia dos Namorados. Mas vou fazer do meu jeito, colocando mais uma letra onde eu quiser. Por exemplo, dia dos enamorados. Bem melhor, pelo menos pra mim.

For me, the cinema is not a slice of life, but a piece of cake.
(Alfred Hitchcock)

Eu não sei viver sem paixão. Invento e reinvento minhas histórias de tal sorte que, às vezes, perguntam-me se eu não gosto mais da idéia de amar do que dos amados. E eu pergunto de volta: é possível ser de outra forma, se o outro é sempre um Outro para além do que sabemos e desejamos dele?
Já foi dito ou melhor, cantado, que o amor é filme. Eu digo mais: a minha perfeita metáfora pra vida é O Poderoso Chefão e amar não só é filme, mas é um filme especial: Os Intocáveis. Sim, eu já falei sobre isso, mas não diz Freud que tudo é repetição e repetição é gozo? Então.
Em Os intocáveis o que não falta são cenas grandiosas, daquelas inesquecíveis que constam no caderninho de todo cinéfilo: a seqüência do tribunal, a cena da ponte canadense, a dolorosa morte de Malone e a indescritível cena da escadaria que é já uma referência a outra inesquecível sequência de outro filme. No amor também se fazem presentes momentos antológicos e referências a amores antigos (nossos ou da história). O amor e, principalmente, o grande amor da nossa vida é uma seqüência de acasos e situações aos quais logo damos um sentido inesquecível e particular.
Mas esse não é um filme só de momentos grandiosos, há os detalhes, a ambientação, a intimidade da direção com os personagens que vão se mostrando mais a cada cena...como no amor em que tudo já está, desde o primeiro momento, mas é o envolvimento que vai revelando as nuances do que amamos. Os detalhes são reveladores no filme, como são na vida. A referência à São Judas e às causas perdidas, a decoração da casa de Malone, a inocência da família de Ness, a ousadia do personagem de Andy Garcia, todo um pano de fundo que dá consistência e força à narrativa. De novo, repito, como nos relacionamentos, onde o "passa o pão" enriquece e embeleza o sentimento. Uma das coisas que mais me toca é a cena em que Malone e Ness enfim resolvem que sim, vão enfrentar Capone, juntos pro que der e vier. Eles estão em uma igreja, porque um empreendimento destes só na base da fé. Como amar. Só acreditando é que permanece. É preciso coragem pra amar e é preciso fé. Em si mesmo, no outro,no futuro, no próprio amor.
Um outro dado que faz de Os Intocáveis uma perfeita aproximação do amor - pra mim -é a extrema ternura que o filme me provoca. Todos os intocáveis são, contraditoriamente, tão humanos, vulneráveis, "tocáveis". É assim amar. Sentir uma ternura tal que os olhos lacrimejam só de pensar: eu amo. Amar é sentir a vulnerabilidade extrema de sermos incompletos, falíveis, ridículos. Porque é ridículo: um agente federal janota, um contabilista desengonçado, um novato na polícia e um policial de rua quase aposentado se juntarem pra lidar com Al Capone. Não, não com um bandidinho qualquer, que já seria páreo duro, mas com a maior estrutura criminosa da cidade e uma das maiores do país. Viver é assim, ridículo. Mas é o ridículo que permite a grandeza. Ou o riso, claro. Além de tudo e apesar das fragilidades, eles são - esses tocantes intocáveis - incorruptíveis, como deve ser o amor e os amantes. Porque é tão fácil não ser, como era fácil corromper-se naquela Chicago.
Os Intocáveis é um filme pra se ouvir, como amar é descobrir - enfim - porque há a audição, há os silêncios reveladores e cúmplices, há a trilha sonora primorosa e há os diálogos, como no dia a dia do bem querer, onde falar de tudo e nada é tão importante quanto poder nada dizer e, sob a influência do cinema, parece que a cada momento mais emocionante surge uma música de fundo que retrata exatamente o que nenhuma palavra poderia dar conta: surpresa, alegria, desejo, ternura...E a direção e montagem? É, no filme, como deveria ser sempre no amar: perfeita utilização da técnica, estilo e visual marcantes, planos variados, câmera lenta, ritmo.
É um filme sobre perdas. Amar, além de perder-se, também é perder. Há dor. A dor de Ness que tem que alterar sua dinâmica familiar. Amar é saber de mudanças e incômodos. E há morte, a dor de um silêncio onde antes havia alguém. A morte de Malone, com coragem, com angústia, com beleza. Sim, amar é saber da finitude. E há, ainda, uma pergunta: vale a pena? Porque depois de todos os cortes, depois das perdas e mortes, o crime já não é mais crime, acaba-se a Lei Seca. Vale a pena amar mesmo que o amor acabe? Mesmo que não seja um felizes para sempre? Sim, eu digo, eu choro, vale o penar porque antes de tudo há a honra, os princípios, as convicções. O certo nem sempre é fácil, mas é, ainda e sempre, necessário.
Os Intocáveis é um filme sobre vínculos. E sobre a audácia. "Todos sabem onde está a bebida. O problema não é encontrar a bebida, o problema é enfrentar Capone". No amor é assim. Amar é uma ato de coragem, uma decisão de enfrentar o gângster particular que vaticina a infelicidade. Eu amo como Malone, acho. Fico quieta no meu canto, mas se topo a briga, quer dizer o relacionamento, é pra valer. Sangue, bala, intimidação, nada me tira do campo de batalha (que, se for a cama, bem melhor).
Amar me faz ser incoerente. Como Elliot Ness e seus amigos. Eles seguem a Lei, respeitam a Lei, agem em nome Dela mas, para preservá-la, deparam-se com a complexidade de questionar os limites. E eu me desdigo, reinvento, recrio a cada amor e a cada amado. Condenável, muito ocndenável. Mas aí lembro da cena da ponte e do capitão da cavalaria olhando pra Malone e repreendendo Ness: "eu não aprovo seus métodos!" Ele está certo, claro. São métodos horríveis. Mas, como Ness, também eu respondo: "você não é de Chicago!".
E pode subir os créditos ao som de Morricone. Amar é muito perigoso.

PS. Como Ness, ganhei algumas cicatrizes, perdi gente querida, revi valores. Mas hoje, neste dia dos namorados, eu estou feliz, feliz, feliz, podia até dar beijinho de esquimó, mas acho que, outra vez como Ness, vou tomar um drinque.

PS2. Já que falei de amor e filmes, uma lista de grandes amores. São 21 filmes. Por que? Quem sabe, talvez seja o número de anos que passei esse dia com namorados...

1)A Bela e a Fera
2) O Corcunda de Notre Dame
3) Harry e Sally
4) O Filho da Noiva
5) Uma mulher para dois
6) Suplício de uma saudade
7) A Dama e o Vagabundo
8) Tarde demais para esquecer
9) O Véu Pintado
10) Ata-me
11) Como se fosse a primeira vez
12) O Morro dos Ventos Uivantes
13) Orgulho e Preconceito
14) Elsa e Fred
15) Drácula
16) Um dia muito especial
17) Morte em Veneza
18) Amor Bruxo
19) A História de Nós Dois
20) Nosso Amor de Ontem
21) Aconteceu Naquela Noite

PS 3. Não, não coloquei E o vento levou nem Casablanca. Pra quê? Todo mundo sabe o que todo mundo sabe. No mais a lista foi feita num rompante e sem ordem, deve estar faltando um monte de filmes que amo...

3 comentários:

Belos e Malvados disse...

Vou ver se deixo a preguiça de lado e faço uma lista dessas também, qualquer dia, lá no Belos. Posso? Se bem que muitos dos meus favoritos foram citados aqui.

S. disse...

Lembro da cena de drácula, quando ela, lindamete ruiva em vermelho vai atras da sedução e da paixão que promete tudo (inclusive a morte), enquanto uma figura em branco (a mocinha) os segue. O amor verdadeiro é sempre branco nessas histórias. Eu sempre me indentifico com a mulher que é mordida e morre vertendo sangue e desejo. Azar o meu. Beijinhos fofos.

ALEX disse...

Boa sintese do que é um relecionamento

Posso incluir mais dois ná sua Lista?

Os Girassois da Russia

Super-Homem o filme (fazer o mundo voltar) fala sério...

Um
Cheiro

Alex Ramos

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