domingo, 20 de junho de 2010

Apenas duas gotinhas de Chanel nº5

Sempre que vejo futebol, fico assim, pensando no absoluto. O que é a verdade? E o bem? E a felicidade, como sabê-la? Quero dizer, no gol do Luís Fabiano, a verdade é o que eu vi e posso descrever da bola batendo em seu braço ou o fato normativo de que o gol valeu, então a verdade é o concordado? E o correto, o bom, o que é? Dar a outra face e deixar os adversários baterem à vontade e retribuir em gols? Ou, como o Flamengo na final da Libertadores, permitir-se um Anselmo e seu murro redentor? Ser feliz é ganhar o jogo ou ganhá-lo sendo bom e usufruindo a verdade? Não sei e, hoje, não é isso que me ultrapassa. Estou pensando mesmo é na beleza.

O Belo é complicado. De todas as definições a que mais gosto é da beleza como último véu ante o horror. O horror? Sim, a falta absoluta, a angústia de não se ser todo. É a incompletude que abre espaço para a fantasia e o desejo. Mas onde está o belo? Lá, no objeto dado à contemplação? É nele mesmo um algo que se coloca belo a quem o aprecia? Ou, ainda, o belo é em quem deleita-se, como na máxima popular: o bonito está nos olhos de quem vê? E, neste caso, é preciso um elemento outro, diferente dos critérios estéticos, pra tornar algo belo, como o amor (quem ama o feio, bonito lhe parece)? Ou vou apenas regozijar-me ao considerar algo belo, pensando como Kant que os problemas estéticos são de impossível resolução porque, distintamente dos juízos de conhecimento, os juízos estéticos referem-se a uma reação pessoal?

A beleza, a mim, liberta. Minha lista de coisas belas corresponde à lista dos momentos em que pude ser toda ao me ver falha. A beleza prende o olhar e liberta o desejo. A beleza não está, a maior parte das vezes, nos meus olhos, admito. Onde mais encontrei a beleza foi no sentido. Gosto de livros, neles, o bem, a verdade, a felicidade e o belo. Gosto de diálogos como os de Casablanca. Tão precisas as frases que elas quase são adivinhadas quando se assiste o filme. Gosto das formas doloridas de Camille Claudel. Gosto, ah como gosto, da luz nas obras de Caravaggio. Sim, gosto de enigmas. Acho belo o insinuado, proposto, incerto.

Uma das coisas que sei sobre mim (e sobre tantos) é que o belo vem, tantas vezes, em formas e curvas femininas, não importa minha heterossexualidade. A beleza é feminina no seu mistério, no impossível de dizer, no que aponta pra um outro lugar, uma outra pergunta. A beleza é feminina no seu desamparo. A beleza se desloca entre o efêmero, esta mulher; e o eterno, uma mulher. A beleza se coloca no inusitado e, por mais que se a retrate imóvel, é a possibilidade do movimento que melhor traduz a beleza do feminino. Ela está sempre em outro lugar. A beleza feminina escamoteia a pergunta sobre o belo e me remete à pergunta sobre o gozo. O que eu quero? O bem? A verdade? A felicidade?

O certo é que tantas palavras seriam dispensáveis, se é possível alguma vez dispensar a linguagem, se eu tivesse simplesmente dito: bonita mesmo é a Marilyn Monroe (assim, no presente, porque a vida dela foi efêmera, mas suas formas são eternas)...



1. A primeira imagem eu encontrei aqui.
2. La Valse, Camille Claudel
3. A Vitória de Samotrácia
4. Ela, sempre, os homens preferem as loiras se as loiras forem a Marilyn Monroe

4 comentários:

S. disse...

O que vc escreve é belo ( e acredito que n só aos meus olhos) abracinhos.

Hertenha Glauce disse...

Vc fala em beleza após citar o gol do Luís Fabiano... É verdade, ele tocou com o braço antes do gol, mas e daí?
Mesmo que o gol tivesse sido invalidado (o que não aconteceu), valeu pela beleza... Me encantei! Reveria inúmeras vezes o gol dele... o segundo!
Mas em contapartida... a feiúra do comportamento do Kaká!!! Que patético!!! "Evangelicozinho" de merda! Fiquei tão indgnada, que não resisti, mesmo em meio a beleza do gol do Luis Fabiano, dizer: - como foi feio, Kaká!!!!

Rita disse...

Oi.
Tô passando rapidinho só pra dizer que tbm sou meio deslumbrada com o lance da luz nos quadros do Caravaggio. Meu sonho de consumo absurdo e impossível é voltar no tempo e vê-lo pintando uma coisa daquelas.

bjs
rita

Borboletas nos Olhos disse...

S., pode não ser só aos seus olhos, mas é tão bom trocar olhares com quem a gente gosta...

HG, gostei de ganhar -quem não gosta? - mas ainda falta muito pra eu gostar desta SB...

Rita, seremos duas a partilhar esta viagem no tempo e na beleza...

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