quarta-feira, 19 de maio de 2010

Uma solidão de não ter palavras...

Nem John Wayne, nem beijo, nem saudade...nada desses iniciados posts. Até podia ser a doença da morte, mas até isso me escapou. Quem freqüenta sabe, sou da turma da alegria. O riso me vem fácil, quase sempre. A não ser. A não ser quando se ausenta. Angústia, chamam essa inoportuna que chega. Gostaria de pensar que ela é visita, hóspede, mas eu sei que não. Sei que habita o sótão, arrasta correntes, recebe bandejas de comida à porta sempre ensombreada e, vez ou outra, quando dá-lhe angústia de ser ela mesma a angústia, desce a escada e põe-se a percorrer a casa. Um escândalo suas vestes de um branco amarelecido de não ver luz. Olhos fundos. Desfruta de poucas companhias, mas aprecia, ainda que vagamente, a saudade, a dor e a nostalgia. Ela se abanca na varanda e fica a espiar, pelos meus olhos, o mundo. Com suas unhas enormes arranha a madeira da cadeira em que lentamente se balança. A angústia ocupa os espaços da casa. Ela empurra tudo pra fora e tudo me arde em lágrimas. Não é dona da casa, mas age como se fosse. É de uma força que rouba a minha. Ela cresce em espasmos do que eu não posso. A garganta fecha em desejos de nada dizer. Pensar em coisas boas, pensar em coisas alegres grita uma noviça rebelde ao longe e eu tento: bigodes de gatos, neve...mas eu não conheço a neve, zomba a angústia, e a noviça torna-se névoa. A vista embaça e o amargo trava o sabor de viver. Logo mais ela se recolhe, eu sei, eu espero, eu quero. Não há motivos para preocupação, insisto. Mas dói. Dói de não chorar, de não ter, de não poder, de sequer saber o que se deveria ter, poder e querer. Ou de saber, mas não poder nomear, não poder desejar. Espero que ela torne ao sótão repleto de impossibilidades empilhadas, objetos perdidos, demências e ferocidades. Que ela se tranque em três voltas de chave. A angústia aprisiona numa solidão de não ter palavras.

2 comentários:

Dentro da Bota disse...

Lindo post...asorei o texto....

Tanti saluti di Roma


Gi!

Hertenha Glauce disse...

Sem palavras, mas ainda sim, como elas te fluem bem!!!
Deixa ela aí! às vezes, deve ser bom pra alguma coisa, que eu ainda não descobri... Mas ela se vai assim como veio...
Garanto!
Beijos

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