quarta-feira, 26 de maio de 2010

Palavras para dizer o desejo* ou Um conto inacabado

porque tenho aprendido que há muitas e tantas formas de se dizer...

Já sente a saudade no momento em que desliga o telefone. A voz dele desaparecendo, aprendendo a fazer eco do silêncio. O silêncio que segue à última palavra, ao último riso, ao último beijo, é sempre o mais difícil de atravessar. Já não há mais abismos nela que ele não ocupe. Ao redor dela não há – quase – sinais. Mas dentro, já pressente até o sal dos dias de despedida, embora ele nem tenha chegado ainda. Ela já sente ferver, já sente doer, já sente pulsar. Lembra coisas que nem aconteceram: um beijo, uma dança, uma caminhada à beira-mar, um encontro de cúmplices olhos, as mãos esquecidas no corpo do outro como se sempre tivessem estado lá. E reconhece o que nem conhecia: as infinitas reticências, o espreguiçar, as rápidas e precisas palavras. Sim, as palavras certas, um momento antes do momento certo, com uma certeza a que ela não se acostuma, mas admira. Como se houvesse sentido no viver que não fosse só sentir espanto disto que se está a sentir. Como se fosse possível isso de gostar. Como se tudo fizesse sentido desde antes da primeira palavra ser dita, como se viver fosse um flash back. Ela se ressentia um tanto, pela primeira vez sentia vontades como a de chamar, sem razão, pra dizer que viu o mar, a lua, o tempo, como se não os visse sempre e com alegria. Ou pra nada dizer e nada ouvir a não ser um timbre. As mãos agarram objetos cotidianos que a impedem de voltar ao telefone. Um estranhamento a acompanha, como se fosse o tempo errado, como se houvesse uma outra coisa que ela devia fazer, como se devesse estar em outro lugar. O tempo a ignora, ofendido. Ela, sem paciência pro futuro, ela que devora tudo no já, tem a espera como companheira. Destemida, agora tem medo das perguntas que fazem abismos. Planeja tolices - onde colocar as mãos, como disfarçar o bobo do sorriso - porque não tem coragem de nomear os sonhos. Um mundo imenso, esse; ela pensa e não segue. Ainda não sabe escolher caminhos, essa dona que nunca deixou de andar com o coração.


*Les mots pour le dire (palavras para dizer) é o nome de um filme que assisti em tempos outros, onde ainda existia como universitária de psicologia. Penso que alguém escreveu um artigo sobre ele, mas já não lembro autor nem idéias...mas o título me persegue.

** A imagem veio daqui

*** Quase nunca escrevo estorinhas aqui, podem culpar a aproximação do Dia dos Namorados e toda a conversa sobre santos e namorados lá no meu cemitério de estimação.

2 comentários:

Paulo disse...

Adorei...

Mas você tinha que me lembrar no final de tudo que o Dia dos Namorados está chegando??

Deprimi... :(

Carrie, a Estranha disse...

Ai, q lindo. Obrigada pela dedicatória.

Um bj gde.

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