domingo, 30 de maio de 2010

Era um vez, no meu coração, o Oeste, o Velho Oeste...

É um post longo, esse. E apaixonado. E muito, muito verdadeiro.
Sempre gosto de escrever sobre filmes, já que gosto tanto deles.
Sempre gosto de escrever sobre homens, já que gosto tanto deles.
Assim, é sobre homens e sobre filmes.
E sobre mim, que gosto de gostar deles.


Eu adoro cinema. Meu coração quase rompe em cálida ternura quando penso simplesmente assim: cinema. E, de todos os gêneros, arriscando-me ao arrependimento logo depois de escrito, eu prefiro os faroestes. Não há uma explicação simples pra isso, é certo. Há Wayne, há meu pai, há a sessão coruja nas madrugadas de sábado. Talvez seja o fato de que o faroeste é cinematográfico por essência, vocação e história (do drama à comédia, passando pela ficção científica e pelos épicos, os demais gêneros têm nobres antecedentes no teatro e na literatura, mas o faroeste, fora tênues subprodutos, é vocacionado para as telas, talvez porque o cenário seja tão relevante para o gênero, só aquelas imagens daquele tempo e lugar poderiam suportar as dimensões dos faroestes). Tem os duelos que sempre fazem meu coração bater num ritmo diferente e, sim, eu imitava os pistoleiros e adorava fingir que bebia uísque ou sabia jogar pôquer. E as trilhas sonoras, viciantes. Há o inconteste fato de que sou mulher e me atrai o mundo masculino. Fico quieta a inquirir a honra, a amizade, o cavalheirismo, a rude bondade. Procurando descobrir o fio de Ariadne que me leve sem maiores ferimentos aos braços do Minotauro. O faroeste tem heróis. Mas heróis que não voam, não têm superpoderes, não são invulneráveis e, a bem da verdade, só se envolvem nestas coisas de bem comum por um incidente qualquer. São solitários os homens do Oeste. E me dói e me comove que assim o sejam. Correndo o risco de soar tão machista como me sinto eu diria que os homens-heróis do faroeste são os homens que iconoclasticamente desejo.

Tenho um imaginário sobre os faroestes, claro. E, ainda de forma mais evidente, não deve ser muito diferente dos imaginários dos fãs ou mesmo de apreciadores ocasionais. Os faroestes têm estereótipos que eu prefiro chamar de legendas: os vastos espaços que demandam valentes; os saloons barulhentos; revólveres; ruas únicas varridas pelo vento; duelos. Sempre me encantou a certeza inabalável de que nunca, nunca, nunca, o herói não seria honrado na disputa com as armas. O herói não é necessariamente digno, decente ou escrupuloso mas, tenha certeza, ele não atira pelas costas. Eu vi e gostei de muitos filmes de que pouco recordo a não ser que eram faroestes e os tiroteiros se sobrepunham. Mas há filmes que por várias circunstâncias foram sendo revistos e se tornando os mais amados. Não os coloco em ordem de preferência, como escolher um único Wayne? O melhor Sergio Leone? O mais emblemático pistoleiro? Mas começo com um dos menos badalados mas que sempre me mobiliza: Big Jack. Repleto de ação, tem humor e tiroteiros hipnóticos, faz contraponto entre a pífia atuação oficial em frágeis automóveis dos agentes da lei e a arrogante e máscula campanha do herói que a 18 anos não via sua mulher, é um filme que me diverte e empolga sempre, e o que mais se pode querer do cinema?

Sete Homens e um destino: eu chorei. E ri. E chorei de novo. E me zanguei. E, um tantinho, me apaixonei pelo careca. Sabe, sempre me doía pensar que aqueles sete magníficos eram mais baratos do que comprar armas. Há cenas maravilhosas e diálogos impecáveis (os faroestes sempre têm poucas falas, mas os bons faroestes fazem disso um trunfo colocando sempre frases lendárias entre uma bala e outra). Tem uma trilha sonora envolvente. Há a preparação para a perda e a certeza da cruel continuidade da vida. Há uma pergunta que sempre se coloca como impossível pra mim: mais vale o que fica ou o que segue?

Duelo ao Sol – bom, tem o Gregory Peck. E é meio sexy, né? E, mais além, é trágico, com aquela beleza que só o impossível consegue emprestar a tudo o mais. É, pra mim, um filme sobre escolhas. E com tão ricas cores e possibilidades que sempre que o revejo me espanta que se fizesse filmes assim e que não se faça mais.

Três homens em conflito, mas eu prefiro: O Bom, O Mau e o Feio. Só esse título já vale pra entrar na minha lista de favoritos. Mas o filme tem mais, muito mais que isso. Tem seqüência de abertura em que se apresenta, com requinte, cada um dos protagonistas (ou antagonistas, pra ser mais precisa). Nesse filme só falta diligências. E, claro, o Wayne. Mas tem tiroteio, pistoleiro, prostituta, cinismo, mocinhos barbados, cavalos, paisagens áridas...e uma história maravilhosa, rica, convincente, densa. Há longas sequências sem cortes que criam clima e aumentam a tensão até quase me fazer gritar. Há o contraste brilhante entre tomadas panorâmicas e closes de rostos fortes, duros, sujos, cínicos, impressionantes. O filme tem personagens, personagens complexos e muito bem interpretados. Gosto quase igualmente do resto da trilogia (por um punhado de dólares e por uns dólares a mais).

No Tempo das Diligências/ Rio Vermelho – ambos têm o John Wayne. E lançam as bases dos arquétipos que amo: o homem livre, forte, que deve impor-se pela força ao ambiente, seja natural ou social. As ambientações são impressionantes e o que o herói deve fazer se coloca inexorável. Rio Vermelho ganha por uma cabeça: a do Montgomery Clift.

Onde começa o inferno/Matar ou Morrer – o homem é um só. A solidão das decisões. A covardia. A coragem. A escolha. Wayne. Gary Cooper. No Matar ou Morrer temos um protagonista a mais: o tempo, onipresente nos relógios que se sucedem nas cenas hipnóticas. Onde começa o inferno é uma pergunta feito imagem sobre honra, ética e apatia. Um e outro confrontam-me comigo mesma. Gosto do silêncio constante no Matar ou Morrer e que acirram o abandono a que é sujeito Cooper. Gosto do tom redentor que acompanha Wayne e dos diálogos inteligentes com a direção precisa e minimalista de Hawks.

Há ainda a violência dolorida e explícita (embora hoje quase terna ante o que andam fazendo por aí) de Meu ódio será sua herança; o irrevogável de O Último pôr-do-sol; o esquemático mas arrebatador Shane (que quase hereticamente insisto em chamar de o brutos também amam menos porque me parece verdade e mais pelo tanto que eu gostaria que fosse); o amoroso, reverente e ainda assim crítico Era uma vez no Oeste (e que mulher, meu deus, foi Cláudia Cardinale!); o humor desesperado e a terna nostalgia de Butch Cassidy e Sundance Kid; o Wyatt Earp de Fonda/Ford em Paixão dos Fortes; a amargura e a complexidade de Jogos & Trapaças - Quando os Homens são Homens; a maior parte dos Djangos especialmente aquele – acho que é o bastardo – em que ele diz algo como – tenho a frase anotada na agenda, que brega mas tão útil! – vou fazer você morrer mil mortes; o épico de Da terra nascem os homens – e, outra vez, a sedução madura de Gregory Peck; a batalha de OK Corral em Sem lei e sem alma; o embate entre Fonda e Wayne em Sangue de Heróis; as intensas mulheres de Johny Guitar e O Diabo feito mulher; o talento de James Stewart em O Preço de um Homem; o desconforto e agilidade do Ringo (não me acusem de dar preferência ao Peck é que ele ganhava ótimos papéis) de O Matador; Wayne, pra mim impressionante e arrebatador, em: O Ùltimo Pistoleiro, Bravura Indômita, El Dorado, Caminhos Ásperos, O céu mandou alguém, Os cowboys...uma lista quase infindável porque basta vê-lo em cena pra tudo mais no filme ficar menor que sua presença.

Eu sei, eu sei, não estão aqui Rastros de Ódio nem O Homem que matou o Facínora ou O Tesouro de Sierra Madre . São tão grandes. Tão plenos. Tão belos. Obras-primas. Tão meus filmes que demandam, exigem um post só pra eles. Que virá.

4 comentários:

Paulo disse...

Nossa... relembrei minha infância inteira lendo esse post! Meu pai era viciado em filmes de faroeste, e invariavelmente eu acabava assistindo um ou outro com ele. Vi vários dessa sua lista!! Engraçado é que depois dos meus 18, 19 anos, nunca mais assisti nenhum! Preciso pegar um dia desses e rever alguns clássicos!

Belos e Malvados disse...

Meu caso é igual ao de Paulo: faz tempo que deixei de assistir faroeste, mas depois deste post deu uma vontade tremenda de revê-los.

S. disse...

Amore, nunca gostei muito de faroeste, mas entendo sua fascinação pelo genero. E pelo cinema em geral. Dia desses comecei a participar de uma comunidade no orkut chamada "abduzidos pelo cinema" só por causa do texto, que começava mais ou menos assim: "Não, vc n tem culpa, vc só beijou o cara pq o cena pedia, disse frases sem sentido pq ficariam ótimas no roteiro". Ou algo do genero. Beijinhos doces.

ALEX disse...

Sou apaixonado por estes filmes

Mais para mim Era uma Vez, Três Homens em conflitos e os Imperdoaveis são os melhores.

Você já assistiu Os Indomaveis com (Russell Crowe e Christian Bale)?

Um Cheiro

Alex

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