terça-feira, 11 de maio de 2010

A Borboleta e o Amor

Como você aprendeu a amar? Quer dizer, se a gente partir do princípio que no ser humano itens como pensamento, sentimento, linguagem não vêm de fábrica e sim são construídos socialmente, a gente tem que aceitar que a forma como amamos, as palavras que escolhemos pra falar do nosso sentimento, os gestos que fazemos, as reações que temos às ações do amado, tudo isso é produto de nossa interação com eventos e pessoas específicos que foram operando como mediadores da nossa forma de amar. Então, como você aprendeu a amar? De onde vem seu dicionário particular?
Eu aprendi a amar em livros e filmes. Com meus pais, antes que alguém argumente, aprendi coisa melhor, aprendi a viver junto com paixão. Mas o apaixonar-se eu aprendi mesmo foi entre cenas e linhas. Por exemplo, lânguida. Sinto-me lânguida na presença do objeto do meu bem querer. Sentir-se lânguida com certeza é uma construção literária, não acha? E escrevo cartas. Escrever cartas logo me lembra mulheres de corpete apertado, mãos crispadas sobre o peito amassando lindas e delicadas folhas de papel. Amar pra mim é morte, delírio, loucura, entrega, abismo. De onde todas essas palavras? Livros, claro. Aprendi a amar delirantemente com O Morro dos Ventos Uivantes. Aprendi a amar com sacrifício e morte com A Dama das Camélias. Aprendi a entregar-me com Clarice e sua Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (e Água Viva e Felicidade Clandestina e e e e...). Aprendi sobre traição, estilo, abandono, mentiras, sobre sedução e ternura. Aprendi sobre ser mulher. Sobre ser eu. Sobre como eu devo ser pra amar como eu sou. Eu gosto de agradar. Gosto de estar. De mimar, cuidar, tocar. Aprendi que é assim que amo. Ficando. Escolhendo. Aprendi, também, sobre deixar, sobre seguir, sobre matar.
Aprendi nos filmes os gestos, a trilha sonora, o cenário e o roteiro de uma estória de amor. Aprendi sobre o doce e sobre o amargo, sobre partidas e reencontros. Suplício de uma Saudade. Matrimônio à Italiana. Um bonde chamado desejo. Laços de Ternura. Até os títulos dizem do meu sentir. Aprendi como não dar a mínima com Gable e aprendi com Scarlet que amanhã é outro dia, o que quer que isso signifique. Aprendi a não deixar que o amor seja maior que a honra, a não esquecer de dizer te amo, a não fugir do raio. Aprendi como usar o leque imaginário com que me abano sempre que o desejo parece me sufocar. Aprendi a ser frágil. A ser meiga. Aprendi a ser Calamity Jane, a ser gata em teto de zinco quente, a ser indomável Katherine. Aprendi sobre quem devo amar, como devo amar, como ser amada. Aprendi a amar em filmes e livros. Gosto que tenha sido assim. Talvez alguém tenha outra história, outro percurso. Como você aprendeu a amar? Eu, borboleta, aprendi a amar em cores e linhas que o vento levou.

2 comentários:

Belos e Malvados disse...

Sempre digo que o cinema e a literatura reinventaram o amor. Tb aprendi com os dois. E continuo.

Hertenha Glauce disse...

Posso dizer que aprendi a amar com o Pedro!
Me ensinou que o amor pode ser tranquilo e arrebatador...tudo junto!

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