quinta-feira, 8 de abril de 2010

Sobre samambaias e outras formas de querer bem...

"...você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado,
assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você
esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala,
uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira,
é, não estou sendo agressivo não,
esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira,
mas nunca, em nenhum momento, essa coisa enorme
que me obrigou a abrir todas as janelas,
e depois as portas,
e pouco a pouco derrubar todas as paredes
e arrancar o telhado para que você crescesse livremente"

Pois é. Você já sentiu todas as suas idéias, todas as suas certezas, todos os seus hábitos, rotinas, costumes, tudo, tudo, tudo que faz você ser um você ser questionado? Eu não. Tem certas coisas em mim que são minhas, que são eu, que me acompanham e ficam, por vezes sorrateiras, esperando a hora de me afirmar. Mas eu já senti esse lance aí do Caio Fernando Abreu. Sinto. Uma coisa que não era pra ser, assim, tanta coisa, mas acaba sendo? Então. Essa plantinha toma de assalto. Exige luz, água, adubo. Para ser bem sincera, exige não é a palavra certa. Demanda. A gente fica refém da nossa própria vontade. A gente não. Eu. Eu fico presa ao meu próprio querer. Querer mais. Querer bem. Querer tudo de uma vez. A paciência nunca foi meu forte.

Eu tenho tempos de descobrir ou redescobrir um autor, um livro, um filme. Agora, nesse tempo de já, estou vendo o quanto CFA me advinha. Vou lendo e tudo parece que fui eu quem disse. Pior, parece que é o que ainda vou dizer. E, pior ainda, é que vendo as frases, dá logo vontade de criar a situação para dizê-las. Eu sou assim: crio as minhas histórias. Mas quem não cria? Eu, pelo menos, sei. E me deixo levar mesmo assim, porque qual é a graça de viver senão viver? Assim, agora, estou molinha, molinha, parece até que deitei a cabeça num ombro e saí arrastando o corpo ao som de Elba e seu "pegue devagar, me pegue pra chamegar." Aceito o baobá que cresce no meu coração como o Pequeno Príncipe jamais pôde aceitar a sua rosa. Com o reconhecimento claro de que meu coração é campo minado. Terreno alheio. Terra prometida. Não importa a metáfora, com o claro reconhecimento de que abrir janelas, portas, derrubar paredes e arrancar telhados é o que faço de melhor.

Mesmo, mesmo, alguém pode dizer, com certeza, que o Caio Fernando Abreu não escreveu isso pra eu repetir?

Você esta tão longe
que às vezes penso
que nem existo


3 comentários:

Dentro da Bota disse...

Lindo texto!!!!

Gi, Roma

Paulo disse...

Caio Fernando Abreu sabe tocar nos nossos sentimentos como ninguém. Lembro de um livro dele, se não engano "Morangos Mofados", que me fez chorar enquanto lia, de ter que parar a leitura por que já não enxergava mais nada.

Esse início do seu post com a frase dele mata. Quantas vezes eu não quis que determinada pessoa fosse o baobá, mas nunca passava de uma simples samambaia, uma graminha rasteira. Ainda acho esse baobá na minha vida.

Lica disse...

Cresce, cresce....

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