sexta-feira, 23 de abril de 2010

Que passem os hunos ou Meus ódios de estimação

Lá, naquele cemitério que não me canso de frequentar, ódios bem pensantes a provocar os meus. Fiquei a matutar e matutar a dificuldade de fazer uma lista dessas. Não que eu não tenha os meus ódios de estimação. Tenho-os até em quantidade ímpar. É que eles não são tão bem ponderados assim. Quando chegam, hunos, é que os descubro. E logo os esqueço, ficando nem o amargo. Mas hoje é sexta-feira de saudade, vazia de aulas, a cerveja só será liberada às 18hs, há tempo para as birras. Ódio então a...

1. que me venham com relativizações. Não e não e não. Pronto. Não há comparação entre o piano jazzístico de Dick Farney e as pretensões musicais dos pagodeiros vigentes. Não há possibilidade de troca entre o devaneio estético de Kurosawa e os rompantes de James Cameron. Entre as incandescentes palavras de Cartola e as indecentes pretensões da Pitty. Não há paridade possível entre a liberdade de expressão e a prática da mutilação dos órgãos genitais femininos. Não há.

2. a generosa auto-complacência de quem se orgulha e até se gaba de comportamentos carentes de civilidade e honestidade intelectual. Ódio de quem para em fila dupla, pirateia filmes, dá um jeitinho, de quem - em pleno Brasil - se orgulha de desconhecer Lúcio Alves, Johny Alf, Eliseth Cardoso. Ódio inominável e avassalador de quem diz: não gosto de ler, como se aí houvesse uma indescritível virtude e não a ululante pobreza d'alma.

3. ao atraso. Não espero. Pronto. A não ser em romântico devaneio ou filho pródigo. A ausência de respeito ao outro de quem marca um casamento às 20:30hs e divulga 20hs no convite é caso a se pensar sobre pra onde caminha nossa moral. A desimportância que se dá ao Outro como sujeito ao submetê-lo a um atraso significativo não foi devidamente estudado na contemporaneidade. Detesto.

4. a glamourização da adolescência/juventude. Deve ser um defeito meu, sei lá, mas eu envelheço. Detesto a injunção seja jovem sempre e pra sempre. Eu gosto dos meus achaques de velhinha de 35 anos. Gosto da expressão do meu rosto hoje. Do brilho dos meus olhos. Gosto da lei da gravidade que deixa meu corpo mais macio. Tenho ódio das regras: tudo em cima. 55kgs. Botox. Rock e só. Academia de Ginástica no lugar da Academia de Letras. Não tenho nada contra hábitos saudáveis de alimentação e práticas esportivas (para os outros). Mas a homogeneização dos valores congelados na irritante adolescência me dá engulhos. Não nego a atratividade do frescor mas a limitação a ele me faz pensar o que seria, por exemplo, do cinema, se não houvesse uma madura Sophia Loren e sua giornata particolare. Ah, já sei, seria isso que é de avatares e cia ltda.

5. a naturalização da vida social. Não, eu não sou uma árvore. Nem um pato (embora, cantando, lembre um). As empresas não nascem nem morrem. Os vínculos sociais não brotam. Não suporto a idéia que vaga, prevalente, propagando uma lógica interna e própria de uma sociedade onde naturalmente eu sou privada de conhecer anfiteatros, óperas e livros como um natural exílio dada à geografia do meu nascimento. Ódio dos que arrastam a bandeira das diferenças culturais como lamacentas justificativas para a diferença de classes, gostos estéticos e inclinações afetivas e não, pelo menos, o contrário.

Ai, que delícia, despejar assim, de forma ávida e ácida, os ódios acalentados. Recomendo e agradeço a inspiração. Ah, pra terminar, devo confessar que tenho rompantes de desagrado quando me deparo com livros que queria eu ter escrito (A doença da morte), filmes que queria ter dirigido (Rebecca), frases que queria ter cunhado (quando sou boa...) e, principalmente, ódios que queria ter listado e que só me resta subscrever.

2 comentários:

Nanica disse...

Amiga, seus ódios são fofos, assim como vc. Mas olha, vc deveria procurar um cirurgião plástico pra implantar em vc celulites, estrias e rugas... Vc não sabe o que é ter isso!

Dançarina disse...

Compartilho o primeiro ódio muito muito. Essa história de dizer que tudo é a mesma coisa só que modernizada é dose. E adorei quando a adolescência acabou... e detesto quando ela insiste em voltar... a minha adolescência, que a dos outros eu não tenho nada com isso... aliás também odeio as generalizações que os outros fazem do que eu digo...e por isso ficar afirmando que isso é do meu ponto de vista (sem relativizar). Beijos antes que eu pareça o smurf ranzinza.

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