segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Porque a música é mais bonita quando se morre no final?


Explico: estou num desencavar de coisas que gosto e lembrei como me apaixonei por ópera. Pra ser bem sincera, apaixonei-me mesmo foi pelas histórias que as músicas ilustram. Meu pai tinha uma coleção linda, linda, linda, em vinil, com várias óperas e seus libretos. Eu devorava as narrativas e, de quebra, ouvia, enlevada, as interpretações musicais.

Pois bem, logo fiz uma lista das minhas óperas preferidas (quem resiste a listas? eu não, adoro fazer listas seja pro supermercado, seja das atrizes mais bonitas, livros que quero ler e por aí vai). Quando dei uma olhada no que gostava percebi que além de gostar do óbvio - alguém fala mal de Carmen, por acaso? - tinha uma predileção pelas histórias onde as mulheres morrem por amor não correspondido, ou por não amarem quem as queria, ou por amarem quem as amava mas não era permitido, ou por serem amadas em excesso, ou por serem amadas de menos,  enfim, como já disse Veríssimo, essas coisas são complicadas). 


Decidi comentar três que aceleram minha respiração: Carmen, Tosca, La Traviata. Carmen, então. Evidentemente. Manipuladora, sem (?) sentimentos, sedutora, encrenqueira...que mulher! Tão impressionante que exauriu Bizet que morreu três meses - eu disse três meses - depois da estréia de sua ópera, aliás, uma estréia polêmica. Nem todos gostaram: aquela personagem sem moral e sem remorsos, uma história sem absolutamente nada de edificante (eu ri muito disso, acho muito edificante uma mulher com esta quintura toda e, durante anos, acompanhou-me o presságio: vai morrer jovem! eu até desejei isso. Mas nem morri...) e uma música provocadora formavam a tríade a ser execrada. Eu adoro. Carmen é inspiradora. Callas cantando que o amor é um pássaro rebelde me dá a mais próxima dimensão deste sentimento a que eu pude chegar. A canção do toreador e o duelo final entre Carmen e José, "C'est toi! C'est moi!..." são registros que me fazem exatamente quem sou.


Aliás, antes de continuar nas minhas outras duas óperas devo dizer que o filme de Carlos Saura (aquele, Aninha, que faz parte da trilogia flamenca de Carlos Saura junto com Amor Bruxo - assiste, assiste, tem uma cena mágica; e com Bodas de Sangue, que aliás, é o primeiro) também chamado Carmen é belíssimo (ai, esta influência superlativa, só me falta mexer as mãos). Neste filme, eu relembro como as relações e- especialmente os homens - podem ser cruéis quando Antônio diz a Cristina que embora ela seja a melhor bailarina, seu balé exige uma mulher mais jovem e mais bela do que ela. É doloroso e tão próximo. Este é um filme sobre como transformar uma ópera em um balé flamenco - o que já é uma árdua empreitada - mas é principalmente um filme sobre amor e desejo.

Ai, ai, ai voltei à prática de posts enormes que ninguém consegue terminar de ler...bom, eu curto também Tosca. Ciumenta como ela só, exigindo que o quadro que seu amante pinta tenha os olhos negros como os dela... eu me repito: que mulher! Troppo bella! Primitiva. Quando Tosca mata Scarpia eu me sinto redimida, nem sei direito de quê, mas sinto. Em Tosca os personagens masculinos são impressionantes mas, puxa, perdem-se diante da presença intensa de Tosca. Ela é quem ama, ela é quem mata, ela é quem morre. Não há vitoriosos em Tosca. Recordo a frase que minha amiga Patty me apresentou anos atrás: ...uma batalha não acaba quando não há mais nada a perder. Sempre há. Ela termina quando não há mais nada a ganhar... Puccinni não levou isto em consideração e seguiu-se uma obra imponente. Sorte nossa. Quem quiser ver a morte de Scarpia com Callas assassinando e cantando, aqui está.

Por fim, La Traviata, que tem tema recorrente em obras de minha preferência, como Lucíola e A dama das camélias, apresenta outra morte feminina. Ativamente Violeta escolhe deixar o homem que ama e sua força é sua fraqueza. Ela definha com tuberculose, a mais romântica das doenças. Até existe uma reconciliação bacana perto do fim, mas não tem jeito: música boa tem que ter morte no fim. Lá se vai a bichinha pro outro mundo, quiçá menos preconceituoso  e cruel contra as mulheres que não se esquivam de ser.

Um comentário:

Fabiana disse...

Luciana!

Tudo bem?
Obrigada pela visita e pelo recadinho que deixou.

Uma graça o seu site! Adorei!
Vou adicioná-lo aos meus favoritos e virei sempre.

Muitas borboletas pra vc!

Bjo do Japão,

Fabiana

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