terça-feira, 6 de outubro de 2009

Pintando o Sete - Cecília Meireles

De muitas formas, uma sobrevivente. Única filha, entre quatro, a sobreviver. Órfã de pai mesmo antes de nascer. Órfã de mãe com três anos. Um marido suicida. Íntima do efêmero. Desde sempre próxima da solidão e do silêncio. Não são palavras minhas, são dela: "Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano".

Sua maioridade correspondeu ao primeiro livro de poesias : Espectro. Desde sempre lê-la é uma revelação: simbolismos complexos aparentemente simples na forma. Seus temas aprisionam minh'alma: efemeridade do tempo, o amor, o infinito, a transitoriedade da vida, a criação artística. Poetisa, professora, pedagoga, jornalista. Muitas mulheres. Uma mulher. Uma mulher de gestos grandiosos como fundar a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro. Suas poesias infantis são cheias de significados que transcendem uma faixa etária...como não entender e sentir: "Não sei se brinco, não sei se estudo,se saio correndo ou fico tranqüilo. Mas não consegui entender aindaqual é melhor: se é isto ou aquilo"

Com Cecília eu tenho aprendido a aceitação. Não a resignação, lado amargo de quem percebe os limites do viver. Com ela eu aprendo a conviver comigo mesma, com a morte dos sonhos, com o silêncio de sentir tanto a ponto de nada dizer. Com ela fiquei íntima da minha finitude. Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de morrer. E então serás eterno.

Uma das coisas que mais gosto em Cecília é a musicalidade extrema, suas poesias ficam ainda mais belas lidas em voz alta. Viajante em vida e em texto, o sentido do que escreve está sempre um passo depois do compreendido. Como em Cântico II: Não sejas o de hoje. Não suspires por ontens...Não queiras ser o de amanhã. Faça-te sem limites no tempo.Vê a tua vida em todas as origens. Em todas as existências. Em todas as mortes. E sabes que serás assim para sempre. Não queiras marcar a tua passagem. Ela prossegue:É a passagem que se continua. É a eternidade. És tu.

Com Cecília se pode aceitar que o amor é pra sempre, mas sempre não é todo dia (como canta Oswaldo...). Pode-se docemente entender a necessidade de retiro, solidão, individualidade. Pode-se esperar o amanhã de um hoje feliz. Pode-se assumir uma Lua Adversa:

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
tenho fases, como a lua)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,o outro desapareceu...

2 comentários:

Dani disse...

Cecília sempre me emocionou, é um mister de sentimentos que as vezes não consigo nomear. Você fez poesia com ela com a poesia dela... ficou lindo!

Aline disse...

Repito a Dani, ficou lindo! Não conhecia a biografia dela, e foi bom demais ter o primeiro conhecimento a partir desse texto seu!

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