quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Antes da hora

Eu voltei antes da hora. Antes do dia. Ficou faltando uma palavra, um gesto, um momento que eu não sei qual seria e não poderei jamais descobrir. Estava em teus braços, olhos no filho, em paz. E, de repente, a partida repentina, estabanada, improvisada. Cheinha de adas que até embelezam o texto mas deixam buracos n'alma. Fiquei rabugenta, irritadiça. Ao invés de aproveitar os últimos instantes, ao invés de deixar aquela marcante impressão de que a vida ao meu lado é empolgante e deliciosae que não é possível viver sem mim, saí dando chute pra todo lado. Acertei meu filhote, acertei você. Isso me chateia: saber o que é o certo, mas não conseguir me controlar e fazer justamente o contrário. Fico me vendo errar, atirar pedras, ser indelicada, quebrar meu próprio telhado de vidro. Como um fio muito esticado produzindo notas dissonantes. Aliás, estou mesmo um pouco diferente esses dias. Mais tensa. Preocupada. São as contas. Os prazos. Os grandes planos e os grandes planos trazem responsabilidades enormes. E eu me sinto só diante dessas coisas, porque você está longe e, no momento, com outras preocupações tão grandes e relevantes como as minhas. Acordo, às vezes, assustada, na madrugada, entre sonhos de que eu não vou conseguir, de que tudo é muito maior do que eu e dúvidas tipo quem é que eu tava pensado que era pra abbraçar o mundo todo? Fico angustiada, dolorida, em carne viva. Ao mesmo tempo sei que é tudo necessário, que são sonhos, projetos, vivências que eu desejei com ardor.
Quero mesmo casar com você. Quero mesmo viver com você. Quero ter uma casa pra partilhar contigo. Quero ficar velhinha ao teu lado. Quero cama, mesa, banho. Quero lua de mel, papel passado, festa. Quero sala grande pra acolher amigos, quero cozinha pronta pra muitos peixes. Quero aprender a fazer salada e quero servir teu café na cama. Quero meu filho brincando contigo no quintal, quero ver vocês dois indo à feira. Quero muita gente nos visitando, quero andar de mãos dadas contigo. Quero ver tuas meninas virando mulheres e trazendo teus netos pra ficar lá em casa. Quero ter um lugar pra acolher todo mundo. Quero ser "sua senhora".
E todos estes quereres são afetos, mas também materialidades. Custam. Custam tempo, dinheiro, vontades. Custam abrir mão de algumas outras coisas. Custam horas do meu sono e custam pedaços de unha que comecei a roer. Custam dores de cabeça que nunca tive e agora descobri como é que é. Custam admitir que tenho medo. Que quero colo. Quero tua mão na minha. Quero abraço de todo lado. Quero garantias que não existem mas que eu simbolizo em pequenos gestos. Eu tenho medo. Mas quero ter coragem. Quero lembrar que o herói é apenas aquele que não teve tempo de correr. Eu não tive tempo. Mas teremos tempo pra frente, eu espero. Pra pagar todas as contas e, um dia, rir dessas angústias. Tempo pra curtir todas as conquistas, as lembranças, os desejos. Eu quero tempo com você. Com meu filho. Com suas filhas. Com nossas famílias. Com quem amamos. Com quem nos ama. Quero tempo. Nunca mais partir antes da hora.

Um comentário:

Dani disse...

Minha amiga é de carne e osso, minha amiga precisa de colo... estou aqui!
Bjs!

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