quarta-feira, 1 de julho de 2009

Pintando o Sete com os olhos de Bette...


É isso aí, juntos, cinema e pecado. Isto porque se você não viu a ira de Bette Davis, você não viu nada. Entendendo que ira significa 1 Cólera, raiva contra alguém. 2 Indignação. 3 Desejo de vingança, não é surpreendente que entre suas 11 indicações ao Oscar, tenha recebido suas estatuetas por Perigosa (1935) e Jezebel (1938). Aliás, Bette Davis foi indicada ao Oscar cinco anos consecutivos, feito nunca superado. Ira é, com certeza, o pecado mais próximo de Davis. Ira que ela provocou ao não se indicada ao Oscar em 1934, por Escravos do Desejo. Essa omissão deixou tão enfurecidos os amantes do cinema que, pela única vez na história, a Academia autorizou que os votantes escrevessem o nome da atriz que eles preferiam, mesmo que não tivesse sido indicada. Ira arrebatadora de seus personagens, especialmente Margot de All about Eve assistido por mim como A Malvada. Inesquecível quando Bette, querendo briga, anuncia: "apertem seus cintos, esta será uma noite turbulenta". Iras reais, confrontações com o estúdio, com diretores e com os atores com quem contracenava, Bette não era uma mulher fácil. Era uma mulher apaixonada, apaixonada pelo que fazia, pelos homens com quem se casou e por seus princípios de liberdade. Não por acaso foi uma das mais atuantes artistas na época da 2a Guerra Mundial, doando cachês, fazendo filmes anti-nazismo, fundando clubes e várias outras atividades que lhe renderam inclusive uma medalha do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

A ira é um pecado cinematográfico mesmo. Ela promove destruição, gritos, depredação, ânsia de aniquilar o que a promove. Não pode ser confundida com uma raivazinha besta. A ira é erupção que pode se transformar em gelo que planeja vinganças e busca de reparações. Mas, de início, a ira é sempre grandiosa e barulhenta. A ira transtorna, arrebata, exila a racionalidade. Ela exige, como canta Lupicínio: "Mas enquanto houver força em meu peito eu não quero mais nada/ Só vingança! Vingança! Vingança! aos santos clamar/ Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada / sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar."


Não sou muito de pecar assim. Tenho raivas, e muitas. Minha especialidade é ficar de lundú (ou era, que tô até melhorzinha). Minhas irritações são transitórias, esbravejo um pouco, reclamo um pouco, choro um pouco, e já era. Mas minhas raivas, por falta de vocação, não chegam à ira e nem se transmudam em vingança. Vão-se e ficam como memória de alguém que não sou. Mas Bette é, e eu me realizo nela. Arrebatada, confusa, enfática, mas livre, confiante, indomável. Tão à frente do seu tempo (e do nosso)! "(...) sua personalidade sempre foi sinônimo de uma mulher forte, sabedora de seu valor, que apostava no seu taco e que não admitia ser tratada como objeto pelos chefes de estúdio. Em outras palavras, valores que as mulheres nascidas três gerações mais tarde, ainda lutam para conquistar. Vista suas atitudes com o olhar atual, em que se preza a igualdade entre os sexos, Bette Davis conseguiu algo praticamente impensável: ser o símbolo do mais puro feminismo numa época em que essa expressão deveria parecer grego até mesmo para os gregos" (www.cineplayers.com).


Quem nunca viu Bette Davis deveria correr e alugar (ou comprar, quem tá podendo), além de A Malvada, A Floresta Petrificada (sobre uma atriz fracassada que tenta matar seu marido), Mulher Marcada (sobre o gangster Lucky Luciano), Jezebel - um E o vento levou mais curto, Vitória Amarga (uma herdeira à beira da morte), Meu reino por um amor (primeiro filme colorido dela, que interpreta a Rainha Elizabete), A carta (personagem adúltera e assassina), e claro, O que terá acontecido a Baby Jane? (brilhante, brilhante). Bette teve uma carreira constante, até morrer, entre teatro, cinema e Tv, emprestou seu brilho e genialidade a tudo que fez. Em seu túmulo tem escrito: She did it the hard way, mas, pra mim, ela faz a vida mais fácil.


Ah, ia esquecendo, na lista do American Film Institut, Bette Davis é a segunda melhor atriz e a frase de Margot figura como a nona melhor frase de filmes.

2 comentários:

Liana disse...

Não sabia que a mulher era tão poderosa. A música (she's got Bette Davis eyes) faz todo o sentido agora.

Aline disse...

Que saudade de vir aqui, e comecei logo pelo Pintando o Sete. Adorei saber sobre Bette Davis (não vi nenhum filme dela, mas já entrou pra fila que tá gigante por culpa tua). Ah, e adorei chegar mais pertinho de ti... já q presencialmente tá difícil!!

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