sexta-feira, 26 de junho de 2009

Sebastião

Ainda vou escrever sobre como os filmes, lentamente, deixaram de ser feitos por adultos para adultos, com temas e abordagem adulta e que grande perda foi para o cinema esta febre de filmes juvenis (não só no que se refere ao público a que se dirige, mas na abordagem superficial e em ritmo de clip da maior parte das questões). Escreverei sobre como a aura dos grandes atores se esvaneceu no consumo rápido de novas caras e como a beleza arrebatadora das divas se diluiu na mesmice dos corpos sem carne e dos rostos pasteurizados. Direi sobre como os grandes diretores diminuíram em amplitude e alcance suas obras para servir à fácil compreensão. Direi como a aparente simplicidade das comédias de Hepburn ou dos musicais de Astaire traziam contribuições estéticas significativas e como a passagem de créditos como nos filmes de Hich já inauguravam uma linguagem própria. Falarei, talvez, da frase primorosa de um dos maiores filmes sobre arte já feito (Crepúsculo dos deuses) onde Gloria Swanson diz brilhantemente "Eu sou grande! Os filmes é que ficaram pequenos." Sim, eu acredito que os filmes se tornaram menores e menos interessantes (embora, vez em quando algo me arrebate e surpreenda, mas como é raro em relação ao brilhantismo das décadas de 30, 40 e 50). Você vai reclamar que eu me estendo e me repito, mas ainda assim ouvirá com atenção.
Contraditoriamente, os filmes infantis continuam, para mim, sendo fonte de deleite, apreciação e reflexão. As animações, especialmente as animações Disney, eu as vejo com prazer pela sua agudeza no tratamento de grandes temáticas humanas: amor, morte, solidão, sonhos. Grandes amores, temas universais, personagens encantadores. Algum filme trata sobre desamparo como Bambi?



E a riqueza de sons e cores de fantasia? Todos os meus sentidos se dirigem para esta poesia em movimento.


Novos e velhos (Shreck, Pinóquio, Cinderela, Aladdin, O rei Leão, etc.) os filmes infantis me incitam a redefinir o que é beleza, bondade, poder, entrega, honestidade, amor. E fazem isso de uma maneira arrebatadora, sem subterfúrgios, deixando-me com uma ternura tão grande pelo viver que traz lágrimas nos olhos só de pensar.
Um dos mais belos filmes que já vi, em concepção e realização, é a Bela e a Fera. O filme é uma festa pros olhos e sua mensagem óbvia se torna verdadeira pela transparência com que é enunciada. A sedução explícita entre os personagens centrais alicerçada na cumplicidade dos personagens cotidianos e periféricos que compõem a casa é, para mim, uma revelação e uma inspiração. Admito que queria valsar, como eles, nos seus braços, amor...


Mas eu queria falar mesmo era do Sebastião. Os filmes Disney são, entre outras coisas, ricos em personagens secundários (se fossem atores ganhariam vários Oscars de coadjuvante, não tenho dúvidas). Mas não tem nenhum como meu amigo Sebastião. A voz, os trejeitos, as aspirações simples fazem este sirizinho ser irresistível. Já fiquei triste e perdida, melancólica, acabrunhada e, muitas vezes, lembrar o bichinho e sua forma pragmática de buscar conforto e boa vida me reestabeleceram o riso. Até escrevi um conto sobre um casal em crise e o Sebastião tem uma ponta. Penso que uma das coisas legais do personagem é o minúsculo tamanho em oposição à voz poderosa. Ou sua rapidez de pensamento. Ou, ainda, seu coração mole,mole, sob a casaca dura.Uma das cenas mais românticas de que me recordo é orquestrada (mesmo!) por este cupido engraçado. Como ela, sereia, quer ser beijada e como o homem é tão mais lento em reconhecer o amor da sua vida! Recordo nosso relacionamento e quanto tempo eu passei te avisando que você me amava muito antes de você sequer suspeitar disso, quando você ainda pensava que poderia ser algo passageiro. Eu já sabia da intensidade do nosso vínculo e fiquei esperando que você me acompanhasse. Claro que eu tinha a incrível vantagem de poder contar com a minha voz (aliás, como fiz uso dela, afirmando meu querer bem e o teu sentimento que eu já conhecia). Enfim, aí vai a antológica cena, versão português e inglês:



Que tal comentar o que mais curtiu nos filmes ditos infantis (ou o que não gostou, caso este fenômeno estranhíssimo tenha porventura ocorrido...)

2 comentários:

Ana disse...

Eu tambem adoro os personagens secundarios. Meu favorito eh o Mushu (do filme Mulan) e aquela peixinha esquecida do Nemo.

Contra a Maré disse...

Sebastião! Bem lembrado! Vai para minha coleção de personagens secundários sim... rsrsrs tem um que adoraria colocar na minha coleção mas não consigo encontrar imagem dele... é um bichinho do filme Selvagem... que fica provocando o leão a comê-lo... eu choro de rir...

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...