terça-feira, 9 de junho de 2009

Ainda o tempo e o amor...

" Esperei por este homem antes que ele tivesse um nome e um rosto; quando ele ainda era apenas uma desgraça remota. Procurei na multidão dos vivos esse ser necessário ao meu prazer futuro. Olhei os homens como observamos os passantes diante de um guichê de estação, a fim de nos certificarmos de que eles não são aqueles por quem esperamos. Foi para ele que minha ama me enfaixou ao sair do ventre de minha mãe. Foi para controlar as despesas de sua casa de homem rico que aprendi a calcular sobre o quadro-negro da escola. Foi talvez para ornamentar os caminhos pelos quais este desconhecido passaria um dia que teci tapetes e estandartes de ouro e, à força de aplicar-me tanto, deixei pingar aqui e ali, sobre o tecido macio, algumas gotas do meu sangue. Meus pais o escolheram pra mim e, mesmo arrebatada por ele sem aprovação da minha família, ainda assim teria obedecido ao voto de meus pais, visto que os nossos gostos provêm deles e o homemque nós amamos é sempre aquele com o qual nossas avós sonharam".

Sabe aqueles momentos que não só dividem sua vida mas parecem lhe dividir ao meio? Tenho duas Marguerites que me fizeram isso. Depois falarei de Duras. Mas, agora, porque falar sobre o tempo a convocou e porque minha amiga Aline pediu-me um livro, falarei dos Fogos de Yourcenar. O trecho acima é de Clitemnestra e o Crime. Sempre que leio Fogos sinto um grande pesar por não o ter escrito. É doloroso, como alguém que põe o dedo na ferida e, não satisfeito, joga álcool. Ajuda a esterelizar mas arde pra caramba. Quando eu e Fogos nos encontramos enchi o saco das pessoas próximas ligando de vez em quando para ler trechos que me impressionavam. Resultado: li o livro quase inteiro em voz alta. E é assim que ele deve ser lido mesmo. Gritando. Porque a morte é muito pouco mas viver é arriscado. Amar, mais ainda. E tão doce!
Fogos é um livro passional. E é um livro erudito. Divide-se em textos provocantemente intitulados como: Fedra ou o desespero e Antígona ou a escolha. É um livro pra se ter. E temer.
Yourcenar também é assim: temerária e temível. Tem idéias que me fazem tremer. Ditos que eu não posso esquecer. Como:

Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana.

A felicidade é provavelmente uma infelicidade que se suporta melhor.

Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino.

A bordo do avião, junto de ti, não receio o perigo. Só se morre quando se está só.


3 comentários:

Contra a Maré disse...

Puts... sem palavras...

Liana disse...

é, duas margeuritas também me deixam doidona!

Aline disse...

Brigada!

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