segunda-feira, 25 de maio de 2009

Recordar é viver?

A saudade, mais do que dói, assusta. O amor, assim como a piedade, corrompe. Ele não obedece ordens, nem se submete, a não ser por assim o desejar. Estou perdida no hiato entre teu corpo e o meu, na distância entre o que pulsa e o que é, no indecifrável da palavra que não se pode dizer. Estou menina. Vulnerável. Estou exposta e solitária, no porto, açoitada pelo vento e encharcada de mar e de anseios. A noite, enegrecida de dores e desejos inconfessos, confunde-se com meus olhos de onde se ausentaram lua e estrelas. Estou imensamente vazia. Plena de espaços. Desejo permanecer te esperando. Mas sigo, porque, para te encontrar, é preciso sair de onde me procuras. Então, preciso de força. Fortalecida sucumbirei mais rapidamente. Levanto-me. Parto, embora seja o navio que se distancia. Minha raiz é meu percurso. Esculpida numa rocha à beira mar, viajo em interiores. Alimento-me de memórias. Reinventar meus sentimentos é a única forma de preservar a verdade. É como ficção que posso te amar.

Não sei, com precisão, quando escrevi isso, mas sei que se localizam entre as primeiras palavras escritas que destinei a você. Leio e tremo, medo repentino de esquecer o que tão intuitivamente aprendi sobre você, sobre lhe amar, sobre o nosso amor. As relações têm seus alicerces muitas vezes desconhecidos ou não nomeados. Eu não arrisco, sei exatamente em quê se baseia nosso vínculo: você sabe que meu amor por você supera qualquer outro e eu sei que sempre vou poder contar com você. Não é receita, este é o alicerce do nosso amor, nosso jeito estúpido de amar. Cada casal forja vículos a partir de suas faltas e fantasias. É como ficção que posso te amar. Invento histórias e faço dramas, reais no sentimento mas esteticamente comprometidos com minha experiência. Já disse antes: livros demais, filmes demais. O certo é que devo estar em movimento, não estar onde me procuras mas te encontrar antes que desistas. Devo te achar, me procurando a te procurar. Tremo outra vez, continuo vulnerável. Exposta. Entregue. No meu corpo medo e desejo. Amor.

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