sexta-feira, 29 de maio de 2009

Ainda sobre perdas e danos...

Em um texto de tempos atrás eu disse que escrever é uma morte. Escolher palavras, organizá-las de um jeito único, isso impossibilita todas as outras palavras, todos as frases, todos os textos que poderiam ter sido. Escrever é abrir mão das possibilidades, das promessas de um texto correto, da esperança da proposição perfeita. Escrever é aceitar o tempo, a finitude, é reconhecer a simbiose indecente entre vida/morte. Escrever é uma coragem, um ardor, uma imposição. Como te amar, às vezes. 
Quase sempre tenho convicção que amar é um ato de vontade, uma certeza cega, uma escolha. Não no primeiro momento onde hormônios, objeto a e identificações fazem barulho por todo o corpo. Mas depois, no sossego da cama partilhada, amar é uma opção. Escolhe-se não ir pra rua, não ver outros corpos, não buscar identidade de idéias e sonhos. Escolhe-se não se incomodar com os esquecimentos cotidianos, com as pequenas indelicadezas, com as imprecisões. Escolhe-se ficar. Escolhe-se, ainda mais, não ir. Não ir ao encontro do desejo de outra coisa que, esta sim, completaria. Escolhe-se, como disse Kundera, não o amor perfeito, mas a compaixão (sentir com o outro). A compaixão faz com que a dor do outro nos seja insuportável, assim escolhemos sempre ficar (o prazer do outro, que partilhamos, também é um motivo bem convincente). 
Mas, em alguns momentos, amar-te é rua de mão única. Não escolho ficar porque não há pra onde ir. Em todos os futuros possíveis, já estás antes de eu chegar, mesmo em pensamentos. Como as mulheres de Atenas, não tenho sonhos, só presságios. Algumas vezes, te amar é como escrever. Uma coragem, um ardor, uma imposição. 

2 comentários:

Aline disse...

Suspiros... suspiros...

Contra a Maré disse...

Tá ficando indecente isso aqui rsrsrs

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...