segunda-feira, 29 de abril de 2019

Fachada

Pia limpa. Cabelo lavado. Planejamento das aulas da semana em dia. Uma torta de queijo e cebola, que pode me alimentar pelo resto da semana, pronta, na geladeira. Roupas penduradas direitinho no cabide. Contas do mês, pagas. A fachada da vida pode ser um engodo.

Nem lembro mais onde li a idéia de que o pôr-do-sol é injustamente mais famoso que seu nascer. Os dois seriam igualmente belos, mas o pôr-do-sol levaria vantagem pela capacidade de alcançar maior público. Quando o sol nasce grande parte das pessoas ainda dorme, mas quando ele se põe há tempo para a gente se unir à beira-mar ou em lugar de impacto semelhante e apreciar o processo. Tinha uma metáfora nascendo aqui mas eu não adubei.

A forme é o conteúdo e o conteúdo é a forma.

O futuro é sempre um agora pro que já passou.

Este negócio de tempo é engraçado, quase todo mundo tem bons conselhos que dariam a si mesmos quando mais jovens para viver melhor aquele tempo. Eu chamaria a menina-moça que fui e pediria para falar de tudo e nada e apenas me distrairia com as histórias. Foi, fui, sou.

É engraçado (na falta de uma palavra melhor) que o Tony Stark se torne uma pessoa melhor à medida que ele se desumaniza com seu traje cada vez mais tecnológico, o troço brilhante no “lugar do coração” e as implicações de ser um super-herói.

Não vou explicar direito, mas é mais ou menos assim: eu tento parecer pros outros o que eu quero que eles achem que eu sou. Não há, nisso, apesar do senso comum e das análises precipitadas, nenhuma falsidade. Como não acredito que haja essência, como não acredito que haja uma "luciana" permanente dentro de mim, eu vou sendo quem eu vou sendo, o que vou fazendo, como me mostro e ajo no mundo. Assim, cada dia posso ser um pouco mais próxima de quem sou-serei.






quinta-feira, 25 de abril de 2019

Pela rua virando lata


Nunca amei ninguém por causa da aparência, porque iria usar este critério condicionalmente logo comigo mesma?

As coisas mais permanentes da minha vida realizei de forma despreocupada, despretensiosa e completamente alheia a qualquer previsão de futuro: ter um filho e fazer o concurso para servidora pública.

Coisas interessantes no meu corpo: pulso, tornozelo, nuca, dedos da mão tortinhos e meus olhos, acho notável como eles contrastam com tudo mais sendo tão constantemente tristes.

Roupa de cama cheirosinha: sim, por favor.

Eu sempre fui de chorar fácil com filme, música, quadros, essas coisas. Mas o dia a dia tem me deixado em carne viva.

Uma coisa que sinto falta do outono é o striptease das árvores.

Eu gostaria de ter coisas antigas, um baú que foi da bisavó, uma cômoda que veio de geração em geração ou mesmo um vestido de festa, um blazer ou casaco da década passada que permanece valente no guarda-roupa. Meus tesouros da antiga mente: a louça da minha avó e um relógio que foi da mamys, mas perdi na festa de conclusão da oitava série. Minha cidade é daquelas que substitui bom ou melhor por "novo": posto sob nova direção, por exemplo, como se ser nova bastasse como garantia. Mas não é só isso. As coisas que duram costumam ser mais dispendiosas. Meus móveis nunca chegarão aos meus netos, eu os compro nas Casas Bahia ou, no máximo, na Etna. Minhas roupas não duram décadas no guarda-roupa não porque sou perdulária ou me preocupo com o modelito da moda, mas porque o que compro dura duas ou três dezenas de lavagens e já começa a descosturar, perder a cor, esgarçar. 

Durante a viagem eu quase me tornei religiosa e até fiz uma prece: papais do céu, que haja justiça social e o fim da desigualdade, mas caso não seja pra logo, me faça rykah.

Eu sou boa de trabalho, já rodei o Ceará fazendo três reuniões no dia; já dei aula horário fechado manhã e noite, escrevendo a dissertação; já trabalhei em dois ou três lugares ao mesmo tempo pra completar orçamento. Eu escrevo ou escrevia com certa facilidade. Tenho idéias. Tenho a mente organizada. Mas este trabalho me exaure. Eu gasto o dobro, o triplo de energia que outras pessoas gastariam pra fazer uma coisa simples como despachar um processo ou enviar um informativo. Eu sou péssima como coordenadora, não sei as resoluções decoradas, sempre prefiro decidir pelo bom senso e não pelas normas, tenho receio de tomar más decisões que afetem a vida de outros professores, acordo no meio da noite apavorada com medo de ter feito algo que prejudique algum aluno. Sempre acho que estou esquecendo alguma coisa - e é verdade.

O dinheiro acabou bem antes do mês. E é porque eu faço parte daquela ponta de cima da pirâmide. O Brasil é um país de sobreviventes.

Eu gosto da musiquinha dos Saltimbancos em que se canta: nós gatos já nascemos pobres, porém, já nascemos livres. Era bom se assim fosse. A liberdade não é um dado. É um horizonte. 

Chegar em casa e tirar tudo, tudinho, tomar banho e ficar andando pelada é das coisas mais eu que tem.

No natal eu ganhei uma nhoqueira da minha irmã. Ainda não usei. Vida, estou fazendo isto bem errado.

Luciana, se pudesse escolher, onde você viveria? Viveria de férias.




quarta-feira, 24 de abril de 2019

Lembra?


Eu leio todo, todo dia. Entretanto faz um tempão que li algum livro novo.

Às vezes tenho a sensação de que não sou capaz de aprender.

Mas ainda me anima ensinar. Ou mais exatamente: estar em sala de aula e facilitar uns percursos.

Status: empurrando com a barriga.

Um sono que não se acaba nunca (ou quase nunca, basta colocar o pé na estrada).

Sinto muita falta do tempo em que o Biscate era (quase) possível.

A solidão é fera, a solidão devora e não cozinha pra você.

Daí você liga a tv aleatoriamente e encontra John Wayne e Dean Martin e quase esquece de doer.

Não sei bem se o que você me oferece é memória ou promessa.

Já faz um bocado de tempo e já acordei ao lado de tanta gente mas ainda lembro do morno do teu peito feito travesseiro (e isso nem é pequeno já que eu não lembro de tanta coisa).

Aliás, há pouca coisa tão solitária como a paisagem da memória. Vastos espaços que percorremos sozinhos. Mesmo que a paisagem seja a mesma não há dois que a possam revisitar da mesma forma, ao mesmo tempo. Quanto tentamos compartilhar alguma lembrança sempre soa como aquele momento desconfortável em que alguém apresenta slides de fotos de viagem a uma platéia absorta no seu próprio e diverso sentir.

"Você lembra, lembra, naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos, um jeito de herói...". Desculpa, do que você está falando mesmo? Não lembro não.

Sem me dar conta, perdi a conta dos dias que espero por dias melhores.






terça-feira, 23 de abril de 2019

Manda Nudes



Porque a verdade é que se a pessoa não se interessar/apaixonar/envolver por mim pelada, vestida é que ela não vai mesmo.

Eu conheço uma pessoa que tem uma amiga cuja irmã pagou uma viagem pra uma parente querida e foi tão maravilhosa que ainda não consegui escrever um post descrevendo.

Spoiler: eu mergulhei num vulcão.

O bom de ler a Fal é que parece que diminui o aperto no peito e eu consigo respirar sem ter que escrever já que a vida não tá deixando mesmo.

Por “a vida” entenda-se um tipo de trabalho que não sei e não gosto (não gosto porque não sei? Não sei porque não gosto?), pouco dinheiro (a viagem foi glamorosa mas o dia a dia, não) e um tanto de obrigações disfarçadas entre um monte de episódios bobos de séries mais bobas ainda.

Eu tenho essa tristeza de ter vivido os anos 90 (que nem foram esta garapa toda) e ver o moralismo vicejando hoje: ain, mas a Arya tão novinha pegar o moço sem nenhum sentimento, a cena foi seca, isso e aquilo, sei que lá.

Uma coisa que eu acho incompatível com a dignidade humana: bater ponto.

Se eu tivesse dinheiro viveria em nenhum lugar, seria turista na terra. A coisa mais tosca a meu respeito é que chamo de casa qualquer quarto de hotel.

Tá difícil ser eu sem reclamar de tudo - e eu nem tenho a voz da Gal pra dizer isso de um jeito encantador.

Sim, voltar das férias não é moleza, ainda mais quando o olho de um furacão que você não sabe lidar lhe espera, voraz.

Estou querendo trocar de casa, queria um visual novo pro blog, mas tenho medo de sair e as duas pessoas que me lêem não irem comigo. Por mais que eu escreva porque não consigo evitar, saber que alguém lê de vez em quando dá um morninho na alma.

A vida que nós teríamos tido.

Eu pensei que ao ir envelhecendo ia querer cada vez mais o que já tive, mas não tem sido assim, tenho desejado, cada vez mais, coisas que não só nunca tive, mas que não sei se tive ou não, coisas que não sei o que seriam... pode parecer poético ou mesmo trágico, mas é apenas uma forma muito difícil de decidir o que vai ser o jantar.

sábado, 23 de março de 2019

Só Dói Quando Eu Respiro


Não sou editável.

Vixe, uma viagem.

Pergunta, pô, que eu respondo.

Se é pra doer, saudade.

O corpo mandando mensagens e você desabilitando a notificação pra fazer de conta que não tá informada.

A gente pode ter LER só num dedo? (tentando digitar mais com o dedo do cotoco pra poder amenizar a carga do fura-bolo)

Seria bom se fosse tudo miudeza assim.

Tenho demandas modestas sobre este lance de morrer. E viver. Só queria que não doesse muito, que não demorasse demais mas também não fosse ligeiro a ponto de perder abraços.

"você precisa de alguém que te dê segurança, senão você dança". Ouvir verdades do Engenheiros do Hawai, a que ponto cheguei.

Na base: todo amor acaba, todas as pessoas morrem. Final feliz é quando a gente morre antes do amor.

"Todo mundo" fica morto de feliz com uma medalhinha em Olimpíada e desmaiaria de emoção com um Oscar, mas imposto é roubo, todo artista é vagabundo e se que ser atleta tente via meritocracia.

Vacina nos dois braços. Dia seguinte: ai. 







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