segunda-feira, 29 de junho de 2015

Dos Impossíveis

Eu não sou boa em traduções. O mais perto que chego é cantarolar traduzir-se, escutando Fagner em looping e me assustando com isso. O motivo mais evidente é que sou monoilíngue: só falo cearensês. O motivo menos óbvio, mas talvez mais importante, é que cedo aprendi a usar as palavras como disfarce. Tal como a beleza, o véu que esconde o horror da falta. Mesmo quando parecem desnudar, é desvio. Véu de Maia*, a escrita é sempre ficcional pra mim, especialmente aqui no blog. Como consequência, também não sou muito boa em explicações (o que, vocês podem imaginar, não é muito legal para uma professora). Nesse cenário o exercício 5 proposto pela AnaRusche me pareceu irrealizável – e, em certa medida, é mesmo, pois não será feito como deveria, mas como consigo.

Eu costumo escolher as brechas e falhas que dou a ver. Não fiquei nada contente de mexer nessa incapacidade. Talvez, argumentem, seja esse mesmo o propósito do exercitar: sair da zona de conforto. E eu entendo. Mas é que deu trabalho me construir ao mesmo tempo em que remodelava, ampliava, fazia os acertos na zona. Escrever sempre foi uma espécie de imposição, foi na queda de braço que fui decidindo o quê e o como.

Estava, pois, relendo posts antigos do Borboletas – que é uma das minhas técnicas aprimoradas de procrastinação – quando descobri que podia roubar um pouquinho e considerar parte da atividade feita. Senta que lá vem estória. Tem um filme. Chama-se, no Brasil, Perdas e Danos, é com a Binoche e, quando a gente consegue desgrudar o olho dela, ainda encontra o Jeremy Irons. Há, no filme, um momento em que a personagem de Binoche diz: “Damaged people are dangerous, they know they can survive ...”. Damaged people. Na legenda do filme: “pessoas lesadas são perigosas, elas sabem que podem sobreviver”. Mas lesado em cearensês é outra coisa, essa versão não é tão boa. Vagando na net, já encontrei: pessoas feridas. Mais literalmente, me diz a amiga tradutora, seria pessoas danificadas. Nenhuma dessas é a minha escolha, nenhuma dessas diz o que eu escuto. Então, digo assim: pessoas machucadas. 

Pessoas machucadas são perigosas, elas sabem que podem sobreviver. Traduzir por pessoas machucadas não foi uma coisa que fiz de imediato. Vi o filme em 1992 e em 1992 pessoas lesadas me pareceu suficiente. Em 1992 as pessoas lesadas eram outras, em 1992 eu ainda não tinha sobrevivido, mas já anotei a frase na agenda mental que me acompanha e me prepara pra minha própria vida. Eu ainda não tinha sido suficientemente machucada, acho. Ainda não tinha feito planos. Ainda não tinha dirigido de madrugada, sem rumo, procurando um carro estacionado diante de um bar. Ainda não tinha espetado o garfo nas pernas, por baixo da mesa, enquanto sorria, tentando fazer as vezes de Marquesa. Ainda não tinha mentido pra mim mesma que não importava. Ainda não tinha mentido pra outras pessoas que sabia sem saber. Ainda não tinha ficado sem ar, sem chão, sem futuro. Ainda não tinha arrumado caixas, chorando. Ainda não tinha desfeito, plano a plano, como quem desfolha margaridas brincando de mal-me-quer. Pessoas machucadas são perigosas, sabemos que podemos sobreviver.

E sabemos que podemos fazer, mesmo da nossa maneira torta e insuficiente, os exercícios que nos desafiam. Então, traduções. De uma linguagem pra outra, que tal? Traduzindo o filme Perdas e Danos em canção:



Traduzindo o filme, Perdas e Danos, em prosa de Oscar Wilde:

A gente destrói aquilo que mais ama, em campo aberto, ou numa emboscada; alguns com a leveza do carinho, outros com a dureza da palavra; os covardes destroem com um beijo, os valentes destroem com a espada. Mas a gente sempre destrói aquilo que mais ama.”

Ou, como escrevi uma vez: é como ficção que posso te amar. E, hoje, acrescento: me dizer. Ou, mesmo, viver. 


**********

Fui procurar uma imagem para ilustrar o post e percebi que podia ter dito tudo em um parágrafo: Quando tento explicar, traduzir, fazer entender, é aí que o abismo acena, feliz. Me perco. Mais, perco o que ia dizer. Mais ainda, me perco no que ia dizer.Traduzir, pra mim, é como essa imagem do filme: a foto não é o momento vivido.





terça-feira, 23 de junho de 2015

Dia de Tese

O meu amigo Paulo Candidodisse – e nem faz pouco tempo – que as teses são como salsichas, melhor não saber do que são feitas (ou algo bem parecido, todo mundo sabe que minha memória é uma peneira). E, claro, eu ri. E isso quase sempre é verdade. Mas não hoje. Não sobre essa de hoje. Sim, hoje é dia de tese. Eu deveria dizer dia de defesa de tese, mas acho que está mais para apresentação. Dia da tese da Liana Nobre. Sobre essa tese sei algumas coisas. Do que ela foi feita, sei um tanto. Essa tese foi feita de inteligência, leitura, coragem, solidão, disposição. Foi feita de suor, cansaço, noites em claro, artigos publicados, artigos partilhados. Uma tese feita de generosidade para ensinar aos amigos. Uma tese feita de viagens para aprender e trocar. Uma tese feita de silencioso doer. Uma tese feita de alegria indiscreta. Uma tese feita de ideias salientes e letras resistentes. Uma tese com números – e não só o das páginas (#PiadaInterna #GenteDeHumanas)  Uma tese feita ao mesmo tempo que se cria um filho, se vive um amor, planeja e dá aulas e ainda se oferece, generosa, à vida. Uma tese feita de novas amizades, de isolamento, de perseverança, de ligações de Skype, de raciocínio flexível. Uma tese feita de questões. De solitário elaborar. Uma tese feita de conhecimentos. Uma tese feita de saudades. Uma tese feita do melhor que há: uma tese feita de lianas. Hoje é dia de tese. Hoje é dia da sua tese, Liana, e eu não estou aí. Mas, daqui, fico meio rindo meio chorando, celebrando, admirando, torcendo, vibrando. Você fez e faz coisas incríveis, porque são coisas feitas de liana. A tese é sua, a festa é nossa, dos que te amamos, dos que sabemos do que essa tese foi feita. Te amo. Parabéns!


(hoje foi ontem)

domingo, 21 de junho de 2015

Água

Esses dias esbarrei nesse post que, a primeira vista, parece mais uma dessas descartáveis e divertidas listinhas que circulam na net. Mas, para minha surpresa e alegria, o texto “10 palavras que definem Portugal e os portugueses” transcende o óbvio e apresenta uma inteligente escolha de palavras.

Portugal: resistência, universal, tempo, individualidade, descobertas, mar, azul, ouro, pedra, saudade. As que mais são minhas, tal como estão: pedra, tempo, azul.

Azul em céu, água e azulejos. E, como canta a canção: em amor. O amor é azulzinho. Esse azulejado de casas, igrejas, prédios, contam e escondem histórias e passados. Tempo que se faz beleza. E mais tempo, tempo de bebericar café em esplanadas, tempo de prosear nas praças, tempo que se usa em afetos e comida. Comida se faz com azeite, sal e tempo, aprendi aqui. Tempo que se entranha nas pedras, nas construções, nas escavações, em tentativas de permanência que ainda nos acompanham.

Trocaria individualidade por peculiaridade. E trocaria mar por água. Porque, para além mar que convidou-os às descobertas, em Portugal há rios. Rios que encantam, embelezam, fertilizam, possibilitam. Represas. Fontes. Água. Água talvez seja a palavra que organiza as demais em Portugal. Portugal é um convite ao mergulho. É um país de profundezas. Seja nas ruas miúdas e escondidas de Lisboa, seja nos vastos espaços do norte, o que ele nos pede é fôlego. Portugal sacia. Portugal nos aponta navegações, ir e vir, movimento. E, para quem cá esteve, Portugal, como a água, torna-se vital. É doce, esse Portugal, o ingerimos e que bom que é. É sal, essa água-Portugal, lágrimas de saudade, de despedida, de reencontro. Ou aquelas de deslumbramento.


domingo, 14 de junho de 2015

Ubajara

Eu não sou de naturezas. Acho legal, entendo a vibe dequem curte, mas aqui entre nós, acho as praias todas muito parecidas. E as montanhas. E as plantinhas. Enfim, sou um monstro. Eu gosto mesmo é de coisa feito por gente, de preferência gente que faz tempo já é só nome ou nem. Se tiver meio deprequetado, com carinha de decadente, é nós. Choro feito um bebê com fome vendo o Davizão ou vendo Casablanca.

Eu não sou de aventuras, trilhas, descer pendurada em cordinha, nada dessas coisas. Andar subindo rocha pra lá de cima ver uma paisagem incrível? eu fico com a foto. Gosto mesmo é de ventilador, televisão a cabo, internet rápida, farmácia 24hs com entrega, almofadas e livros. Mas. Sei lá, tem alguma coisa em alguns lugares que me faz entender o Caetano e seu coração no meio do cruzamento. Como o céu de Canoa Quebrada. Ou Ubajara.

Sobre Canoa já falei um tanto. É como acertar na mosca. O céu e o mar e a vida tudo parece estar justinho como devia ser. Canoa é o riso batendo no peito.

E Ubajara? Ubajara é um cantinho de nada perdido no coração do meu Ceará. Onde só se pensa em praia e caranguejo (#meaculpa) tem essa serra com teleférico, neblina e temperaturas entre 15 e 25 o ano todo (mais para 15 no primeiro semestre, mais para 25 no segundo). E uma gruta, o eu nos oferece a oportunidade de escrever estalactites e estalagmites depois de consultar o dicionário pra ver se não engolimos nenhuma sílaba. Para os que só gostam de coisas importadas, o teleférico foi construído por italianos. Pra quem gosta de água (eu, eu, eu) tem um monte de cachoeiras, com diferentes graus de acessibilidade e absurdamente lindas.

Comentando o comentário de um amigo olha o FB padronizando as comunicações), eu falei da minha mala de vontades (essa que a gente arruma muito antes das malas de objetos, talvez porque, mesmo mais pesada, é mais fácil de arrumar e não cobram excesso na TAP). Pois é, nela tem a vontade de voltar a me perder por essa serra aí. E tem um restaurante, desses que a gente encontra por acaso (veganos e pessoas mais sensíveis não leiam a partir de agora), que você pára, senta nuns bancos de madeira embaixo da árvore, escolhe a galinha que quer comer entre as que ciscam ali no cercadinho, fica beliscando o tira gosto e conversando miolo de pote enquanto a senhorinha simpática mata a dita cuja na hora e prepara os acompanhamentos conforme seu gosto... farofa de cuscuz? sim, sim. Boto coentro? eu quero, ela não. Vai um feijãozinho? sim, sim, por favor. Depois uma rede debaixo do pé de planta até a modorra passar e voltar pra casa.


Eu, que não sou de naturezas, me derreto pela Serra de Ubajara. Imagina você. 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Campo de Ourique

Eu estou vivendo em um lugar lindo. Há 965 dias eu vivo em Lisboa. Quase todos eles. Em uns estive pangolando. Em outros, menos, estive no Brasil que não é o meu, a trabalho. Mas na maior parte deles estive aqui, nesse estado privilegiado que é morar em Campo de Ourique.

Em Campo de Ourique se é vizinho de Pessoa. Do Fernando e de outras tantas gentes, muitos deles velhinhos, simpáticos, conversadores, gentis. Há praças. E nas praças há joguinho de damas. E crianças de bicicleta. Em Campo de Ourique também se e vizinho de um cemitério, mas ele se chama Prazeres. É de lá que sai um barulhento e alegre 28 pra percorrer a cidade quase toda, entulhadinho de turistas. Há pastelarias onde, todos os brasileiros cedo ou tarde descobrem, os pastéis são bolos. Mas que importa se elas, pastelarias, tem nomes como Tentadora, possuem lustres lindíssimos e de suas esplanadas a gente vê passar o tempo em trajes bem arrumados?



Viver em Campo de Ourique é acordar cedo e papear no Mercado escolhendo peixe e verduras. Ou acordar tarde e, nesse mesmo Mercado, encontrar almoço pronto em quiosques simpáticos e animados. É poder descer um bocadinho e ficar vadiando no Jardim da Estrela, com um livro na mão pra ver se aprende por osmose. É tomar cafés. Aprender a dizer talho sem sorrir. É se acostumar com ruas tão arborizadas que dá até preguiça sair do bairro. Mas se for mesmo sair há, além do onipresente 28, o 709 e o 774, que tão bem sabem escolher destinos.

Campo de Ourique é tradicional. Lusitano até o tutano. Mas, claro, tenho em duas esquinas restaurantes goeses. E prédios que, eu, com toda minha pinta de guia turístico me apresso em esclarecer: veja lá, esse é do tempo de antigamente. Leio daqui, leio dali e mais essa: Campo de Ourique é um bairro de tradições revolucionárias e republicanas.

Viver em Campo de Ourique tem sido fácil e bom. A não ser quando tem sido difícil e dolorido. Que há dias em que. Pois. Dias em que o ar me falta em saudades. Que o céu não tem o azul certo. Que quero colo de mãe, conversa de irmã, risada de amigo, abraço de filho. Dias em que a comida sobra na panela. Em que não tenho vontade de pôr o pé fora porque é o lugar errado, o bairro errado, a cidade errada. Dias em que as vozes tem um ritmo que me afasta. Em que a solidão amiga de sempre parece-me uma agressiva desconhecida. Dias em que ecoa no peito: “quanto do teu mar são lágrimas de Portugal?” A esses dias, só sobrevivo.

E bem haja a manhã seguinte com as pessoas em cafés, o barulhinho do eléctrico, os frutos do mercado, o sussurrar do vento nas folhas, as escorregadias calçadas, as bengalas, o tempo, mesmo e outro. Sentirei saudades desses dias em Campo de Ourique.
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