quarta-feira, 11 de abril de 2018

Fui criada para a esperança.


Sou de 1975. Eu me tornei jovem quando as coisas começaram a parecer possíveis. Fui criada para a esperança. Não para as certezas (a história dos meus pais não lhes permitiria) mas para a vontade. Eu conheci o mundo do trabalho via agentes comunitários de saúde e assentados. Eu aprendi. Eu troquei. Paciência histórica, recém saímos da ditadura, ainda éramos racistas e desiguais, mas havia brechas. Os Conselhos Escolares. As associações comunitárias. Os conselhos municipais, o projeto são josé... vãos. A se ocupar. De maneira equivocada, tantas vezes. Somos o nosso tempo, também. Cooperativas de gestão centralizadora. Faz parte, há de chegar propícia estação e fecundar o chão. Horizontes.

Mais que esperar a transformação, eu, nós, a perseguíamos. Julgávamos nela trabalhar. Um mundo mais justo. Um Brasil mais igual. Um sertão sem fome. Árido e belo. Não apesar de. Por causa, também.

De onde vinha esse anseio de mudar o cotidiano das gentes? De onde vinha a identificação com a falta, com quem trabalho, com quem não tem escolha se eu nunca precisei? Eu era filha de classe média que antes não era. Tornou-se. Profissional liberal e dona de casa. Lá do interior do mato, da caatinga, do roçado. Auxiliar de pedreiro, costureira, normalista, motorista, gerente de hotel, economista. Negro, índio, branca. Misturados. Colégio de freira. Grupo de crisma. Pastoral da juventude do meio popular. Pai nosso, dos pobres marginalizados, pai nosso, dos mártires, dos torturados. Sem deus, fé na vida, fé no homem, fé no que virá.

Pequenos passos. Passos maiores. A luta antimanicomial. Uma prefeitura no interior. Outra. A metáfora da sementinha, mesmo fora da bíblia, parecia boa. O SUS. Um presidente. Água encanada. Energia elétrica. Microcrédito. Azulejo nas casas que antes eram taipa. Prima segunda formada sem sair da sua cidade, no coração do Ceará. Uma universidade no semiárido. Irrelevâncias ante a enormidade do que o Brasil precisava? Sim. Mas era a minha gente vivendo. Vivendo mais. Vivendo melhor.

Talvez a mudança não viesse tão rápido como eu queria. Repressão policial, tanta. Minorias preteridas. Um desenvolvimentismo que fecha os olhos pro massacre indígena. A gente ri, a gente chora. Ainda tem luta. Porque se pra você tá bom? Ainda assim, o caminho claro. O certo. Porque é certo. Ali, olha, vai ter peleja, as forças de sempre querem ficar.

Não era pra ser fácil. E não vinha sendo. Sabia-se que não seria logo. E demorava ainda mais do que se pensava. Não seria sem luta. E tínhamos disposição para a rua, para o impasse, para o confronto.

Mas, dizia eu, fui criada para a esperança. Para o processo. Para a mudança. Para a contenda. Fui criada no eco das músicas do Chico, da poesia do Brecht, nas lembranças de Romeros. Oscar, não britto. Daí que. Um muro. Outro. Outro. O ódio.

Ódio ao pobre. Às poucas conquistas sociais. Ódio ao nordestino. Ao nordestino pobre. Ódio a quem fez quase nada pra que o nordestino pobre não morresse apenas por ser isso: nordestino e pobre. Ódio por dentro. De dentro. Tão empolgada com as idéias de Paulo Freire. Tão empolgada com a dialética, as contradições, que a gente esquece da internalização do ódio. Acaba o bolsa família. Joga pedra no bolsa família. É feita pra apanhar, boa de cuspir. Dá pra qualquer um, maldita bolsa família.

Eu ouvia a música do Chico e pensava em como superar o café pequeno e manteiga no pão e me vejo jogada na primeira parte da canção - que eu pensava superada. O que se quer pra gente é isso: encurralados, dominados, violados, rotos, quebrados, desmontados.

Pois eu estou. Acuso o golpe. A gente aprende a apanhar #Balboafeelings mas aquele cruzado no queixo pode ser a gota d'água. Aquele comentário alienado da pessoa próxima. A postura do amigo descolado e boa gente que celebra uma decisão que ele reconhece equivocada mas, foda-se. Golpe abaixo da cintura, por fim.
Então, vão me desculpar se hoje eu estou meio perdida. Vão me perdoar se levo tudo pro pessoal. Quem odeia assim minha gente, me odeia. Inclusive minha própria gente que me ama e se odeia, sinto seu ódio por você mesma como ódio por mim.

Estou lendo muitas análises inteligentes. Parabéns pra vocês. A culpa é da mania de conciliação. Estou até aceitando, porque não tenho energia, hoje, pra tentar ser mais do que eu sou. Era essa a beleza que eu via no mundo do possível. A gente ia se fazendo quem a gente queria ser a partir do que a gente podia ser.

Mas parece que não. Ou se é tudo, ou. E eu, eu não sou o bastante.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Magoar


Tem esta parte na gente (a gente sou sempre eu) que está constantemente dolorida. Como se a alma tivesse esbarrado em algo contundente e se a gente não mexe, quase não incomoda, mas se algo encosta mesmo sem querer, a respiração falha com a intensidade da dor.

Acho bonitinho como a gente dizia, na infância: magoar a ferida.

Daí a Juliana mencionou um livro da Tana French e eu mergulhei nele. Um daqueles policiais que o crime é um bom mote pra gente pensar sobre ser gente. No caso, adolescentes, amizades e amadurecimento. Acho que nessa época a alma leva umas pancadas que ficam sensíveis, naquele modelo acima, pro resto da vida.

Na minha caixinha acontecem coisas estranhas. E lindas. Como uma oferta de mar, amor, rede e cumplicidade. Estou contando os dias? Estou contando os dias.

Tem aquela parte no livro, que o moço fala que a amizade “congela” a gente. E aquela outra de todas as vidas potentes na fotografia, a que foi e todas que a mulher não viveu, mas poderia. E aquela cacetada que é redescobrir que o eterno é, justamente, porque já não existe. Só assim, nunca mais deixará de ser o que foi.

Senhor, dai-me dinheiro porque discernimento eu já abri mão.

Eu não gostava de tumblrs. Sei lá se já gosto. Mas gosto do meu. Um tanto pela série Ofélias. Como era mesmo... a beleza é o véu que encobre o horror da falta. E vício e verso. Ou algo parecido. 


"As pessoas possuem cicatrizes. Em todos os tipos de lugares inesperados. Como mapas secretos de suas historias pessoais. Diagramas de suas velhas feridas. A maioria de nossas feridas podem sarar, deixando nada além de uma cicatriz. Mas algumas não curam. Algumas feridas podemos carregar conosco a todos os lugares, e embora o corte já não esteja mais presente há muito, a dor ainda permanece...(...) Talvez velhas feridas nos ensinem algo. Elas nos lembram onde estivemos e o que superamos. Nos ensinam lições sobre o que evitar no futuro. É como gostamos de pensar. Mas não é o que acontece, é? Algumas coisas nós apenas temos que aprender de novo, e de novo, e de novo..."

Eu já disse por aqui... entre a ferida e a cicatriz, a pele fininha. E os cuidados que devemos ter. Reconhecer a fragilidade. E apreciar o desenho que a vida vivida imprime no outro e na gente. Eu já escrevi lá pelo biscate: se a ferida estiver demorando a fechar, inchada, com vermelhidão a muito tempo, dolorida ao toque, ou ainda se você estiver com dificuldade de deixar a casquinha fazer o trabalho dela, ficar cutucando, etc, procure um médico. Ou uma canção.

(eu me repito? sim, eu me permito)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Ismália ou Rapunzel

Acho que poucas palavras são tão precisas quanto gastura.

Sobre planejamento financeiro: você corta daqui, corta dali, se organiza e finalmente, ah, finalmente parece que vai ficar tudo ok e ainda tem uma pequena reserva para alguma coisa fora da planilha. Acontecem muitas coisas fora da planilha ao mesmo tempo. Fim.

A verdade é que eu sou bem covarde pra quase tudo.

Eu sempre dependi da delicadeza de estranhos”. Eu já gostava dessa frase antes dela se tornar avassaladoramente verdadeira na minha vida. Autoprofecia?

Um grande amigo me dizia: você deve ler K. de B. Kucinski e eu, com medo de não alcançar, de não gostar e me provar inferior ao que meu amigo esperava, adiava, relutava, evitava (faço isso, às vezes, se tenho receio de não estar à altura de algum livro, não leio, assim não fico sabendo o quanto sou insuficiente). Não sabia eu que não era uma questão de gostar ou entender, mas sentir. Li K. e li “você vai voltar pra mim” e não foi fácil, não porque houvesse distâncias entre as narrativas e eu, mas justamente porque por vezes me sentia sem fôlego, músculos doloridos, extremamente cansada de sentir a dor – ia dizer alheia, mas não, nada do que é humano etc – e o peso que cada linha e entrelinha desvelavam.

Eu mudo bastante minha imagem de capa, no FB. São sinais de fumaça. Ainda deve ter uma iludida menina de laço de fita, em um balanço, imaginando que alguém vai se importar a ponto de montar o quebra-cabeça. Eu rio dela. E continuo disponibilizando peças.

Eu nunca quis ser rica (ou nem ser rica, ter dinheiros). Agora quero. Não que minha vontade vá fazer diferença.

Eu sinto mais vontade de comer à noite.

Só penso em dormir, devo ficar preocupada?

Um pôr do sol com vento, um livro, bebida gelada, rede na varanda.

O que não cobra em dinheiro, cobra em moeda ainda mais rara.
Como a tira de carne sem sangue. 

Dânae, Ismália, Rapunzel, Bela Adormecida... e quando estamos presas na torre, o que vislumbramos? Um príncipe agarrado aos nossos cabelos, um deus que nos invade feito chuva de ouro, ou o caminho sou eu quem faço, lua no céu, no mar e o salto para o desconhecido? A única alternativa é não ter alternativas?

eu tenho esta curiosidade, de saber como o Cazuza sobrevivia sem um arranhão tenho tantos que uma foto de satélite faria meu corpo parecer um mapa exageradamente sinalizado.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Oscar 2018: Trama Fantasma



Trama Fantasma é aquele filme inteligente que, nos primeiros dez minutos, já apresenta o personagem, a dinâmica das suas relações e nos deixa (pelo menos me deixou) profundamente intrigados e vinculados com a história. Um crítico do New York Times escreveu: “eu só vi este filme uma vez (...), e tenho certeza de que tem suas falhas. Eu ficarei feliz em ver mais uma dúzia de vezes até encontrá-las”. Também me sinto assim, mal posso esperar pra revê-lo.

Primeiro de tudo: é um filme bonito. O elenco impecável, a fotografia hipnótica, os ambientes e figurinosluxuosos, os enquadramentos, a trilha, tudo belo. Cada mergulho é um flash. As cenas parecem coreografadas, há uma certa intencionalidade insinuada no movimento dos atores que prende o olhar. O melhor e mais aliciante do filme é que ele não tem clímax, reviravoltas, plotseiquelá, o que se tem é repetição e sua íntima relação com o gozo* e com a pulsão de morte.

As metáforas são de uma extrema delicadeza, mensagens secretas costuradas no forro do filme. Votos. O amor sob medida. O humano sob escrutínio. A recusa de se mostrar em contraponto ao ambiente de exposição constante. O amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer. E desequilibra. Ele é um menino faminto. Em miragem, mulheres tentam saciá-lo. Além de impossível, indesejável. É a falta que nos move. Melhor juntar a fome com a vontade de comer, não com a barriga cheia. Na incompreensão disto, um amor torto que se sustenta no regurgitar.

Eu não saberia dizer sobre o que é o filme. Li por aí que é uma espécie de história de amor – mas todas não são? Pelo menos uma tentativa de? Nada do que é humano me é estranho. Talvez seja uma história de solidão. Do impossível de ser só. E de não ser só. Uma história de perda do que nunca existiu. Desamparo. “Você está aqui? Você está sempre aqui? Sinto sua falta. Eu penso em você o tempo todo”.

PS. Saí do filme pensando em Lua de Fel. Também lembrei de Rebecca, mas aí não tem graça porque depois li que o diretor fez pensando no filme do Hitch mesmo (e daí já fiquei pensando: será que tinha lido isso antes?).


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Depois de ver quase tudo das categorias Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original, meu coração bate assim (é um ranking afetivo, não técnico): Me Chame pelo Seu Nome >> The Post = Dunkirk = Trama Fantasma > Eu, Tonya >>> A Forma da Água >> Três Anúncios para um Crime > Lady Bird = O Destino de Uma Nação > Corra!

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Estou escrevendo sobre filme e respirando, mas meu juízo tá mesmo é na intervenção federal no Rio de Janeiro. 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Vespeiros

Nem todo homem. Nem todo homem. Nem todo homem. Aliás, nem toda mulher. Nem toda criança, nem todo idoso, nem todo jovem. Para as mudanças estruturais, pesquisas, dados, análises, debates. Para o cotidiano, o particular, o próprio, o que faz único, humanos.

Na queda de braço entre saúde no futuro e prazer agora, prazer agora.

Eu devo ser o cara que vocês pegam na balada pois: autoestima da porra.

Arroz por baixo, feijão por cima. Mas, mais verdadeiramente, feijão por baixo, farinha por cima e depois mistura.

Pode fantasia. Fantasia é justamente não identidade. E conta, de forma inequívoca, o que precisamos saber. Não se muda fantasia por decreto. Nem mesmo as de carnaval.

Eu não estou aqui pra perdoar. Nem pra julgar, aliás.



Escreveu “macho” ou “fêmea” e suas derivações, já sei que não vamos convergir. Não importa o que se argumente antes ou depois, o uso da termo indica uma essencialização da humanidade.

Aliás, sobre saúde, eu tenho birra do debate sobre alimentação saudável porque é pautado pelo público classe média 20-50 anos do sudeste. Só lamento.

Nem toda falta de noção é mansplaining.

As pessoas no twitter se acham mega rebeldes, revolucionárias e ficam debochando do povo do FB. Nada mais trivial que isso.

Minha peleja é pra mais pessoas terem mais acesso a mais direitos e não para que as pessoas que tem acesso a (alguns) direitos os percam porque nem todo mundo tem.

Democracia manca é melhor do que nenhuma democracia.

Sou apegada: ainda considero o pensamento de Freud, Vigotsky, Lacan e dos frankfurtianos de primeira geração, o que há de melhor pra se entender um tantinho as estruturas e dinâmicas das pessoas, grupos, movimentos sociais. 

Tenho preguiça da pessoa que: "ah, não quero chamar atenção, mas" aí faz, pela centésima vez, a mesma coisa que fez antes e chamou atenção. 

Esporte é uma forma de arte. Sim, vou acompanhar as Olimpíadas de Inverno.

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Devo confessar que ando apaixonada:



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