segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Em primeira pessoa



Eu hoje assisti o Pequeno Príncipe. Não sei avaliar se é bom ou não nesse momento, mas posso garantir a inutilidade dos tais óculos 3D pra pessoas que, como eu, vão chorar 75% do tempo. Fica tudo borrado mesmo. Chorei todo medo, todo amor, todo amanhã, toda memória, todo aprendizado, todo abraço, todo colo, toda solidão que me faz eu.

Eu ficava encafifada com os amigos que sofriam por causa de um amor muito, muito tempo depois de findo. Ficava espantada que, passado o tempo, mesmo felizes, mesmo em outras relações, ainda tivessem aquela pequena contração de dor ao ler o nome, ver uma foto, ouvir falar. Eu não te sabia, Lisboa.

Eu tenho dúvida se aprendi a ler ou só me apeguei a certas histórias.

Eu sempre vou lembrar. Ora raposa que fica, ora menino que vai. Nunca teremos Paris, suspeito, mas teremos esse pôr-do-sol, a brincadeira no trigo, o tempo que dedicamos um ao outro. 

Não tem problema crescer. Não tem problema partir. É só não esquecer. Não esquecer a lua, os copos, as canções, os encontros, os abraços. É só não esquecer o que foram, o que fomos, o que somos. O que somamos. 

É só aquela dorzinha fina de viver, a certeza da incompletude, a percepção dos limites, o desconforto comigo mesma, com o mundo. É só aquela preocupação que nunca deixa desfranzir completamente a testa. É só aquela compreensão de que não foi a melhor palavra, não foi o melhor momento, não foi. É só aquela sensação de ter perdido alguma coisa, talvez o bonde, talvez eu mesma

Eu sinto falta de tudo. Queria um peito pra aninhar sua fala e que, no lugar do coração, sua voz bombeasse esperança em mim. Mas sorrio, meio doce, meio triste, desejo os melhores sonhos pra você e durmo um sono escuro e vazio. 


Espelho, espelho meu existe alguém mais terrível do que eu? 








sábado, 29 de agosto de 2015

Senta que lá vem textão

Teve o texto da Cynthia. Que eu curti em muitos aspectos. Não todos, nossa vivência, local de moradia, tempo de militância, formação (também profissional), cultura regional, um pá de coisas, faz com que tenhamos estilos e concepções um pouco afastadas. Mas gostei do texto. Teve gente que não gostou. Teve gente que gostou mas sentiu falta de outras questões. Teve gente que não gostou e reconhece o valor. Todas as gentes que gostaram ou não gostaram e discutiram com argumentos suas divergências e aproximações, me enriqueceram. Um tanto de outras gentes (não na minha TL) só provou, com seu testemunho e ato, o ponto central do texto.

Eu evito falar de feminismo. Sinto-me incompetente. Não tenho vivência e informação suficiente. Não participei o bastante. Sou novinha nas paradas. Estou ouvindo, lendo, conversando, tentando aprender. Mas de militância não tenho pudores pra falar. Nem de utopias. Projeto de futuro. Visão de mundo. Concepção de humanidade. Afinal estou aqui e tal como a flor de ir embora, agora esse mundo é meu.

Então, sobre militância, não só no feminismo, mas também. Na militância, como na vida, acredito que o fazer nos faz ao mesmo tempo que o fazemos. E nem sou só eu, vai do Leontiev que não é o da Renata à poesia do Vinícius: o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. Acredito que é no fazer, na reflexão do fazer, na operacionalização do fazer que objetividade e subjetividade se determinam e constituem.

Teve um tempo que eu participei de um núcleo de extensão. Era formado por alunos, tocado por alunos, erros e acertos dos alunos. O professor orientador era mais um. Ou menos um, dependendo da época. Eu nem sei como está o Nucom agora. Não importa, não é sobre ele. É sobre mim. Ou sobre essa “eu” construída nesse grupo, nesse processo. E sobre o grupo e processo que ajudei a construir, sendo. Quando eu era extensionista, a gente fazia assim: tinha assembléia toda segunda-feira (com professor, sem professor, não importava). A gente chegava falando do que faltava de material, se abraçava, beijava, mencionava algo das reuniões nas comunidades misturava com queixas de relacionamentos pessoais... aí começava a reunião, sobre as mesmas coisas, no mesmo tom, teoria, prática, práxis, rolava mutirão arrumando a sala e conversas sobre artigos que estávamos lendo e/ou escrevendo, um cutucava o outro, tocava, ria, cantava, debatia. Tinha equipes. Agenda. Muito planejamento participativo e discussão sobre a teoria do planejamento e da participação social. E avaliação a dar com pau. Porque isso e porque aquilo. Não era só fazer, mas porque fazer tal coisa, de abrir um novo campo de extensão a trocar a estante de lugar. A gente viajava junto lendo ou fofocando ou fazendo cartazes. Fazia relatórios, ia pra reitoria pedir verba, fazia festa, fazia roda, dançava ciranda. Tinha dia de debate teórico e esse dia geralmente íamos pra um bar. E lá dávamos exemplos dos campos de trabalho, da vida, falávamos dos sentimentos envolvidos na leitura e na ação e em passar leitura pra ação e ação pra leitura.

E foi assim que aprendi a estar e ser grupo. Não a toa muito do que líamos era Vigotsky, Leontiev, essa galera. E não a toa ler essas gentes tende a empurrar pra construção de determinados tipos de espaços e lutas. Não estou dizendo que é modelo, régua, norma. Estou conversando sobre possibilidades. Sobre a forma como vemos o mundo e pensamos nossa intervenção no mundo. Nosso grupo era de “luta”, pra ficar na pretensa dicotomia. Mas na lista de valores, tava lá: “prazer orgiástico”.

Atualmente eu faço dois coletivos. Não faço parte de. Eu os constituo e eles me constituem. Amo a galera e a gente se escuta, se apoia, se enrosca, se roça, chora e ri junto. Porque a gente faz junto. Acredito nisso. 

Quem me conhece de um tempo sabe como o afeto é importante na minha visão de mundo. Mas falar de sentimento pode ser complexo, né. A gente diz: “sentir” e cada um tem sua concepção do que é. Eu acredito nos sentimentos não como um a-priori, mas como uma construção. Acredito que sonhar junto, trabalhar junto, transformar o mundo nos transforma e transforma os vínculos. Acolhimento faz sentido, pra mim, em termos de militância, nesse contexto.

Estar em grupo pode ser muito “terapêutico”. Como bordar, andar de bicicleta, cozinhar. Mas a não ser em grupos específicos e com a clara compreensão dos processos envolvidos, penso que não deveria ser o objetivo de estar em grupo. É parte, porque é vida. Não é higienizar o processo, racionalizar, etc. É compreender de dinâmica grupal. De identificação. De projeção. De narcisismo das pequenas diferenças. De sacar que tem o implícito. Que, por exemplo, a catarse tem uma dinâmica de retroalimentação num crescendo. Que um grupo cujo objetivo é "apenas ser" precisa diferenciar-se significativamente e isso geralmente é feito na base de escolha de inimigos imaginários (não imaginário no sentido de inventados, mas de imaginário como reflexo, a ilusão, o sempre igual, a imagem e a semelhança do outro sem espaço pra diferença)

Quanto ao resto do texto bom, vou dar (UI) umas pinceladas porque tenho que acabar esse status em algum momento e suspeito que pouca gente vai chegar aqui:

- O Estado não é resposta. Mas deve ser, sempre, questão. Ele é possibilidade de regulação social mas também coerção. Não é suficiente, mas deve ser disputado, acho.

- Não acho que o feminismo é uma luta por direitos porque acho que os feminismos são vários, mas acredito qu o feminismo pautado pela luta dos direitos se aproxima da minha visão de mundo e de mudança, porque acredito que precisamos ir mudando o concreto pra ir mudando o discurso e mudando o discurso pra mudar o concreto e consolidar os direitos. Penso que a militância que se aproxima do que acredito (porque é sempreaproximação, né, da gente com a ideia e das ideias com a gente) é a da transformação da cultura via mudanças no cotidiano e nas instituições e da transformação das instiruições via demanda do cotidiano e da cultura. 

- Penso que a gente tem que ver o momento histórico e como se constituem as subjetividades. Muito tempo atrás uma professora na UFC tava discutindo a mudança de uma sociedade neurótica para uma narcísica e qual o impacto possível disso nas organizações em grupo, lutas coletivas, etc. Talvez seja hora de eu reler esses debates.

- Não devia nem precisar dizer, mas parece que precisa: o sonho não se aparta do hoje. Não é uma coisa ou outra. Questionar um modelo atual não significa desejar abandonar quem está sendo recebida nesse modelo, mas se perguntar se ele pode melhorar. Por exemplo, se precisamos de espaço de acolhimento eficazes e decomprometidos com o machismo e se eles não existem hoje, a conversa precisa incluir a discussão da formação psi, as políticas públicas de assistência social e saúde, a regulamentação da mídia, etc. 

Sobre o que não está no texto, mas o deflagra de alguma forma: não acredito em ideias, pensamentos e utopias que excluem pessoas, qualquer tipo de pessoa, do que vem a seguir no sonho. O mundo que almejo, mais feminista, igualitário, não-racista, não-capacitista, não-transfóbico, não-homofóbico e sem classes, vai ter gente. Vai ter mulher e vai ter homem, ué. A única chance deles não estarem lá é um caminho que não quero seguir. E, vira e mexe, eu volto pro que digo sempre: a estrada, a chegada, o caminhar, eles se definem mutuamente.  


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Banhos

A história do rio e tal, ninguém se banha nele, ô povo sem higiene, um rio outro, o homem também, ninguém é o mesmo - só o cara que assombra elevadores. Enfim, nunca entendi esse lance do banho tão bem quanto agora. Eu praticamente podia cantar com o ronnie von, a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. Ou ainda: o mesmo trabalho, mesma casa, mesma gente e uma vida tão, mas tão outra. Nem mesmo posso alegar a saudades de um você. Não aqui. Não há sombras nem fantasmas. E, ainda assim, O Leopardo ao contrário. Não é que tudo mudou pra permanecer o mesmo. É que tudo ainda está e, mesmo assim, não é mais. Uma vida tão parecida que quase. Não hierarquizo antes e depois em melhor ou pior. Mas não. Não é. Não vai ser. Deixo o disco na vitrola pra eu pensar que é festa. E cito mal os maus poetas, num rodopio que me leva a cair. No rio, talvez. Não aquele. Outro. Embora.

Temos de morrer de qualquer coisa. Estou aqui apostando em saudade ou torresmo. No por enquanto, mantenho-me no álcool, diz que preserva.

Não tenho certeza se você tá saindo de mim ou caçando um cantinho confortável pra seguir na viagem.

Todo dia em penso que não. Porque eu sei que um bem querer de miudezas não percorre nem sustenta grandes gestos, grandes distâncias, grandes planos. E, ainda assim, permaneço só mais esse dia, essa conversa, essa despedida bobinha. Suspeito que a âncora é esse pequeno sorriso que você põe na minha boca, sem você saber como, sem eu saber porquê. 

Estou meio cansada de ser eco da minha história. Tal como a Clarice, mesmo que por motivos diversos, quero mais é uma verdade inventada.

Tomo banho de lua. Vou pertinho, comprar pão. A senhorinha que me atende tem um sorriso onde aqui e ali o branco do dente se escondeu e se vê a noite nua, cálida, úmida. Pão francês? sim, digo eu e acrescento uma piada interna estúpida. Trocamos palavras sobre qualquer coisa como quem estende a mão. Encontros. Há mais gente na pequena padaria improvisada e eu estico o tempo. De onde espero, vejo a lua, cantarolo Denise Emmer e ela ruboriza como antes dos Lunick-9 a percorrer com olhos ávidos. Obrigada, Vinícius, pelas referências. Interrompemos nossa programação para mais um plantão - outra bobagem. Uma conversa pra dizer que não é uma conversa. Deves querer desligar - de vez em quando conjugo os verbos. Sim, sim, preciso. Mas não desligamos. Até chegar o pequeno sorriso que me acompanha, com os pães e a lua, de volta pra casa. 

De todas as coisas que quase já são de tanto pensar que sim, tem um banho diário na piscina do condomínio. Cedinho, sozinha, o mundo acordando, motores de carro, crianças pra escola, pão pro café, zig zag logo ali e eu boiando. Não é nadar, não é exercício, é fazer de conta que o azul é em mim. 



Faltou o de chuva. Banho que virá.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

É como ficção que posso (te) amar

Tem todas aquelas coisas que não. Nem o bar com quadradinhos de tapioca e pimenta. Nem a bicicleta na praia. Nem a tarde preguiçosa na rede. Nem a arraia no prato, a cerveja no copo, o sorriso fácil na boca. Nem um papo. Nem um som. Nem um cheiro de alho, cebola, pimento, saliva minha e tua. Nem um passo. Nem a máquina de lavar, nem a máquina de pão, nem a máquina de fazer espanhóis. Nem o churrasco no quintal, nem o pôr do sol na praia, nem o ventinho da noite na praça. Nem a conversa domingueira e preguiçosa esticando a manhã na cama, nem as noites curtas e quentes, nem o imprevisível abraço no meio da tarde. Nem um plano. Nem um dito. Nenhum amanhã. 





Eu sempre fui daquelas que sabe a hora da despedida. Continuo sabendo, aliás. Só desaprendi o como.

Tem aquela simpatia, né. Vassoura atrás da porta pra visita que se estende ir embora.  Será que também serve para o bem querer que se demora?

Mas tem mais vassouras. Como a do frevo, que me leva a carnavais outros, fora de época, suor, cerveja, abraços. Esperança. 

Status: pensando na papagaiada de enfiar todas as coisas que acho legais na minha cozinha.

Para muitos a vida é um work in progress. Suspeito que a minha seja um patchwork.

>E todos os dias eu vejo, eu sinto, eu sei o abismo. E insisto.

A pessoa passa de caramujo a doidinha por móveis e utensílios.

Sobre as manifestações: não sei lidar com tanto ódio e violência.

E quando for o hoje desse abraço que espero, ainda caberei entre os braços?

A gente saca que é mesmo dureza isso de mudar o mundo quando gente que a gente gosta e admira e tudo enfia o pé na jaca com tanta naturalidade.

Errar é humano. Usar palavras é humano. Meu erro foi nomear você.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Outra

Outros planos, outra ela. A mesma casa, maior pela ausência de sonhos de futuro. Agoras pendurados na parede, em cima do balcão, na xícara única no escorredor de pratos, na bolsa sobre o sofá, na japonesa esquecida nos degraus da escada. Hoje. Outro hoje. Mais um. Alguma rotina, tímida. Banho na piscina bem cedo, mais cedo do que se atreve a confessar em público. Todo dia? Hoje. Em todos os hojes que puderem ser. E o cabelo? Ele tem saudades de outras águas, se não são elas, que sejam quaisquer outras. Todas as outras. Chuveirão instalado pro filho que já não está. Que, aliás, nem caberia mais embaixo. Lava, lava, lava, feito um ratinho, lembrando da infância que nem foi sua. O café passado no pano, uma torrada, uma vida que sabe a nostalgias diversas. A cozinha como se quis: balcão, paneleiro, prateleiras e objetos coloridos. A sainha da pia da cozinha, floral como nos interiores sertanejos em que ela se fez.  Pendurar a toalha no varal. Rabiscar uma bobagem que só ela vai ler na lousa da cozinha. Música para abrir os trabalhos. Artigo, aula, correção dos textos de alunos. Redes sociais nos intervalos. Ainda trabalha na cama, notebook no colo, como se prometeu não mais fazer. Procura justificativas no verde das paredes, no macio da cama, nos quadros divertidos, na conexão de internet injustificadamente mais estável nessa parte da casa, no ventinho que vem da rua. Ri de si mesma e das suas tentativas de engabelar-se ao ter que descer as escadas pra beber água. A sala é um vir a ser. Um dia, um gira-discos. Um tapete. Uma poltrona confortável, claro, colorida, provavelmente floral. Essas coisas, um depois. No hoje, um sofá que vai servindo enquanto espera o resto. Ele é meio bege, meio marrom, meio caramelo (uma cor que mistura isso tudo), coberto com mantas e umas almofadas com estampa que lembram azulejos, outras daquelas que lembram capinhas de tricô que se encontram no sertão em cima de botijões, liquidificadores, etc. No hall compacto na entrada, na parede amarelo caju à esquerda de quem entra, um adesivo de cabideiro com ganchos de verdade pras visitas colocarem bolsas e ela deixar chaves, lenços, chapéu, essas coisas. O resto é indecisão. Na entrada, um tapete com a frase: “num vem não, cumpadi”. Claro que ninguém entende a referência. E é meio assim como a casa vai indo, como ela vai indo: feito piada interna em carro de som. Toda à mostra, mas codificada. Uma casa nua, uma mulher nua. Como o paneleiro, pedra angular da casa: exposto, nítido, visível. Tudo explícito, se exibindo, uma casa biscate, onde é o desnudo que faz a sombra e assombra em mistérios insuspeitos. Foi há um tempo, lembra como uma ausência, que desistiu de abrir as portas e resolveu foi mesmo abrir mão das portas. Que entre. Que entrem. Que a vida seja. 


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