domingo, 28 de agosto de 2016

Insisto em acordar viva - aprendendo com Aldir Blanc

Vim aqui especialmente para indicar essa entrevista do Aldir Blanc, na comemoração dos seus 70 anos. A coisa mais maravilhosa, mais importante, mais verdadeira, mais digna, mais bonita, mais poética, mais sentida que você vai ler (leia! leia!) neste domingo, quiçá nessa semana, nesse ano, sei lá.

Sei disso porque li e, resposta a resposta, fui sentindo o gelo quebrando em caquinhos, fui sentindo a vida amornando nos olhos, fui revivendo o bom, fui percebendo o possível. A cada resposta, em cada resposta, o belo. E mais, a vida. Não só a dele, mas aquela que insiste na flor que nasce no cimento, aquela que se ouve entre os gritos meninos na pelada na rua, a vida da conversa nas esquinas, do silêncio da menina sentada no meio fio.

Cada resposta foi me ajudando a lembrar quem sou, como me fiz e do que fui feita, qual a matéria prima do meu sonho. Que belezas eu trago no peito e me servem de alento, consolo e nutrição. As palavras. A potência das frases. Os ditos. As entrelinhas. Tudo que Aldir Blanc faz fulgurante no horizonte.

"Agora insisto em acordar vivo". Existir com nossa boêmia, com nosso riso, com nosso tesão, com nosso sertão, com nosso afeto, com nossas histórias, com nosso subúrbio, com nossa rua, com tudo fora do padrão. Insistir em existir quando não somos bem vindos. Abjetos. Errados demais. Insistir em acordar vivo. Apesar de. Resistência é isso. 

"Agora insisto em acordar vivo". Duvido que vocês encontrem mais poesia e ardor por aí. Leiam, leiam mesmo.


sábado, 27 de agosto de 2016

Encontros e Despedidas

Eu gosto dos finais enigmáticos, dos finais dramáticos, dos inesperadamente tristes. Mas ainda assisto tudo, tudo, até série francesa, torcendo pelo final feliz, mesmo para os mortinhos que voltaram confusos e abilobados.


 É claro que fui pra rua ver o encontro de Júpiter e Vênus. Quando dois planetas estão mais perto de se encontrar do que a gente com quem se quer, o mínimo que se pode fazer é espiar. Estava escuro. No céu, nada. Deu uma tristeza. Um negrume no peito. Um amargo. De lembrar outro céu, em outra noite, de risos, talvez. De me sentir à parte, quando nem os astros e mostram pra mim. Nem Júpiter, que está por todo canto no meu mapa, nem ele quer minha companhia. Foi dolorido sentir a solidão como golpe e não como potência. Os olhos marejaram. Daquele jeito quando arde a garganta e a gente pigarreia e pisca. E pisca. E no enevoado, o brilho. Eu não estava olhando pro lugar certo? Nem quis saber nem responder, sei lá se planetas ou o arder da lágrima com o brilho do poste. Foi encontro. Foi luminosamente tocante. Tão bonito que foi. Fiquei ali, deixando os olhos serem correntezas, deixando sair a saudade líquida, deixando vir a beleza se incrustar na vista. Tem hora que parece que o viver se encaixa melhor se simplesmente o acolho. Pode vir, pode chegar, em sabores, o amargo, o salgado, o azedo e sim, claro, o doce. Vem, um ressalta o outro, potencializa o outro, se mistura, se equilibra. Na corda bamba de sombrinha.

Eu sou uma pessoa bem teimosa, é fato, mas sou capaz de conversar bastante tempo com alguém que não compartilha a mesma visão sobre algum tema. Porém algumas coisas me brocham totalmente e me fazem cair no silêncio, tipo superioridade moral. Sabe aquelas pessoas que concordam com uma idéia porque o ângulo lhe favorece? Então, não dá pra mim.

Parece que setembro nunca chega.

Eu sei que é falacioso apostar tudo em uma jogada. É ingênuo achar que um evento muda tudo. É bobo ficar esperando que um lance te redima. Mas é exatamente assim que ando vivendo meus dias.

Além disso, parece que entrei em slow motion. Faço tudo mais devagar, não dou conta dos compromissos e acho muito difícil colocar uma palavra depois da outra com alguma lógica.

E, enquanto a vida morde e assopra aqui, miúda, em mim, em Brasília os podres poderes afiam as arestas e despudoradamente confirmam o golpe.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Bloqueada no FB

Uma coisa que eu pensei que nunca aconteceria comigo: censura no FB. Primeiro pela minha irrelevância, né: quem sou eu na fila do pão. Segundo porque tenho bastante critério quando acolho alguém lá no que o FB chama amigos (mesmo que não pareça, olhando apenas a quantidade). Mas aconteceu.

Estou bloqueada, 24horas, no FB, por causa de uma denúncia. Publiquei este post sobre aborto e alguém denunciou nudes. No post em si nem mesmo tem pessoas despidas (parece que no compartilhamento aparece os seios de uma mulher, mas de uma foto outra que tem no site, escolha aleatória do próprio FB #ironias). Nem vou discutir o absurdo do moralismo da rede social. Mas falo do meu desencanto com a denúncia propriamente dita. Deu uma tristeza.

Triste porque entre meus contatos tem alguém que acha ok agir dessa forma. Uma forma de agir intimidatória, autoritária e arrogante. “A sua existência me contraria, não só vou evitar você mas quero que você desapareça”. Não basta não seguir, não ler, não ver, o que esta pessoa precisa é que eu não seja.

24 horas não é muito, passei mais do que isso fora do ar fim de semana passado quando estava no aniversário da minha sobrinha. Passei uns 34 anos antes de chegar nas redes sociais. Não é a quantidade de tempo, é o cinza que fica no peito e o travo que fica na boca. É a desconfiança. A desilusão. Eu, que gosto tanto de gente, sentindo que preciso me proteger desse gostar.


(eu ia finalizar com uma piadinha sobre os amigos que não denunciam mas ficam de saco cheio das minhas postagens aleatórias, mas nem mesmo tive verve pra isso. não tem poesia, não tem piadinha, não tem beleza, esse é um post que eu preferia que não tivesse acontecido)

(eu adoro esse vídeo, que bom que a Renata Lins resgatou)



quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Garrafinhas Olímpicas 10: Amar É Sofrer

Viver é sentir, eu sei, você sabe. Mas amar é além. Amar é se abrir pra o doer. Entre tantas outras razões, porque amar é permitir-se a vulnerabilidade. É estar sensível para o outro. O outro nos dói em ausências, mesmo quando está, em uma angústia de futuros ou na melancolia dos passados. O outro nos dói pelo que ele pode nos tirar de alegrias por ele apenas ser ou estar. O outro nos dói por oferecer uma ilusão de completude e por nos jogar na percepção da falta. O outro dói, dói, dói. Mas o doer do amor mais intenso não é pelo outro, mas com o outro.

Quando amamos nos importamos. Nos implicamos. A anatomia fica louca, somos todo coração, mas também pele e nervos e sangue. Nosso coração falha quando o outro perde o sorrir. Nossa perna fraqueja quando o outro se cansa. E depois do depois o que queremos é afagar, acolher, garantir que tudo vai ficar bem. E isso também dói, porque não sabemos. Não há garantias. Muitas vezes, não fica tudo bem. Algumas coisas melhoram, outras não e seguimos com a falha gravada na pele. E dói a nossa impotência.

Eu aprendi a amar o vôlei feminino. Aprendi a amar o Zé Roberto. Amei quando ganharam onze vezes o Grand Prix. Amei quando perderam mundial pra Rússia em 2006 e foram chamadas de amarelona. Amei quando ganharam a medalha de ouro em Pequim e repetiram isso em Londres. Amei em cada jogo desimportante que passa nas madrugadas da tv a cabo e em cada decisão televisionada em grande estilo no horário nobre. Amei reconhecendo a presença da alegria e, principalmente, a possibilidade do doer  E, ontem, doeu. 

Meu coração machucado, as lágrimas da minha frustração, a esperança esmagada, a perplexidade. Dolorida por causa delas. Mas não só. Dolorida com elas. Pelo coração machucado delas, pelas lágrimas de frustração delas, pela impossibilidade de alcançar. Pela necessidade de seguir, que se impõe. Pela compreensão do momento para sempre perdido e a possibilidade de que seja a última olimpíada de algumas. Seilla e Fabiana se despedem. Jaqueline, talvez. É duro. Foi duro. Mais sentido, penso, porque apesar de improvável, não muito contestável. A China jogou muito. A seleção brasileira lutou e fez o melhor que podia. E não foi o bastante. Não foi o bastante sacar com força, defender com atenção, vibrar, atacar com disposição, apoiar uma à outra, ouvir o técnico, tentar, arriscar. Não foi o bastante. Não foi suficiente. A insuficiência de quem amamos nos dói. Me dói.

Eu não fiquei pra ouvir as entrevistas. Quem sabe hoje pego alguma coisa. Ontem prefei o balançar soluçante dos ombros da Jaqueline, no abraço da mãe. A dor. O amor. A nossa humanidade. Uma Olimpíada também é feita dos inalcançáveis.


 Ontem foi um dia de derrotas doloridas assim. Com Fabiana Murer, uma atleta incrível que nunca conseguiu estar bem nas competições que tem visibilidade no Brasil. Seus recordes, suas vitórias, seu campeonato mundial, tudo isso parece se dissipar ante os três saltos falhados. A saída do handebol feminino, tão vitorioso e preparado. A derrota, nos penâltis, da sofrida seleção brasileira feminina de futebol. Larissa e Talita, favoritas, perdendo o lugar na final e tendo que respirar e dar a volta por cima pra disputar o bronze. O alento das medalhas de prata do Isaquias e de ouro do Robson.

Olimpíada também é vida que segue. Então, a programação do dia:
  
09h – taekendô
09h16 – canoagem (canoa 200m)
09h44 – canoagem (caiaque duplo)
09h58 – caiaque individual feminino 500m
10h – handebol masculino
10h – hipismo
10h16- Luta olímpica
11h – polo aquático feminino
13h – futebol masculino
22h00 – vôlei de praia feminino (bronze)
22h15 – volei masculino (quartas de final)
00h – vôlei de praia feminino (finais)

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Garrafinhas Olímpicas 9: Segura na Minha Vara e...

Eu não pratico esportes. Apesar de curtir muito as coisas relacionadas ao meu corpo, não me lembro de nenhuma época em que tenha pensado ou desejado praticar qualquer modalidade. Gosto de dançar, mas nem mesmo isso de forma disciplinada. Gosto do meu corpo em movimento e só.

Mas os corpos alheios, que maravilha que é vê-los em movimento. Nunca quis fazer esporte, mas assistir, torcer, acompanhar, é muito gostoso. Sou #aloka do Pan, das Olimpíadas e da Copa do Mundo, mas não só. Gosto dos “intervalos”. Gosto dos campeonatos mundiais, de campeonatos internacionais variados, de etapas de copa do mundo em diversas modalidades. Vejo tudo que posso. Passou na tv, eu estou vendo.


 Por isso, eu não imaginava a medalha de ouro do Thiago. Não porque eu não desconhecesse o atleta, mas justamente pelo contrário. No pan, errou todos os saltos. Nas etapas internacionais, resultados medianos. Mas aí, nas classificatórias, ele ousou. Errou dois saltos de altura média e mandou logo subir o sarrafo. E saltou com precisão. Aí eu pensei: uia, parece que ele tá diferente. Focado. Inspirado. Animado. E, na final, foi exatamente isso que ele demonstrou. Uma estratégia impecável. Saltos tecnicamente bem feitos. Concentração. E uma certa leveza advinda de uma alegria de estar no lugar certo. Ele parecia estar em casa. E estava: no ar, feito beija-flor, meio flutuando. E no chão, de pé, aplaudido como atleta talentoso que é.


 Foi um dia de Thiago, mas não só. O vôlei masculino respirou e seguiu pras oitavas de final. A maratona aquática deu a primeira medalha da natação feminina, um bronze pra Poliana Okimoto. Ficamos em 13º no dueto de nado sincronizado. Zanetti foi prata nas argolas. Mamute levou o vôlei de praia masculino pras semifinais. César Castro se classificou para a final do trampolim de 3m. E na pista e no campo, nossos atletas tentaram e fizeram o seu melhor.  

09h – maratona aquática masculina
09h08 – canoagem
09h45 – Salto com vara
10h – Trampolim (semifinal)
10h – handebol feminino
13h – futebol feminino
15h10 – polo aquático masculino
16h – vôlei de praia feminino (larissa e talita)
17h – volei de praia masculino
19h15 – final do boxe Robson
22h15 – vôlei feminino

23:59 – volei de praia feminino (Bárbara e Agatha)
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