segunda-feira, 11 de junho de 2018

Maior que a Vida

Futebol é uma coisa tão bonita que quando eu encontro alguém que não gosta 
eu torço de coração pra que ela tenha na vida algo ao menos um pouquinho parecido” . 

A frase acima é do João Luís Jr., o moço que me faz rir e chorar escrevendo sobre o meu Mengo. Mais do que sempre, ele foi preciso em relação ao que eu sinto. O futebol me comove. No amor só é possível fazer autópsia, não biopsia – não lembro quem disse e não fui procurar. Há situações em que o desconhecimento é benéfico. Como aliás, o mote inicial indica. Pois bem. Copa do Mundo. Sei lá porque amo e não vou tentar entender ou explicar. Mas tal como mocinha apaixonada, não abro mão de falar do objeto querido. Essa semana começa a Copa e eu estou prontinha:




É Copa + Festa Junina = Melhor de todos os mundos

Porque você gosta tanto de ver essas coisas, luciana? Ué, o que eu não sei é como não gostar, gostando tanto de gente, como eu gosto. Esporte, futebol, é uma coisa totalmente humana. Inventada por e para a humanidade, não é pra se elevar a deus, não é pra se encontrar com a natureza, não é pra nada além dele mesmo (a não ser, como qualquer outra coisa, no capitalismo, também é pra fazer dinheiro e aumentar a desigualdade social). Futebol é lúdico. 20 pessoas correndo atrás de uma bola e duas torcendo pra ela nunca chegar perto delas, como não se emocionar com a futilidade disso?

A beleza de um drible, a catarse de um gol, a angústia de algumas derrotas, não há palavra que consiga comportar os sentimentos que uma partida de futebol pode evocar. Durante o ano, durante a vida, é um amor específico, o amor pelo nosso time. O time que a gente torce é quem nos ensina o amor. É ele o nosso “quem”, nossa cara metade, nosso farol, nosso riso e nosso pranto. É o nosso time que nos tira o sono, que preenche nossos vazios, que encarna nossos anseios. 

Mas a Copa, a Copa é o amor pelo amor. Não é o meu time que importa nesse breve intervalo, não é quem eu amo, mas como se ama. O amor quase sem objeto, praticamente sem um quem, deslizante, cada partida um enlevo. Cada drible é um novo crush. Cada cabeçada, cada tabela, cada cruzamento bem feito, cada defesa inspirada. Amar o amor. Nem triste nem feliz, vivendo esse amor que, como todo amor, é necessariamente finito, fadada à solidão e disposta a viver com isso. Viver por isso. 

Eu me empolgo, não só com a seleção brasileira, mas também com ela. Gosto do evento todo, gosto dos jogos sofridos, vitória apertada, gosto dos dramáticos, jogador com braço na tipóia, gosto daquelas peladas que não valem nada, Jamaica e Tailândia na terceira partida da fase de grupos, gosto das reviravoltas, das alegrias, da dor de partir. Sofro com cada equipe que se despede do evento. Choro junto, lamento. Alegro-me com cada uma que fica, que avança, mais uma rodada, mais brinde.

Tenho meus favoritos, claro. No grupo A: Uruguai e Egito (apesar de ser uma perda pro evento a equipe da casa não avançar, então fico pensativa sobre minha torcida), Grupo B: Portugal e Marrocos (claramente iludida, Espanha tem vaga quase certa nas oitavas), Grupo C: Peru e qualquer um (o que provavelmente será: França e mais alguém), Grupo D: não tem quatro vagas pra esse grupo seguir na competição, não? poxa, pelo menos 3 – Islândia, Nigéria, Argentina (e a Croácia também joga direitinho), Grupo E: pelo meu gosto, Brasil e deixa uma vaga pro grupo D, mas vá lá, vem com a gente (no desejo, não na bola) a Costa Rica. Recupera o fôlego e segue a torcida, Grupo F: quero ver México e Alemanha nas oitavas (é legal e estranho gostar de ver a Alemanha jogar, isso tinha acontecido comigo no tempo do Lothar Matheus), Grupo G: eu gostaria que seguissem Tunísia e Panamá, devem avançar Inglaterra e Bélgica – e nem adianta me chamar de pé frio, a diferença técnica é gritante, Grupo H: Colômbia e Senegal, diz meu coração, Polônia e Colômbia diz meu cérebro, Japão e Senegal grita a zebra que passa correndo pela sala nesse momento.

Como os recém enamorados o amor me nutre nos dias de Copa. Comer, trabalhar, dormir? Tudo se torna menor ante tal paixão. Quero ver tudo, sentir tudo, ouvir tudo. Assisto jogos, acompanho os debates, brigo com a tv. Dentro do frenesi da Copa, o que espero do Brasil não é o caneco, embora seja bom ganhá-lo, claro. O que espero é ginga. É rima. Tabelas feito poesia. Futebol é muito mais que o resultado. A paixão pela bola e a surpresa emocionada quando ela corresponde. Quero suspeitar a sombra do menino Vinícius Jr. em cada bola correndo ligeira sobre a grama. Quero o inesperado e a comoção. Quero meu peito como um maracanã lotado cantando Taiti ou batucando no ritmo das palmas da torcida da Islândia.  Quero ver nas frestas e brechas meu povo leve, criativo, inventivo, moleque, determinado, iluminado, quero ver a promessa de que amanhã e depois e depois do depois do amanhã, teremos futebol para amar.


sábado, 2 de junho de 2018

Umbigo, again


Eu ainda jogo Campo Minado.

Eu não tomo chá. Tomo muito café.

Eu vejo esportes. E comento.

Não sou do tipo que curte comprar coisas, mas livrarias, sebos e o mercado do peixe me deixam louquinha.

Se eu tivesse dinheiro (muito) nunca pararia de viajar (até não ter mais dinheiro, né).

Eu gosto de cozinhar. Ninguém é obrigado a gostar de comer – eu ia fazer piadinha, tem hora que tenho #12anos

Eu choro muito fácil. Tão fácil, tão fácil que talvez eu esteja chorando ao reler este post.

Eu tenho orgulho do meu ex marido. In vino veritas, tenho orgulho de todo mundo de quem gosto.

Eu sou #aloka da Copa do Mundo (alternando com aloka das Olimpíadas)

Eu não sei fazer bolo, mas faço uma tapioca bem ok (se a goma já vier molhada).

Já li muito. E continuo.

Já fui muito amada. Sou. E feliz. Fui. Sou. Às vezes, como tem que ser, pra saber que é.

Queria ficar bem de chapéu. E usar lenços.

Tenho gastura de isopor.

Às vezes tenho vergonha de ser banal.



sábado, 26 de maio de 2018

We need space to live

A vida fica mais fácil com uma boa epígrafe.

Onde aperta o pause?

Sempre me achei bem de boas, hoje fiz um exame de sangue que, de alguma forma mágica, pelo que entendi, identifica stress e fiquei um pouco receosa do resultado.

Como o pensamento desliza - sacana, ele - devo dizer que a palestra que me tirou o sono correu muito, muito bem mesmo. O material rendeu, as pessoas gostaram e, principalmente, eu gostei, achei que trabalhei bem, fui clara, articulada e profunda. 

I need space, diz o leão brasileiro. Digo eu. E uns livros. Uns filmes. Café. Uma cozinha cheirando a refogado. E passagens aéreas.




Preciso achar a tesourinha de unha.

Não sei quando nem onde eu li, mas sei que era mais ou menos assim: pode-se viver uma vida toda alimentando o amor com esperanças.

Estou me segurando para não me tornar a chata que recomenda This is Us pra todo mundo.

Eu só tenho medo da dor. Deviam ser mais perdulários com cafuné e morfina.

Que ópio o quê, futebol é a cervejinha-gelada-na-mesa-de-boteco-com-boa-conversa do povo.

Tudo meio morgado. Mas as melhores amizades.

Eu queria ter uma memória melhor. Eu sei que fui feliz, mas eu queria lembrar os porquês. 

A indescritível solidão do goleiro que falha.


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quinta-feira, 24 de maio de 2018

O Brinquedo




Eu durmo fácil. Basta eu decidir - então, hora de dormir - me arrumar num cantinho e voilá. É o tipo de talento que devia ser remunerado.

Em inocente desinteresse, anuncio: relacionamentos começam onde terminam, em uma recusa de respirar. Amar tira o fôlego. Morrer também. Eu já não faço planos, eles é que me fazem, em juras de desenganos eternos enquanto duram. Eu gosto de mentir. De dizer: hoje, quando eu sei que é nunca. E dizer sempre, quando sei que é agora. Eu escolho a desesperança tatuada de gozos. Tudo acaba, tudo acaba, tudo acaba, enquanto repito isso, isso não cessa. Mas eu respiro e é, de novo, o novo. Não sei o que há no fim do percurso, no meio do labirinto, na margem da estrada, piso em estilhaços de vidro: o espelho que te prendia, e desconfio que isso tudo me leva tão longe quanto se possa estar de alguém, ou seja, bem dentro e bem fundo.

É outono em algum lugar. No meu peito, talvez.

Se eu pudesse, largava tudo e ia morar nas entrelinhas. 

Estou com medo de passar vergonha? Estou com medo de passar vergonha, amanhã. Mas, luciana, você já falou pra mais gente sobre temas mais complicados. Sim, mas eram os meus temas, né. E eu era jovem, ainda acreditava que podia saber alguma coisa.

O mundo real me imobiliza.

Status: respirando fundo.

Eu sigo tentando escolher o bom. Um dia de cada vez. O brinquedo. mas dizer que tá fácil, ah, não tá não.

Nunca pensei que diria isso mas estou esperando sábado, ansiosa, pra fazer uma sopinha.

Eu sei do lance dos caminhoneiros. Do desabastecimento em alguns supermercados. Do clima. Das múltiplas implicações. Das variadas interpretações. Mas não, não vou falar sobre isso agora.

Meus dias: areia movediça.

A sensação térmica quando eu saio pra trabalhar é 37 graus. Se depender de mim o mundo nunca vai ser esse gif da Holanda que o povo bem intencionado posta nas redes sociais. 



quarta-feira, 23 de maio de 2018

Cortiça


É engraçado como a gente pode se sentir distante de alguém que já foi tão próximo.

Às vezes eu uso engraçado, mas não é sobre algo que me faça rir.

Percebo que tenho e sempre tive uma vida muito protegida. Embora a minha amiga não goste do termo, é uma vida, no sentido a que vou me referir, privilegiada. Leio e escuto, por exemplo, pessoas falando de pessoas chatas com quem convivem. Eu não convivo. Não convivia, não convivo. Por sorte, primeiro, por escolha, agora. Minha família expandida é divertida. Muito. Uma infância de vila, uns tios maneiros, umas primas confidentes. Sempre tive oportunidade de ler muito, então só tive os amigos e companhias que quis ter na adolescência, incluindo o grupo de jovem da teologia da libertação e não da renovação carismática. Na faculdade, entrei logo para o projeto de extensão mais cheio de gente boa. Sim, tinha uma chata, mas não ficávamos perto uma da outra (ela devia me achar chata também). Depois um mestrado de amizade única e irmã do lado. Trabalhos, só os  que pagavam pouco e exigiam muito, no interior do estado, quem tem tempo de conhecer gente chata neste contexto? Depois, a autonomia (por enquanto) de lecionar na Universidade pública. Poder entrar na copa e dizer o que pensa sobre a palestra tosca da véspera. Não tenho colega de trabalho no FB. Levo livro pras confraternizações pra evitar conversa que não topo. Divido sala com uma amiga querida. Não faço parte de grupos de zap que tem pessoas que não são muito, muito íntimas. E é por isso que mesmo amando bastante pessoas que estão em um espaço, prefiro não frequentá-lo quando percebo que, ali, elas serão tolerantes com piadas, ofensas, pensamentos que, em espaço aberto e vindo de pessoas desconhecidas, não seriam.

Li um texto bem interessante sobre os rumos das publicações acadêmicas e percebi como sou intransigente. Não consigo nem mesmo arrumar artigos de material que já tenho, só de pensar em submetê-los em outra língua que não português.

Se eu fosse rica contrataria alguém para sempre fazer suco pra mim.

Pensando aqui que o mundo gira, o tempo passa e eu sempre volto ao Guerreiro Ramos.

Estes dias um conhecido postou foto da sua sala e me deu uma saudade dolorida do meu divã. Porque a gente tem que ser tão orgulhosa e não tem coragem de dizer: pessoa, pode ficar com meu móvel guardado por 3 anos entulhando sua casa? Geralmente eu não me importo de não ter raiz, não ligar pras coisas, mas me arrependo, muito, de ter passado o divã pra frente.

Capitonê, serve pra costura, serve pro juízo.

Recomeça o semestre e eu arrumo meu quadro de cortiça. Umas coisas ficam, outras saem, troco o calendário letivo. Mise em place.

Também escolho novos textos, defino novas formas de avaliação, tento bagunçar meu pensamento pra não andar nas mesmas passadas que já dei. Só deixo quieto O Homem Bicentenário na disciplina de Psicologia: indivíduo, trabalho e organizações porque ainda não consegui pensar em um estímulo melhor pra discutir o que nos faz humanos.

Status: filme italiano.


Consegui fazer os dez minutos (que mencionei no post de ontem) da palestra virarem quinze. Nessa velocidade, precisaria de mais seis dias pra chegar ao tempo ideal. Porque não sou mais sabida?



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