terça-feira, 12 de março de 2019

44, e aí

Amanhã (já, já, na verdade) faço 44 anos me sentindo muito menos eu.

A internet me deu muita lindeza. Me deu gente. Me deu amor. Porque eu gosto de festa, eu chamava para festejarem comigo e vocês vinham. Porque gosto de festa e não tenho vergonha na cara, pedia presentes e eles chegavam em forma de epitáfios, de fotos e de queridos textos. Lembro com carinho do Viver da Rita, o Envelhecer da Lu Guedes, dos Cotidianos do Rafael e da Teresa Font, da Memória da Raquel, da amizade da Joana, do texto surpresa da xará Luci, desta assombrosa finitude fora de época do Zé Navarro e da biscatagem inesperada da Renata Lins. 

Mas é 2019 e eu não consigo cantar a música do Gonzaguinha sem me sentir inquieta.

Quando eu viajo gosto de guardar uma cédula do país que visitei. Sei lá, dá aquela sensação de que vou voltar pra gastar aquele trocado.

44 anos e minha pia está uma bagunça.

Eu plantei uma árvore, eu escrevi um livro, eu tenho um filho. E, entretanto. Pois é, Freud é quem tinha razão.

Talvez eu goste tanto de Grey's porque também tenho narração em off, na vida. E, como o Kronk, improviso vez ou outra minha própria trilha sonora.

Eu ainda amo o mar.

44 anos e fico adiando a ida ao dentista.

Torresmo. Rede. Livro. Ventilador. Corleone. Panelada. Boteco. Cerveja. Cangote. Matera. Manteiga. Avião. Girassóis. Café. Preguiça. Sala de Cinema. Sushi. Flamengo. Mangueira. Nelson Rodrigues. Água.Colher de pau. Bethania. Hotel. Chuva de Bala. Cafuné. Marquesa. Ovo. Sertão. Vadiar. Gelatto. Sotaque italiano. Eletricidade. Dançar. Mercados. Banho de chuva. Mala. Conchinha. Lençol limpo. Frigideira. Blog. Caravaggio. Gaitada.

Mas posso entrar na piscina com as amigas brincando de fazer exercício só pra depois tomar café com bolo.

A verdade é que menos eu, mas ainda tem bastante. 



domingo, 24 de fevereiro de 2019

Oscar: Roma, o mais difícil, o mais bonito e o melhor filme

Roma é o melhor filme do ano. Um bom filme não o é apenas pelo que conta, mas pela forma como conta. Roma tem tudo: o mote (o afeto), a mensagem (a crítica: luta de classes, denúncia do autoritarismo, racismo) e a forma. E tem mais, aquilo que é intangível, uma beleza que é não pelo que procura ser (como se a rua beale falasse...), mas pelo que toca em nós. Tem magia.  Roma tem silêncios. Tem vazios. Tem abismos. Não é um filme em preto e branco, é um filme em cinza, porque é assim que a vida é: ambígua. Não há saída fácil. Estamos desacostumados com nuances, Roma nos joga no meio do que não é passível de julgamento, peso ou medida.

Roma é incomensurável.

É um filme poroso (não encontrei palavra melhor) que nos convida a ver com vagar, a sentir muito, a abrir mão de expectativas e ouvir e acolher e nos permitirmos.  Não consigo compreender quem diz que não acontece nada ou que é um filme parado, ele tem intensidade e angústia e rompantes de doçura que é outro jeito de dizer que ele pulsa.



A cena em que o “dono” da casa estaciona o carro grande demais praquela garagem já é um tapa na cara. Ou a forma como vamos sendo lançados na década de 70, o pôster da Copa do Mundo, o massacre dos estudantes, tudo irrompe e é submetido à premência do cotidiano. Como nós, que somos soterrados por Brumadinho e o incêndio no Ninho do Urubu e continuamos dando aula, cozinhando, parindo, trabalhando, vivendo.

Rico em metáforas e referências (os aviões o tempo todo nas cenas, idas ao cinema) sem, no entanto, desvincular-se do simples e cotidiano. Interpretações ricas e sensíveis. Não há extensos diálogos, mas as falas são bem escritas, potentes e se encravam entre os gestos precisos, minimalistas e ao mesmo tempo dramáticos e expressivos. E a fotografia, puta merda, a fotografia desse filme, é instigante. A técnica, neste filme de Cuáron, não existe por si mesma e não apenas está a serviço da narrativa, ela é a narrativa. Por exemplo, a trilha sonora, não há música, a não ser que se esteja numa festa, o resto é o som do cotidiano. Incomoda e inspira.

E tem a composição de Cleo. A história de Cleo. A vida de Cleo. Uma hora Cleo existe, material, presente, amada, imprescindível pra vida das outras pessoas, para a definição mesma de família. Em outras, some, é diluída, esquecida, marginalizada. A presença da ausência de Cleo (ou a ausência de sua presença) é o debate com que Roma nos compromete. Há quem diga que Roma é uma carta de amor à empregada do Cuáron. E há quem minimize isso ou despreze como se fosse impossível o amor e a desigualdade, a injustiça, a opressão. Pois digo eu que o amor não só compreende tudo isso como ele é muito isso, tantas vezes. Apagamos o outro para que ele seja apenas em nós. Filmar isso foi corajoso porque não importa o que se quer dizer, o real irrompe e se revela.

É um filme sobre o particular, no que temos, cada um, de universal. Ou é um filme sobre o todo no que se materializa em cada um? Roma é sobre Cleo e sua vida limitada, marginalizada e desigual em e com uma família que a oprime, predatória e é, também, a narrativa de todos os lugares que se fizeram a partir da subjugação de seus povos originários, calcando as relações no racismo e no genocídio sistemático. E Roma é sobre como o afeto se imiscui nestas relações.

Há um momento em que Cleo diz: “Olha só, gostei de estar morta”. E isso é dolorosamente verdadeiro e se torna cinema não apenas pela verdade do dito mas pela construção estética que enquadra, justifica e potencializa a fala. Cinema não é apenas o que se conta, mas o como, eu repito e por isso Roma, uma filme difícil de assistir, é o melhor filme do ano pra mim e, espero, pra os votantes da Academia. 


PS. Mas, Luciana, e Infiltrado na Klan? Spike Lee não merece? Então, Infiltrado é Caminhando e Cantando, Roma é Sabiá. 

Eu vejo o Oscar

Eu vejo a entrega do Oscar porque é divertido. Porque eu amo cinema e gosto de ver celebrados os trabalhadores desta indústria. Porque gosto de festa. Porque gosto de ver a partezinha que homenageiam os mortos do ano. Porque gosto de me irritar quando não ganham os meus favoritos e de me alegrar quando sim. Então, minhas apostas (primeiro quem eu acho que vai ganhar depois quem eu queria que vencesse):


Melhor Filme: Roma / Roma Direção: Cuáron, né, claro 

Ator: Christian Bale, por “Vice”, mas acho que devia ser o Bradley Cooper. Na verdade acho que devia ser o Gosling por Primeiro Homem, mas nem indicado ele foi. 

Ator Coadjuvante: Mahershala Ali, mas eu queria poder premiar dois, porque o Richard E. Grant tava comovente 

Atriz: Glenn Close, por “A Esposa” e PELAMOR se ela não vencer vai ser um absurdo 

Atriz codjuvante: Regina King, por “Se a Rua Beale Falasse” e fica bem entregue, mas qualquer uma de A Favorita me faria feliz também

Canção: Shallow, de “Nasce Uma Estrela” e é o mínimo. 

Filme estrangeiro: queria que fosse Guerra Fria, mas se Roma não ganhar melhor filme tem que ganhar pelo menos aqui 

Roteiro Original: acho que vai dar A Favorita e merece 

Roteiro Adaptado: acho e torço pra que dê Infiltrado na Klan 

Gostaria demais que Pantera Negra ganhasse uns dois prêmios, Figurino e Direção de Arte, por exemplo 

Fotografia pra Roma e 

O Primeiro Homem é um filme impressionante, merece levar alguma estatueta, como não tá disputando categorias "maiores" torço demais pra beliscar aquelas de edição de som, mixagem, essas coisas



Oscar 2019 e o racismo estrutural, mas não só


Se a rua Beale falasse... é bom? é bom. Tem uma história forte e dois protagonistas tão tão tão lindos que a gente quase entende que o diretor tenha ficado tanto tempo dando closes neles no lugar de usar a direção pra desenvolver a narrativa. Eu preferiria que o diretor não estivesse tão apaixonado pela idéia de fazer um filme bonito e melancólico e tivesse ficado mais ligado na história que é, ela mesma, bonita, melancólica, frustrante e dolorida.

A inclusão de imagens reais foi uma opção inteligente, forte e instrutiva (sem ser pretensiosa como as soluções de Vice). Suspeito que não tem a palavra racismo ou racista dita em nenhum momento do filme mas é isso que ele grita e denuncia: o racismo estrutural, principalmente. E a fotografia do filme, certos enquadramentos, o uso da cor amarela, tudo isso é muito, muito, muito bom.

Por outro lado, fiquei com pena dos personagens incríveis que simplesmente desapareceram, a cena do anúncio da gravidez foi das melhores coisas do filme e quando se espera mais desenvolvimento todos os personagens vão sumindo. Gostei demais do amigo reaparecido Daniel, mas até agora estou tentando entender a participação do Pedro pascal e daquele moço que faz o amigo garçom ou o tempo que a protagonista passa falando do advogado e sua (dele) relação com o caso e aí depois necasquipitibiriba de saber mais qualquer coisa (mas, né, até a irmã some).

O resultado final pra mim foi um pouco de frustração com o filme e a vontade premente de ler o livro pelo que escapa nas entrecenas (como se fossem as entrelinhas #aloka): as conexões humanas, o apoio familiar, a beleza da individualidade e o amor como resistência.



PS. Tem uma cena em Trumbo onde o diretor Otto Preminger reclama da qualidade de uma cena e pede para o roteirista reescrever. Trumbo retruca que se todas as cenas forem geniais o filme se tornaria monótono. O diretor responde: escreva todas as cenas geniais e eu farei uma direção desigual. Talvez tenha faltado um acerto deste tipo entre Barry Jenkins e seus roteiristas.



Oscar 2019 e a solidão



Mahershala Ali tem um concorrente (no meu coração) para o Oscar de coadjuvante. Richard E. Grant está absolutamente cativante e comovente em "Poderia me perdoar?" A interpretação dele foi, para mim, a melhor experiência do filme. Sim, Melissa também fez um trabalho muito bom, muito bom mesmo, cheio de camadas e nuances, ela nos pega pela mão e guia pra dentro da personagem como se percorrêssemoscorredores de um labirinto, é incrível, mas ele, ah, ele empresou um brilho e uma pungência ao personagem que nem sei dizer.

é um filme triste (não melancólico como Se a rua beale falasse..., triste mesmo, daquela tristeza de choro no chuveiro) e pesado, mesmo que eventualmente a gente ria de alguma situação, personagem ou de nós mesmos. uma tristeza que se sente nas cores, na sensação claustrofóbica mesmo quando as cenas são externas e na trilha tão inteligente que quase nem se ouve, mas qualifica cada momento. É difícil ser só mas é ainda mais difícil não sê-lo, se eu pudesse resumir o filme.

É certo que o mundo pode ser um lugar inóspito e sem nenhum glamour e a cena da faxina (e a imediatamente anterior) é das coisas mais honestamente agridoces que eu já vi filmada. Além de todas as questões relacionadas à solidão, precariedade, amizade, o filme ainda dá um belo cutucão no que chamamos real, ficção, literatura, etc. Como a gente percebe com Lee Israel, ter o que dizer não é tão difícil quanto ter sua própria voz para fazê-lo. Uma narrativa sem super herói, sem glórias, sem romances, sem clímax, sem, sem, sem e, ainda assim, ou por isso mesmo, tão plena.

Um filme amargo mas que, estranhamente, não deixa um retrogosto de cabo de guarda-chuva.

PS. a cena final me fez ficar sussurrando que nem em "O Homem que Matou o facínora", quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda.

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