sábado, 1 de setembro de 2018

Constituição de 88


Em 1988 eu tinha 13 anos. Não era muito de ver tv, gostava mesmo era de ler de Kafka a Bárbara Cartland passando por aqueles faroestes pequeninos e clássicos brasileiros. Eram esses os canais de informação: pouca tv, ler o jornal (meu pai assinava o Diário do Nordeste) e divagar pensando nos paqueras.

No colégio, estava na 8a série, preocupada com Química e Física. Amava as aulas de História. E era lá que eu acompanhava a Assembléia Constituinte. O professor (ou em 1989? quem manda não ter memória boa?) passava atividades, fazia a gente ler sobre, realizar trabalhos em grupo, essas coisas. Era colégio de freira, mas os tempos eram outros, havia uma empolgação no ar com o tema, liberdade, igualdade, as campanhas da fraternidade falavam de racismo, crítica ao poder da mídia, exclusão social. E a Constituição se apresentava ali como uma promessa de colocar o Brasil no caminho de ser um lugar melhor pra mais gente.

E, um dia, meu pai chegou em casa com ele, aquele livrinho de capa predominantemente verde. Comprou? Ganhou? eu nunca soube. Sei que passou a fazer parte da estante e eu, que lia tudo, até aquelas páginas iniciais das listas telefônicas (não os nomes das pessoas, gente!), li também o livrinho todo. E ele me emocionou, apesar das frases complexas, das promessas incompletas, da linguagem em juridiquês.

Hoje tenho 43 anos e nos 30 que se passaram entre um momento e outro, tive vislumbres de que poderíamos percorrer aquele caminho que mencionei. Participei da implantação de conselhos municipais, fiz planejamento com federação de associações comunitárias, dei assessoria a conselhos escolares, vi a formação de agentes comunitários de saúde, o SUS se solidificar, vi o Bolsa-Família dar estabilidade e possibilidades a uma grande parte da população, passei em um concurso público em uma Universidade Federal no interior do Nordeste, vi o acesso ao ensino superior se ampliar, lutei, vi, senti, me alegrei. Esperancei.

Hoje me assalta uma tristeza enorme e uma raiva impotente do que se está fazendo com a Constituição de 88. Opa, não, uma tristeza enorme e uma raiva impotente com tudo que estão fazendo conosco ao vilipendiarem a Constituição de 88. A precarização do SUS, do trabalho, da vida. Os olhos compridos pra cima da educação, querendo privatizar tudo. A qualidade de vida dos idosos ameaçada e as pessoas em situação de vulnerabilidade, desassistidas.

Eu não sou uma pessoa especialmente sabida. Não tenho sólida formação política, não sei fazer sofisticadas análises de conjuntura. Tenho este apego ingênuo a coisas como democracia, liberdade, vida humana e uma surpresa estarrecida que não seja o banal pra todo mundo.

Olho a imagem abaixo e fico pensando no que se perdeu e me perguntando quanto tempo, quanta luta, quanta dor, quanta morte será preciso não para alcançar o bom - que nunca tivemos, sabemos todos - mas pelo menos o vislumbre de uma estrada em direção a.

Eu não sou das que sentem saudades da juventude ou algo assim. Mas volta e meia eu vou lá e dou uma espiada no texto Dela, mesmo moribunda... dou um suspiro sempre que passo pelos artigos 5 e 6. Minha querida Constituição de 88.



quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Sou dessas mulheres que só dizem sim

"tomara a maior parte das coisas ser bonita
 e já lhes bastaria"

Porque tem dia, tem hora, tem dor, que pede um peito maior. Um cigarro pela metade. Um pouco de silêncio. Uma bebida quente. Algum azul. 

eu me sinto esquisita lendo as discussões de intenções de voto. se eu voto no Boulos, votaria no Freixo, na Helena Vieira, em quem quer que fosse do PSOL e que o partido indicasse pra concorrer à presidência. Se eu voto no Lula votaria no Haddad, na Gleise, no Olívio Dutra, em quem quer que etc. É por isso que não voto em Ciro e Marina no primeiro turno. É por isso que não entendo o incômodo com a estratégia do PT. 

eu sou inocente e tola o bastante pra ainda achar que não só não se governa sozinho como se deve governar a partir de plataformas, ideias e projetos construídos coletivamente e compartilhados ideologicamente. Sou inocente e tola o bastante pra ainda pensar que não devemos ter uma esquerda forte mas partidos de esquerda fortes - assim como fortes partidos de centro e de direita, com propostas claras, projetos de país bem estruturados pra que se possa votar e acompanhar as decisões políticas a partir das nossas utopias e anseios.

e, sim, eu tenho medo, mas mais do que e além do medo, eu tenho esperança. "fé na vida, fé no homem, fé no que virá". não porque naturalmente se evolua ou porque o ser humano é bom, mas confiança nas pessoas que conheço, que sonham, que lutam, confiança nas associações de moradores, nos conselhos, nos sindicatos, nas pessoas que vêem as outras pessoas como pessoas. 

O bom, o mau e o feio - e olha que beleza que era. Deve ser isso quando se diz: "ética e estética".


   

Cambia, todo cambia, escuto Mercedes Sosa e lembro, contente, da luciana que abraçava árvores, amigos e as possibilidades todas de vida. E o amor imenso pelas pessoas lindas que me inspiravam. Me abraçavam. E às árvores também, como não.

vou nem mentir: adoro minhas fotos de perfil do FB. 

Eu vi uma espécie de tutorial/reclamação/explicação sobre cafuné e cabelos crespos e só posso pensar que as pessoas não sabem fazer cafuné. Olha só, é como um mini cascudo, mas só com o polegar, não tem nada de nada com correr os dedos pelos fios de cabelo, pelamor.

Assisti o filme romance-água-com-açúcar-meio-comédia juvenil e, olha, tá dureza, tá difícil viver os tempos que correm, mas tem uns avanços sutis nas narrativas que até me dão vontade de suspirar de contente – e é o caso desse filme. Sim, é a mesma premissa de coisas como “namorada de aluguel”, mas não tem nenhuma modificaçãozinha que seja de uma pessoa por causa da outra, especialmente não tem modificação física/estética. Eles se descobrem, se curtem, se envolvem e isso é bom. Ponto. 

(melhor seria se ela tivesse vários relacionamentos com os vários moços das cartas, mas, né, não dá pro filme ser minha biografia, suspiros meus 16 anos) 

(sim, eu lembrei daquele beijo tão gentil)




Quem é o melhor personagem de Friends e porque é Ross presenteando Phoebe com a bicicleta - e não só comprou, né, a narrativa toda é muito fofa, amigável, enternecedora (não, isso não significa que ele é meu personagem preferido – alguém consegue ter um?, significa apenas que tem momentos que atropelam a gente feito um trator desgovernado e ver este episódio foi um bálsamo). 

Sim, seu moço, eu sei que podíamos ter sido felizes. Mas não acho triste pensar nisso. Acho bonito saber que tantas vidas que não vivi seriam boas como esta.

Faz dois anos que o estofo da Dilma me fez querer ainda mais ser uma pessoa melhor. 

Três coisas me são difíceis de entender e uma ignoro totalmente: o percurso da águia no ar, o caminho da cobra sobre a pedra, o trajeto da nau no mar e de qual versão de The Way You Look Tonight eu gosto mais.

Eu reciclo frases. Pior: eu repito.


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Status: sendo

Meus amigos me colocam no meu devido lugar.

Às vezes dói. 

Às vezes dói não ser a pessoa que eu gostaria de ser. Daí eu lembro como me tornei a pessoa que sou, os eventos, as pessoas, os discos e filmes (e nada mais, né, Elis) e  fico bem. 

Taí uma coisa que me tira do sério: banheiro de empregada.

Se eu tivesse coração diria que ele é uma delicada margarida com a qual a escrita da Fal brinca de bem-me-quer, mal-me-quer. Mas não pense que, despetalado, não lhe restaria vida ou beleza. Sabe aquele núcleo amarelinho? São diminutas flores hermafroditas. Se, eu disse, se eu tivesse coração.

Outra coisa que me deixa uma arara: esse negócio de velho com espírito jovem. Vontade de sacudir as pessoas. Idem para rejuvenescer e afins. Eu não sou divertida, animada, gostosa, whatever porque tenho alma jovem. Eu sou o que sou sendo luciana, eu, quarentona, com e por causa da vida que tenho vivido.

Já passeei pela idéia de esquerda libidinosa, esquerda festiva, esquerda isso e aquilo, mas fazendo os testes de afinidade com os candidatos e vendo meus resultados extremos ante os resultados ponderados dos amigos só posso concluir que sou esquerda-caricata.

Eu prefiro quando as frases não vêm redondas. Quando eu tenho uma idéia, mas ainda está manca, geralmente dirigindo, fico burilando mentalmente a frase e aí ela vai se incrustando no meu juízo. Mesmo fazendo algo entre pensá-la e ter oportunidade de registrar, ouvindo música, conversando com alguma amiga, parando pra resolver alguma coisa, orientando um aluno... quando procuro a frase, lá está, ao alcance. Mesmo que falte um pedacinho ou outro, consigo resgatá-la. Mas quando vem redonda, completa, ofuscante, passa glamourosa pelo juízo mas, se não for escrita imediatamente, não há santo que me faça reencontrá-la. E o pior é que geralmente sobra uma palavra, um fragmento, um pedacinho que não desgruda e fica zombando da minha ignorância. Hoje mesmo perdi uma ótima frase sobre sei que lá cartlandiana não sei mais o quê.

É melhor ser alegre que ser triste, né, Vinícius.

Acho que não tenho coração pra sofrer de amor romântico porque o Flamengo ocupa todos os espaços.

Uma prece: dai-me a coragem de não saber sobreviver.

Ou: dai-me a sabedoria de não ter coragem de sobreviver. Ou: dai-me a sabedoria de sobreviver sem coragem. Ou dai-me a coragem de sobreviver com sabedoria.

A verdade é que nunca aprendi a rezar mesmo.

Eu gosto de me ver em fotos e não lembrar o que eu pensava, queria, sonhava. Quem eu era? Não importa tanto. Olho e sou. Isso me faz sorrir.





quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Números e Coronéis e Divagações Outras



Sabe aquele negócio que ser adulto é nos apresentar em dados e números?  Idade, peso, número da casa, de filhos, de bens, cpf, rg, registro profissional. Eu me perco. #Pequenopríncipefeelings. Só me sei no trivial. Como mais de uma banana de cada vez. Prefiro ficar bebendo no mesmo bar o dia todo. Não sei assoviar, piscar ou enrolar a língua. Gosto de cafuné. Meu cabelo é macio, mas tenho muito menos dele do que já tive. Faço planilha de gastos mensais, mas só porque meu salário agora emparelha com as contas. Gosto de coordenadas adversativas. Falo pelos cotovelos. E já tenho passagens compradas.

Eu gosto tanto de viajar que até dói.

Eu já desisti de entender quem acha que o Lula devia ser vice do Ciro. Perspectiva, cadê?

Minha campanha é pro Boulos.

Estou meio cansada de ver o pessoal chamando o Ciro de coronel (ou coroné, que é ainda pior). O coronelismo supõe o voto sem autonomia, consequência do poder político-econômico da elite que comprava os votos ou os demandava por coerção. O governo do Ciro Gomes no Ceará tá longe de ser um exemplo de gestão de esquerda, autoritário e relutante quanto à organização da sociedade civil, ignorando áreas como cultura, etc. Mas foi uma gestão que investiu forte em infra-estrutura, educação e saúde. Se há pessoas no Ceará que votam nele e em pessoas que o representam ou com ele se vinculam não é por dependência econômica, mas por ponderar em cima de fatos e experiências e optar por este estilo e plataformas. Chamar de coronel é rotular o eleitor cearense como incapaz de discernimento, é dizer, de um modo pouco sutil, que não sabemos votar por causa da nossa “pobreza e ignorância”. Ah, Luciana, mas esse é um conceito antigo, estamos falando apenas de pessoas que tem muito poder em uma dada região e trocam favores por votos. É interessante que práticas clientelistas em estados que não são do Nordeste são ignoradas ou minimizadas, mas, imagina, não é preconceito (inclusive quando a gente pesquisa sobre coronelismo o primeiro coronel mencionado é de onde? Ouiés, Piracicaba, SP, mas, né, manipulados e manipuláveis são os nordestinos, apenas). 

“Fulano não consegue se comunicar com as massas”, só pode escrever quem se considera diferente, né, especial Pois eu me sinto muito massa.

No frigir dos ovos, sou mais sertaneja que de esquerda, suspeito.

Não vou poder ver nem um pedacinho da campanha do PT pra presidência sem cair no choro, suspeito. Aquele Brasil lá, das cenas de abraço e esperança, eu o tenho todo em mim.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Cansada



Das coisas que a gente aprende e não sabe nunca: as partidas. As esperadas e as que não. Planejadas ou nem. Voluntárias ou nem tanto. Permanentes. Temporárias. Tantas. Que fazem saber os vazios. As saudades ressoam como eco de vozes esquecidas em imensos corredores abandonados.

Às vezes tenho saudades da psicanálise, leio o que os psicólogos andam escrevendo e deixo pra lá.

Também tenho saudades dos trabalhos em psicologia comunitária, mas aí vou pra Pedra Branca e já melhoro uma coisinha.

Uma coisa que desaprendi: telefonar. Lembro, com alguma surpresa, do tempo em que tinha um aparelho de telefone no meu quarto e passava horas (mesmo) conversando com minha amiga Patrícia.

Sim, por ela eu até voltaria a telefonar. Saudades, amiga.

O trem que chega é o mesmo trem da partida e o mesmo que embaça meus olhos digitando estas coisas embora as minhas despedidas tenham sido majoritariamente em aeroportos, algumas vezes em rodoviárias e nunquinha em estações.


É que o cinema rabiscou roteiros em meu peito.

Hoje eu recebi o email de uma newsletter gracinha que eu assino. O assunto era: você pode desistir dos seus sonhos. Nem li ainda o texto pra não interferir no que fiquei pensando. Que começa mais ou menos assim: doía menos quando eu não sonhava. Esta frase não é triste, como parece, relendo. Não sonhar era bom pra mim. Eu apenas vivia os dias e, vamos combinar, meus dias tem sido muito bons, então, né, nunca pensar no que poderia ser mas apenas sentir o que estava sendo era vantajoso. Hoje, tenho quereres e eles fazem as vezes de miragens.

O belo é um tipo de oxigênio.

Tem coisas que eu simplesmente não consigo terminar.

Status: pedro pedreiro, again.

A sorte, o aumento, alguma coisa mais linda que o mundo, a festa, o carnaval, a morte. Nesta ordem. Com alguma sorte, a alegria de poder, vez em quando, esperar um trem. 

Esperando poder esperar os cinquentinha. 

A vida que escrevo não é minha. É das palavras que a definem, aprisionam, moldam, dão consistência e sentido. Viver é indizível, biografia é ficção. 





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