segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Em trânsito

Que eu me lembre, o único livro que eu abandonei foi Ulisses.

Falando em abandono, vez ou outra eu volto na cena pós capela-de-casamento de Cristina e Burke. É das cenas - e emoções - mais bem filmadas que eu já vi. Mas a cena que me toca mesmo, que é tão Cristina, vem no começo da temporada seguinte, quando ela fica sabendo que Burke pediu demissão, a forma como reage, aparentemente displicente, o corpo tensionando, ela se obrigando a continuar o que está fazendo. Olha, posso nem comentar. I'm fine. 




Tem dessas coisas que a gente não comenta porque nos deixa assustadoramente desnudos.

Eu tento resgatar o encanto de enviar cartas e afetos pelos correios mas o custo proibitivo e a demora inexplicável inibe os sentimentos.

luciana, luciana, nunca ligue no Telecine Cult, luciana.

Vi o primeiro episódio da série My Brilliant Friend e, como eu suspeitava, vou gostar um tanto. É filmada na Itália, com gente falando italiano, fala sério, como alguém pode não gostar? (mas, Luciana, você nem amou os livros! Amei mesmo não. Aliás, com Big Little Lies também foi assim – e eu amei a série, teci loas e tudo).

Pois se até hoje eu releio dedicatórias só pra ouvir o eco da voz do amigo dizendo Lucciana. 

Um dos poucos sonhos que tive e tenho é daqueles que nunca poderá ser realizado: dançar com Fred Astaire. Sempre que menciono isso eu me lembro e geralmente mais alguém corrobora, como muitos que trabalharam com ele mencionavam que ele era perfeccionista, exigente, difícil e talz. MAS. A gente vê ele dando uma voltinha na Audrey, na Rita, Ginger, Eleanor, Ann Miller, Cyd Charisse, Judy Garland, num cabide, numa capa, num chapéu e tudo, qualquer coisa, fica leve, gracioso, harmônico nos braços dele. Eu aguentaria, feliz, o mau gênio, pra ter três minutos disso.


Eu gosto de gente mas ando com muita preguiça das pessoas.


Somos em trânsito. Não mais, ainda não. O movimento é o que possibilita e é, também, o que impede. Com alguma sorte, cruzamentos. para quem acredita, as paralelas marcram encontro no infinito.


uma coisa realmente triste é não lembrar o sabor do seu beijo. eu lembro, sim, eu lembro, como você me fazia (me) sentir, lembro a sensação de desejo, ternura e aconchego, mas o gosto?  como era o gosto? 


Se a gente quisesse, se meu dinheiro desse.


Estou envelhecendo, né. Já suspiro, em pensamento, imaginando encarar aquela escada de casa daqui uns quinze anos. Não me atrai. Lavar três banheiros e um lavabo? Não quero. E, principalmente, suspiros, limpar os livros. Todos aqueles livros que se apegam à poeira com a mesma intensidade que eu me apeguei a eles. Ou mais. Estou envelhecendo, estou envelhecendo, estou envelhecendo, não quero magoar o joelho subindo escada, não quero escorregar lavando banheiro, não quero ter crises respiratórias limpando livros. Estou envelhecendo, tenho que começar por algum lugar a lidar com isso, daí resolvi doar mais uns tantos livros. Desapegar. Tá até na moda. Era pra ser mais fácil, viu. Tento estabelecer critérios: livros que consigo no kindle, os policiais, os que nunca reli, os que já reli bastante, os mais velhos, os menores, os maiores, os clássicos, só os de determinados autores de quem tenho muitos, só os de determinados autores que só tenho uma produção, estes, esses, aqueles, alguns, quais, quais, quais.


Eu sinto tanta falta do outono que até lixo no quintal me enternece:







segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Nunca é apenas


“Você só diz isso porque você é gorda”. Bom, eu sou mesmo, não pretendo deixar de ser e não vejo como um elemento da minha vivência poderia desmerecer um posicionamento meu sobre o assunto. Mas, olha, nem é “por isso”. Eu já tive, depois de ultrapassar 1,60m, ou seja, vida jovem e adulta, pesos variados, desde o 47 mais ou menos. Fotos minhas pós-gravidez chegam a ser meio assustadoras, de tão magra que eu estava. E sempre pensei essas coisas mesmas, com maior ou menor profundidade. Os argumentos podem ter melhorado, mas a sensação sempre foi a mesma.

um mundo em que uma criança que ainda nem aprendeu direito a falar "não se preocupe" já tem opinião sobre o que engorda é um mundo em que me custa muito viver (não coloquei nenhuma vírgula porque é bem difícil respirar mesmo, às vezes).

uma coisa que não faz sentido nenhum: perguntar se é namoro ou amizade. não são coisas excludentes, pô.

outra: dizer é "só" atração física. olha, atração física nunca é um apenas.

O Método Kominsky demanda um tubo de oxigênio e soro caseiro, a cada episódio. É uma Scania atrás da outra me atropelando, termino desidratada. A série entrega muito, eu me enterneço, rio e me deparo com meus medos, alegrias, angústias. É uma série madura, com temas delicados, diálogos inspirados e atuações envolventes. Envelhecer e sua beleza (a beleza é complexa). As perdas. A solidão. A amizade. A amizade, a amizade, a amizade.


Efeito colateral da estréia de Amiga Genial: enxurrada de expressões que me enervam, que nem esquedomacho, na minha TL. 

Ei, Luciana, você vai ver a série? mas não foi você que nem gostou dos livros? então, eu não achei os livros esta paçoca toda, mas eu li tudinho (eu leio até Sabrina se ainda cair na minha mão, gente, eu li Sidney Sheldon, leio demais a Ferrante). não considerei a tetralogia maravilhosa, achei ok. Vou ver a série, mesmo que seja bem fiel aos livros é outra linguagem - além disso  foi filmado na Itália, os atores são italianos, quem vai se desmanchar com o sotaque? o/

eu não sei paquerar. 

quem sabe eu mando uma garrafinha: pode ser ou tá difícil? ou o cartão da Renata Lins. 

eu gosto de mar. de boteco. de conversa sem rumo. de beijo na boca. gosto de gente. de prédios antigos. de fazer a mala. de comprar passagem. gosto de torresmo. de queijo, gosto muito de queijo. gosto de abraço, de contar história. de contar muitas vezes a mesma história. de ouvir. de abraçar. de fazer ciranda no terreiro, de fazer ciranda a beira mar, de fazer ciranda em reunião, aula, o que for. gosto de blusa decotada. gosto de batom vermelho - mesmo esquecendo de usar. gosto de cafuné. gosto de pele com pele. gosto de fresta, de brecha, de fenda, de deixar em aberto. gosto do quem sabe. gosto.

"tem que ter perna batendo com perna, 
coxa roçando com coxa, 
no umbigo e no pescoço, 
tem que ter um roça roça toda hora, 
um pra dentro outro pra fora, 
pra gente sentir o gosto"


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Azul



Eu não encontro meu HD. Nem meu bom senso.

O amor é azulzinho. E a parede também.

A vida capricha na puxada de tapete.

Entreabrir a persiana ou escancarar a janela não faz diferença, será dia enquanto for e, depois, não mais. Vale o mesmo pro amor, acho.

Eu podia te fazer feliz, mas a felicidade não existe, escrevi em algum lugar e quase acreditei.

Eu sempre gostei da idéia de envelhecer. E tenho gostado do processo propriamente dito. Mas ninguém me avisou quantas saudades iam aparecer pra eu sentir. 

Todo amor acaba. Todas as pessoas morrem. A diferença entre a caixa de kleenex e o conto de fadas é o que chega primeiro. Final feliz é quando a gente morre antes do amor.

Sim, eu já escrevi tudo isso. Enquanto eu for em vazios, me ocupo como dá.

Quem eu fui continuo sendo, por isso copio e colo meu mal-dito.

Morangos. E mofados. Vontade de te mandar este livro, todo pintadinho com meus afetos.

Que jogão Boca X River. Futebol maior que avida, eu já disse? (post tão bom sobre a final, aperte aqui)

Parece que eu vou voltar pra Clarice.

Estamos brincando de cinema lá pelo FB. 10 filmes que me marcaram. Eu rio, claro. Eu nem sei dimensionar o lugar do cinema na minha vida. Como disse pra amiga, eu amo, amo, amo, todas as pessoas que fizeram todos esses filmes que me forjaram, que me sustentam, que me consolam, que me inspiram, que me nutrem. Todos estes filmes que iluminam minhas trevas, sim, mas que acolhem minhas sombras. Todos estes filmes que me completam, sim, sim, como não? e todos estes filmes que gritam minhas brechas. Filmes antigos, como eu nunca serei. Novinhos, como nunca fui. Meu amor pelos irmãos Lumiére e por todos que re-inventam o cinema cada vez que contam uma história.

Vai ter Toy Story 4 e eu nem duvido que vai ser maravilhoso.

2019 promete mazelas, tristezas, perdas, cansaço. Mas janeiro, ah, janeiro, meu janeiro será em abraços.

Eu queria ter te amado melhor, sabe. Não mais, não há régua ou balança para dimensionar bem querer. Eu não podia ter te amado mais, eu te amei inteira, eu te amei em cada linha escrita, eu te amei em cada livro ou disco enviado, eu te amei em lábios e pele e ânsia. Mas sim, eu queria ter te amado melhor.

Voltar para um abraço como quem atraca no cais. E deixar o lodo cobrir o casco.

Querendo trocar o nome do blog para "a coisa mais fina do mundo". Mentira, queria inventar blog novo, mas ninguém vai comigo, né? Se duvidar, nem eu.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Strip, claro

Estou tentando me convencer que o que vale é a experiência, o aprendizado, o conhecimento construído porque ganhar dinheiro mesmo com meu doutorado parece que é nunca.

E não tem quem desate o nó que se ata, não consegui tirar um artigo que seja da bicha. Pelejo, mas fico emperrada e só escuto o sussurro por dentro: ela ainda não vale nada.

Eu sou capaz de pensar em dez filmes favoritos de faroeste sem nem respirar, se duvidar sou capaz de pensar dez só com o John Wayne.

Comprei pastas, pastas coloridas. Agora vai.

Sou um fracasso como mulher autônoma: não consegui montar meu apoio ergonômico, aka suporte pra pés.

43 anos, já tá bom de começar a me endividar por razões mais maduras, né.

Faço longas cartas pra alguém.

você lembra, lembra, naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos...



Queria estar falando ternuras. Entre sussurros de bobagens carinhosas: deixa eu ficar no seu abraço. Queria escrever, como quem lança sementes em terreno fértil: amor, desejo, ontem, sempre, quando, depois, agora, querido. Queria poder tocar. Ignorar geografia e tempo, estender a mão, leve, fortuita e delicadamente encontrar sua pele. E deslizar, como quem reconhece território para nele fazer morada. Queria ouvir seu forasteiro gemido, porque a voz do Outro é estrangeiro que às vezes faz morada. Queria não fazer planos, descansando o amor na certeza de um agora. Queria dividir o travesseiro. Encaixar minha coxa na sua. Queria era cuidar de miudezas: pão, cebola, café, alimentar o corpo, saciar o desejo. Enfileirar cervejas, esse cruzamento de estradas que somos. Queria era facilitar sua vida. Cantar, como o Chico, que ajeitava o meu caminho para encostar no seu. Queria era passar estações, reclamar do frio, reclamar do calor, celebrar as mudanças com você. Queria ver a lua. As luas. Minguante a cheia, deixar a vida fazer seu ritmo em uma cama compartilhada. Queria era dividir sonhos. Segurar na mão. Saber do trabalho. Fazer álbuns. Enfileirar poentes. Queria era mergulhar no mar e lamber o sal no seu pescoço. Entrelaçar dedos. Rir junto, olho brilhando. Queria abraçar com fome, desabotoar camisa, acordar a tua vontade. Queria ser repouso, depois. Alegria, durante. Queria era lhe ver cochilando no meu ombro. Queria diminuir distâncias. Fazer pontes. Não posso. Escaneio memórias, rabisco perguntas. E conjugo futuros dos pretéritos.

Status: reescrevendo textos, quero mais é uma realidade inventada #claricefeelings


domingo, 4 de novembro de 2018

Meias Verdades

“Não tenho ambições nem desejos 
Ser poeta não é uma ambição minha 
É a minha maneira de estar sozinho”


Ser sozinha é a coisa mais triste que existe.
E eu não sei viver de outro jeito.

Uma semana fria: mamão, melão, uva, iogurte, leite e cereais.

Assistindo ao documentário “Feministas: o que elas estavam pensando?”, que está na Netflix, não consegui – ainda – me livrar da sensação dúbia que me acompanhou. Por um lado uma intensa empatia e afeto por aquelas pessoas, aquelas mulheres, seus sonhos, suas realizações, suas frustrações, suas dúvidas; por outro uma avassaladora sensação de inutilidade, de impotência, de irrelevância. Chorei litros, claro.


De tudo, tudo, vai comigo a questão: “o que vai matar você?”

Não é que eu mesma seja triste, nopes. Sou das alegres. Ou nem, sou das contentes – se é que há real diferença.

Eu tenho essa curiosidade de saber o impossível, se e como sentiriam a minha falta. Mas já dava pro gasto saber se você me lê.

Estava fazendo a ronda de sempre nos blogs que leio e fiquei matutando. Eu sempre hesito quando me perguntam de onde eu sou. Devia ser uma resposta simples, não é? Ou dizer onde moro ou o lugar de nascimento. E, no entanto. Pois é. Há muito que eu não sei dizer sobre mim, não porque desconheça, mas porque as palavras são insuficientes. Ou a coragem para enunciá-las, vai saber. Eu sou daqui, de mim, poderia dizer e não seria falso. Mas também não seria a verdade. Ou não toda, sussurra a psicanálise.

Todo mundo falando de como esta campanha adoeceu as pessoas. Não sei quem fui que liguei para o analista depois de uns 20 anos da travessia, seja da rocha da castração, seja da fantasia. Não, não deixei recado. Ainda.

Minha irmã já arrumou a casa pro Natal e eu tenho livros empoeirados decorando a escada.

A verdade é que estou precisando de mar. Deixar arder o sal nas feridas. Mergulhar e confundir maresia e lágrimas. Lavar a alma ou tirar a areia do biquíni, sei lá.

Eu poderia te amar, mas nem eu nem você sabemos ao certo o que isso quer dizer.

[haveria muitos beijos. e abraços. e cafunés. e pernas enroscadas. e toques, muitos toques. mãos que se encontram meio sem porquê. e cafunés, eu já disse? e nariz fazendo cócegas. e abraços no meio de uma praça, apenas para rimar com o tempo que já foi - ou que podia ter sido]

E, no entanto, não há verdade maior do que cantarolar, enquanto releio cartas antigas, “se você quiser eu vou te dar um amor, desses de cinema”. Foi assim que aprendi a amar, suspeito. Com desvios encabulados do olhar e lábios oferecidos. Não, não foi a amar que eu aprendi, foi a saber histórias. Se você quiser, eu vou te dar uma história de amor, dessas de cinema.

Então, fica o plano: um fim de semana na praia, antes do ano acabar. E, por agora, o filme do Chet Baker. Obrigada, Netflix.
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