quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Ser Só

Ser humano é ser só. Vou escrever com batom no espelho pra ver se não volto a esquecer.

A memória é uma ilha de edição. O problema são os operadores que, pelo visto, só sabem montar drama no meu circuito atual.

Status: puxando o band-aid em movimento único.

Água, minha netinha? Azeite, vovozinha.

As mãos nuas, os escombros e a dúvida que não me deixa parar de cavar: alguma vida ainda por salvar?

Se eu pudesse. Se eu soubesse. Se me fosse dada a arte. Eu faria, do dolorido, vínculo. Vou aprender kintsugi.

Mas é que também tenho sombras. E elas são estranhamente confortadoras.

Vira e mexe e eu volto pras referências de sempre. Eu me repito. 

E ainda tem quem pense que solidão é uma questão de geografia.

Quando se amou tanto assim, pode-se ter certeza de conviver daí pra frente com um membro fantasma.


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Aquela hora da madrugada em que, entre o sonho e o susto, você respira e percebe: está no lugar certo.

Aí o moço, no programa de culinária mais corrido do Universo conhecido, faz um "risoto de raízes" usando legumes no lugar do arroz. Já vasculhei o google e não achei nenhuma referência ou receita. 

O momento seguinte àquele em que a gente arregala o olho e pensa: isso aí, bem agora, estou sendo feliz. 





sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Míope

Agora é semioficial (não é oficial porque não fui ao oftalmologista ainda): minha miopia voltou. Não posso garantir que voltou sozinha, mas ela, pelo tempo de intimidade que já gozamos, eu sei que está por aqui. Fiz aquele teste: cobre um olho, lê as placas, cobre o outro, tenta ler... e é certo que não consigo ver com o olho esquerdo o que vejo com o direito (isso não é uma metáfora política). Demorei a fazer esses gestos simples, mesmo com todas as bandeiras desfraldadas e os sinais contínuos. Porque? eu não queria saber. Mas o mundo borrado vinha vindo. Eu já não conseguia ler ou escrever sem uma dor de cabeça que não me é usual aparecer. Não conseguia estudar e ficava inventando desculpas pra legitimar o procrastinar das atividades urgentes. E disfarçava pra mim mesma sobrecarregando o outro olho. Enquanto estivesse lendo as legendas na televisão estava tudo bem - eu me enganava. #SouDessas

O olho que já não vê bem é o esquerdo. O que não te olha de frente e que teima em escapulir buscando outros horizontes. Quando fui fazer a cirurgia de correção da miopia o médico me propôs fazer junto a cirurgia pra "arrumar esse defeitinho". Eu ia até "ficar mais bonita" Eu não quis. Esse defeitinho era meu. Era eu. Passamos tanto tempo juntos, aparecemos em tantas fotografias, paqueremos tanta gente, eu não estava certa se me reconheceria sem ele. Hoje fico meio entristecida sem saber se a cirurgia que me tiraria o desvio me deixaria sem miopia por mais tempo. Porque é certo que esse olho tem trabalhado cada vez menos sem a lente de silicone que o mantinha mais quieto. E, talvez, esse pouco agir o tenha feito ir desistindo de ser - ou ver - sabe-se lá.

Estou escrevendo aqui pra ver se me animo a fazer alguma coisa que não sei ao certo o que é. Mentira, sei exatamente: achar um médico, fazer exame, comprar óculos. Só não sei é o como. O quando. O com que dinheiro (pois sim, a materialidade das contas bate a porta e, lógico, eu vou ter o dinheiro, mas, né, não vou ter outras coisas).
Mas, principalmente, não sei direito como lidar subjetivamente. Porque a cirurgia foi num quando muito específico e trouxe implicações metafóricas muito expressivas que, agora, tá sendo complicado olhar pra trás e ressignificar.


Enfim, escrevo aqui e percebo a ironia, escrevo pra ser vista, mas escrevo cedinho, quando nem todo mundo vai ver. Ou seja.

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Há muitas razões pra se gostar do outono e mais essa: hora de dormir.

Anotem aí: e tão bom quando é bom.

Tenho medo. De quê? De que não ver seja, novamente, não me ver.


terça-feira, 7 de outubro de 2014

Segundo Turno

Péssimas razões pra ser contra o governo Dilma: “marco civil é censura”, “apertou a mão do Fidel”, “bolsaesmola”, “alternância de poder (como alguém já disse, então sorteia, né), “ela é sapatão”. Não vou nem discutir, nessa lista aí o que não é falta de informação é falta de empatia.

Razões pra ser contra o governo Dilma: tratamento dado às questões LGBT, Belo Monte, tratamento dado aos índios, apoio à repressão policial, tratamento dado às questões da mulher (regulamentação do aborto legal, por exemplo), alinhamento com o agronegócio, descaso com a reforma agrária. Pra ficar nas prementes (mas não me parece que o plano do governo Aécio encampe melhorar qualquer um desses aspectos e é piorado com a declaração do candidato de que é a favor da redução da maioridade penal).

Então, Luciana, porque mesmo você continua apoiando a continuidade desse governo? Eu poderia falar das cotas, do Prouni, das Severinas e sua autonomia com a Bolsa Família, podia falar que o Brasil saiu do mapa da fome pela primeira vez na história, podia falar do aumento do acesso ao ensino superior, da interiorização das universidades. Mas a minha razão é pequenina e pessoal: eu voto na Dilma porque a casa do tio Manel tá toda azulejada. 

Disse o Marcelo Freixo (esse lyndo) que nas eleições quem tem que vencer sempre é a democracia. Então, sim, eu estou aqui me esforçando pra não catalogar as pessoas que vão votar no Aécio apenas porque vão votar no Aécio. E tem sido duro. Mas, vá lá, eu respiro, lembro do Mário Covas e fico na minha. Mas confesso que  caso o argumento inclua identificação com a proposta da redução da maioridade penal ou qualquer um dos argumentos ali do primeiro parágrafo; se chama a Dilma de anta, gorda, porca; se propaga montagens toscas com falta de empatia e respeito com o gênero ou orientação sexual e, especialmente, se demonstra insensibilidade com os ganhos das pessoas do interior do Nordeste, sinceramente, eu não sou tão evoluída a ponto de relevar. Meu coração se aperta, dói e sim, eu passo a te ver diferente. 


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A Velha Debaixo da Cama

Acaba tudo ao mesmo tempo: o dinheiro, o gás, a tinta da impressora, a validade do cartão de transporte, a paciência, as idéias, a preguiça de lavar os pratOPA, essa aí não acaba nunca.

Tem uma rede social nova e eu já estou gostando de lá. É simples e mesmo assim ainda não sei usar direito. Mas é arejada. Estou pensando em usar como quintal, terreiro, mais intimidade e riso.

Porque é madrugada, podiam ser seus dedos em minha pele, tua pele em meus dentes, teus dentes nas minhas coxas, tuas coxas nos meus pelos, teus pelos na minha língua, tua língua nos meus olhos, meus olhos e eu – perdidos.  

Suspeito que o amor é meio como o vírus da gripe. A gente chama pelo mesmo nome, tem sintomas parecidos a cada episódio, se protege com vitamina c e sei que lá... mas dada sua capacidade de mutação, é sempre novo e costuma nos pegar desprevenidos.  

Quando a tese não está andando vou pra cozinha, limpar ou cozinhar. Só quero dizer que, nesse minuto, tenho a pia, o chão e o fogão absolutamente impecáveis, brilhando e cheirando bem.



Exclusividade nos relacionamentos: não trabalhamos, Relacionamentos não precisam ser excludentes - os afetos não o são. Ter mais de um relacionamento afetivo-sexual não significa que um dos relacionamentos é insatisfatório (a não ser na medida em que TODOS são, porque ninguém completa ninguém completamente, aliás, nada o faz). Não há nada que um terceiro ou terceira possa "tirar" do meu relacionamento. Não me prejudica que meu moço beije, converse, faça sexo, acolha, aprenda, troque com outras pessoas. Só acrescenta à vida dele e, assim, à nossa. Da mesma forma, o que ofereço pra outras pessoas não é dele que estou tirando, não o estou privando de nada, estou vivendo o meu desejo. Posso amar várias pessoas, Eu amo. Tenho vários amigos e nenhum deles se sente menos querido porque tenho outros amigos. Porque o mesmo não pode rolar em relação às pessoas com quem faço sexo?

Uma coisa sobre mim: eu completo as frases das outras pessoas. Uma coisa sobre os portugueses: eles não gostam.

PS. A bem da verdade, não sei se gostar é o verbo adequado. Eles (e, claro, estou falando do limitado universo com quem interajo que pode ser uma amostra aleatória completamente equivocada) costumam se inquietar se a frase não sai exatamente com as palavras que desejam usar. Sabe como a gente usa, tranquilamente, "coisa", "negócio", "treco" substituindo qualquer ideia? Aqui, não. Nem um bom sinônimo serve, tem que ser aquela palavra precisa, "modus que" eles gaguejam e fazem intervalos no dizer e eu, ansiosa, ofereço alternativas. Ou seja, eu completo as frases. Eles não gostam 




quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Como esquecemos Malta?

O comentarista do jogo diz que os jogadores do Coritiba estão correndo errado. Olha, resumiu minha vida. E meu estilo. Inclusive de corrida.


Sim, nós estudamos juntos. Bom, não exatamente juntos. Há tantas distâncias na meninice. A sorte é que a memória faz véu. Adultecemos. Mas, antes, espaços. Somos tão outros. Outra sorte é o amanhã. Que chega. Bom, estudantes. Mesma escola, mesma classe. Mas nos seus dez anos o universo era uma mochila maltratada, bola, jogo de bila, bicicleta e umas revistas em quadrinhos que eu esticava o olho pra saber quais. E nunca. O meu universo? Quase sempre, ele. Papéis de carta. E colecionar rótulos. Até que um dia. Dever de casa. Em grupo. Todo mundo na minha. A mesa da cozinha cheia de enciclopédias, pernas curtas, cadeiras vizinhas, as cabeças quase encostadas lendo aquelas letrinhas miúdas. Malta. Uma ilha, né? É. E em nenhum outro tempo ou lugar fui mais feliz do que naquela ilha. Aquela ilha era seu cabelo caindo na testa. E os dentes que mordiscavam a tampa da caneta. Aquela ilha era a letra caprichosa na cartolina amassada. Amarela. A cartolina era amarela. Nós, na ilha, e as descobertas. Malta pode vir do fenício: Maleth, ou seja, paraíso. Claro que veio. Que dúvida. Ele ali, na minha cozinha, braço encostado no meu. E eu imaginando o futuro dos meus papéis de carta. Mar Mediterrâneo. A felicidade é azul. Desejando esse mergulho. Era assim o depois: permanecer. É difícil fazer planos quando o agora é a pele que se quer encostada na pele que é nossa. Meninos, vocês querem sorvete? As mães podem ser tão erradas. Mas eles queriam. Ele quis. Cadeiras que se distanciam. Viagens. Exílio. Juntamos material, dividimos tarefas, comemos o sorvete, partidas. Apresentamos o trabalho. Já nem lembro a avaliação que tivemos. Fui esquecendo. Minha mãe jogou fora os rótulos, podia juntar inseto. Os papéis de carta, em alguma gaveta, perdidos. Nunca mais tanto azul. Nunca mais um nós e uma ilha. Cresci. Aprendi solidões. Frases de efeito. Outros meninos, porque não. Universos. Plural. Mas quando não há lua e o marido de agora em abraços repete Bogart, eu penso: é certo, mas Paris não é Malta.