terça-feira, 21 de março de 2017

"A Vida é Tão Bonita"

A sensação é de que estou vivendo em uma montanha-russa. Então, vida, com sinceridade, depois deste março, pode me dar uns anos de rotina, mornas emoções, experiências comuns.

“Você lembra, lembra? Daquele tempo? eu tinha estrelas nos olhos”

Quando sobreviver é a única coisa que importa. Ou, como ouvi hoje mesmo: “nunca na vida concordei tanto com tantas pessoas ao mesmo tempo”. É tipo meu plano de fuga.

Sim, eu tenho medo. Não tenho muita certeza do quê. Achei que ia ser de não ser boa o bastante, mas a quase ausência de superego me livra dessa. De não conseguir demonstrar o quão boa sou, talvez. O que, claro, nada mais é do que uma tática de distração, sou eu jogando a batata quente pros outros.

Eu queria mesmo era você vivo, meneando a cabeça, evitando respostas absolutas e me deixando tão confortável na dúvida.

Suspeito que a solidão é um jeito de existir. 

Cada vez mais desejando a última fala de Don Corleone.


quarta-feira, 15 de março de 2017

Nem ter razão, nem ser feliz

A gente vai aprendendo a morrer. A gente, como você, sou eu, sempre. Onde diz sempre, quero dizer, quando for aqui. Confuso, não é? Ando me sentindo assim. Você também? (neste caso, excepcionalmente, você não sou eu, tese do Nerso da Capitinga). Mas, dizia eu, aprendendo a morrer que é uma outra forma de dizer seguir em frente. Ou apenas seguir, sem muito senso de direção.

A gente teima em sobreviver. E ainda sorri. A gente, já se sabe, sou eu. E ela. 



Estou na segunda temporada de Billion. Não estou gostando tanto quanto da primeira, provavelmente porque tenho gostado de menos personagens. Taylor. O braço direito maluco do ruivo. E, claro, meu barbudo. Dele tenho gostado cada vez mais. Quando ele vendeu os livros, sofri junto. Já o ruivo, que mesquinho. Vai ter que ter muita reviravolta pra mudar o panorama do meu afeto.

É bem assustador ter bem pouco medo do que se deveria temer acintosamente.

Tem essas pessoas queridas. Essa pessoa querida. Com quem eu não falo sempre. Com quem não preciso falar sempre pra saber que posso falar sempre que precisar. Essa pessoa querida com quem posso ficar calada. Ou sussurrar o indizível. 

Nem ter razão, nem ser feliz: passagem de avião.

E claro, as estantes. Os livros. Aquelas temporadas que ficaram no caminho. Agatha em nova edição. Uma nova Tess Gerritsen pra chamar de minha. O mar. O mar. O mar. Feijãozinho com torresmo, mesmo sem os braços. Beber, deitar, dormir, talvez morrer

Por outro lado, papoca tudo. Espinha, rosácea, aquela bomba que a Meredith segurou na palma da mão.

terça-feira, 14 de março de 2017

Por enquanto, jiló

Eu perdi o timing. Eu nunca tinha perdido o timing. Cara, como dói perder o timing.

Não importa se os finais são felizes, mas se são bem roteirizados.

Eu não queria a tristeza resfriando peito, olhos, voz. 

Tem umas coisas que, ao escrever, a cada letra que se digita, parece que se está com a unha encravada e calçando um sapato apertado.

Eu não me lembro de ter tido um medo assim.

Mas há belezas.

Por exemplo, a gente fica sabendo que shilling não está mais valendo. E ri, por dentro. Meu mundo é o mundo de Agatha. Lá, Miss Marple sempre saberá a solução de um mistério pelo valor do troco dado em xelins.

E se tudo der errado, sempre tem amor pra onde eu voltar.

Quando dói muito eu espero um intervalo conveniente, deito no sofá e dou uma choradinha. Ok, talvez minha amiga tenha me considerado um pouco estranha. 

Espero, um dia, ser de novo um riso no canto do seu olho. Um suspiro gostoso e um tantinho daquela saudade que a gente lembra só por lembrar, como cantava o Gonzaga.







terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Mangueira, Oscar e o Som do Coração


Mangueira, um amor. Que desfile maravilhoso. Teve um buraco que eu ignorei solenemente. Acho que os jurados deviam fazer o mesmo. Ou considerar que foi o espaço a ser preenchido pela emoção. Que foi muita. Carros maravilhosos, alas maravilhosas, passistas maravilhosos. E o casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira com os santinhos de proteção me comovendo. O surdo fazendo eco no meu peito. A bateria de São Francisco. Os oratórios. Enredo que fala da gente e pra gente. Os analistas não estão colocando como favorita pro título. Quem se importa? Volta no sábado pra gente ter uma transmissão melhor, tudo que anseio.

Um desejo: desfile da Mangueira começasse hoje e só acabasse na Páscoa.

Eu vejo a gente indo embora e, surpresa, nomeio esse aperto no peito, a garganta travada, a falta de fôlego, o embrulho no estômago: tristeza.

Não é você, eu podia dizer. E seria verdade. Também não sou eu – e continuo sincera. É que não podemos viver naquela fotografia.

Não consegui achar engraçada a confusão da entrega do Oscar de Melhor Filme. Foi tudo tão constrangedor. A situação de Warren e Faye, dois dos grandes, enormes, e as consequentes piadas depreciativas sobre a idade, como se a culpa fosse deles. Fiquei comovida com a esquipe de La la land que precisou lidar com a frustração em cima do palco, na frente das câmeras. Foram elegantes, atropelaram a frustração e reconheceram a derrota com estilo e vigor. E, principalmente, fiquei triste pela equipe de Moonlight que tiveram o brilho da vitória meio empanado pela enfiada de pé na jaca da equipe de produção do evento.

Acho que os Oscars foram, de maneira geral, muito bem distribuídos. La la land, apesar das muitas indicações, não atropelou. E isso, acho, foi bom. Li como sinal do equilíbrio da safra. Eram bons os filmes. Bem bons. Pra destoar, os Oscars de melhor atriz e ator. Quanto ao prêmio de melhor atriz, era pra Isabelle vencer, ela foi gigante em um papel maravilhoso. Mas, vamos reconhecer como funciona a indústria: uma grande atuação de uma atriz “velha” (ou seja, diferente de Cotillard, não é alguém que vai se mudar pra Hollywood) em um filme falado em francês. Torci, mas sabia que era difícil. E o Oscar fica na mão da Emma que fez um bom trabalho e tem uma cena de audição excepcional. Quanto ao Oscar de melhor ator, nenhuma contemporização possível. O “cara de nada” ganhar de qualquer um dos outros já é absurdo, mas vencer a atuação impecável e visceral do Denzel, ah, vá.

Dos indicados a Melhor Filme só posso dizer: que ano bom. Pra saber de que argila sou feita: gostei de todos, uns mais do que os outros. Mas foi em La la land que meu coração ficou. Quase desidratei. Chorei de amor, de tristeza, de alegria, de deslumbramento. O cinema, minha gente, o cinema, que coisa maravilhosa é o cinema.

Uma esperança: um dia um enredo da Mangueira sobre musicais. Os da Broadway, os clássicos do cinema, os filmes brasileiros. Ia ser uma maravilha. 

Revendo cenas de La la land entendo porque me tocou tanto. Nós também poderíamos (poderíamos?) ter sido felizes.

Já faz um tempo que tento escrever sobre La la land mas não acontece. Entre eu e ele há pouco para dizer e muito para sentir. Gosto, gosto muito, do cínico romantismo presente nas entrelinhas (entrecenas?) do filme. Gosto do reconhecimento da impossibilidade. E gosto da doce e temporária idéia de que talvez, se, quem sabe. E o doce/amargo de seguir vivendo. No depois. 

O vencedor do Oscar foi Moonlight, um filme tão bonito e intimista que às vezes me peguei com vergonha de estar assistindo, como aquele embaraço de quando você entra de uma vez num quarto e a pessoa está trocando de roupa ou quando a gente escuta sem querer uma confidência entre terceiros. Como se eu estivesse invadindo a intimidade de alguém. Uma experiência inquietante e, talvez por isso, tão especial.

Quando dói eu lembro: ano que vem tem desfile da Mangueira. As pessoas continuam fazendo filme. Há belezas. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Vísceras

Na calçada do pequeno café fico espiando os que passam. Sei da artificialidade do momento, apesar de sempre ter feito isso: olhado as pessoas. No Circular que pegava sem necessidade, subindo e descendo na mesma parada, o mesmo roteiro ignorando janelas, vendo as pessoas entrarem e saírem do ônibus nos variados bairros da cidade. Ou as horas passadas nos bancos das praças, especialmente a do Ferreira, o olho cumprido se esticando sobre as gentes andantes. Mas aqui, a mesinha de ferro instável, a xícara miúda e o cigarro que seguro errado e chupo no lugar de tragar, tudo isso me faz lembrar um mau personagem de filme de baixo orçamento. Paciência, não saberia mesmo viver sem roteiro. Vejo a brasa se aquietando na ponta do cigarro, chupo, ávida, e uma parte significativa dele desparece. Não sei aproveitar o fumo, é a imagem o que me interessa, acendo um no rescaldo do outro, como se a chama fosse a garantia de me manter em cena. Então, estico a coluna, aceno pedindo outro café e olho, olho, olho. A curiosidade, eu li, afasta e distancia, colocando o observador a parte do que observa. Not me. Quanto mais vejo gente, mais perto, mais dentro, mais sinto os passos deles todos, leves, arrastados, tensos, animados, atrasados, doloridos, ecoando no meu peito. Ser gente é um aprendizado. Que me inquieta. É saudade o que eu sinto ou um arremedo improvisado sobre a compreensão do que se deve sentir em ausências? Não sei mesmo beber essas poções minúsculas de café. Engulo em um trago único, o quente justificando o lacrimejar. As pessoas, borradas, fazem ainda mais sentido. Viver é esse desfile de vidas que não sabemos toda, os transeuntes apenas surgem e desaparecem mais rápido, mas a lógica é a mesma. Alguns já estavam quando chegamos, o tanto que não vivemos com eles. Outros se vão antes de nós, o tanto que nos obrigamos a viver essas solidões. Lembro o que esqueci: o salto alto. A sapatilha vermelha não faz o barulho adequando quando movimento, impaciente, o pé de encontro à calçada. Como eu disse, baixo orçamento. O cigarro esquecido, se apagou. Peço a conta, café, café café, nem conto quantos. Deixo o dinheiro displicentemente sobre a mesa. Uma ensaiada displicência. Respiro e lembro de soltar o corpo. Faz de conta que. E dobro a esquina, ainda buscando, ainda espreitando, olhando. Ao longe, vejo uma mulher de ar atarantado, sorriso largo e tristes olhos escuros. Meu rosto na vitrine. Vísceras.



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