terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Das Invejas

"Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. Digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. Depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim, com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?" (Bukowski)


E tem aqueles abismos no peito. Eu não tenho ciúmes das histórias passadas, mas tenho um tanto de inveja dos romances futuros. As histórias antigas estão nesse você que desejo, que admiro, esse você de quem gosto. Tanto. Mais além: as histórias passadas são esse você. Seus anseios, medos, amores, o tesão que sentiu e saciou, as noites em claro, os sonos e os sonhos compartilhados. Todas as palavras de afeto que ouviu, todos os gestos de carinho que realizou, os amores que sentiu e os que provocou, estão e são, você. Você que eu gosto tanto, que me põe em febre e riso. Daí que não só não tenho ciúmes das histórias que você viveu como tenho um certo chamego por elas. Porém. Pois é. Ali, escondidinha e meio embaraçada por existir, a inveja de quem virá. Porque eu sei a voz rouca de desejo, a mão carinhosa entre os fios do cabelo, conheço a perna que descansará, pesada, entre as que não serão minhas, o conforto do abraço e a fome que há no beijo. Tenho inveja das tardes que passarão ouvindo música, da intimidade na cozinha, dos pequenos acordos verbais que se transformam em brincadeira. Inveja dos momentos em que verão seu franzir da testa e estreitar dos olhos, seu acordar preguiçoso, sua concentração cozinhando. Sinto inveja dos abraços. Sinto inveja das mensagens trocadas à distância. Sinto inveja dos pequenos mimos. Sinto inveja da alegria que se sente quando a gente percebe o gostoso de ser gostada por você. Inveja, sabor saudade.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Ecos

Ele foi apagando os restos de memória feito matéria: os pratos do último jantar já não estão na pia, as toalhas usadas por ela foram lavadas, dobradas e já se perderam no armário cheio, os frascos de desodorante, sabonete e shampoo já foram ao lixo, lençóis de cama trocados vezes e vezes até não saber mais quais os últimos usados em conjunto e mesmo as peças de roupa que ela nunca lembrou de levar embora foram doadas. Ele separou e fechou na gaveta todos os livros, cds, dvds e papéis que ela ofertou. Por precaução, guardou também os que viram e ouviram juntos e os que ela apenas comentou. Nunca se sabe as vertigens que os abismos da memória podem provocar. Com uma convicção que não sabe justificar, planeja: quando a casa já a tiver esquecido, também ele o fará. Nada fora do lugar, como por anos não foi possível, ela sempre tinha um jeito distraído de colocar um livro lido em uma prateleira completamente diferente da que tinha retirado. Ou empilhava cds que esquecia de ouvir. Deixava as sandálias embaixo. De quê? De qualquer coisa, da cama, do sofá, do aparador da entrada. Agora, não mais. Consegue organizar as blusas por cor, no guarda-roupa, e não por aquela ordem completamente bizarra que ela insistia, sorrindo. Ela sorria muito, ele ainda lembra. Ela sorria porque? porque a ordem das camisas a divertia, porque o café estava quente, porque a mão fria na pele quente a arrepiava, porque lembrava de antigas histórias, porque chovia, porque não chovia. Porque você está sorrindo agora? Porque a vida é tão boa de viver, não lhe parece? E parecia, mesmo, naquele momento em que ela o dizia – ele suspeita que a culpa era do sorriso. Ela sorria muito, ele ainda lembra, mesmo com tanto cuidado para arrumar a casa. Dedicou-se a isso, a lembrar do que devia esquecer e a cuidar da casa para que não houvesse vestígios. Limpou, arrumou, organizou. Livrou-se, depois de tempo, saudades e trabalho, até dos fios de cabelo, a marca mais insistente. Recolheu-os todos. Dela, nenhum sinal. Quase satisfeito, percebe: só não descobriu ainda como ignorar o eco do riso nos cantos do peito, quer dizer, da casa.



Uma coisa boa da maturidade: eu não levo mais quinze anos pra entender a enormidade de pequenas gentilezas.

Eu tenho uns pudores e reservas inexplicáveis engraçados (especialmente sabendo como sou). Tem coisas que não tenho a coragem de fazer. Como se eu não merecesse ou algo assim. Fico envergonhada. Ontem, depois de 27 meses de paquera, finalmente tomei uma Imperial no Martinho da Arcada. Estou que os dentes não me cabem na boca.
  

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Aeroportos


As malas maiores já foram despachadas, mas ela ainda parece desengonçada com a bolsa grande no ombro e o casaco no braço quase arrastando no chão, enquanto se perde nos olhos dele ali, um pouco a direita do portão de embarque. O silêncio que costuraram feito colcha de retalho ao longo dos anos agora os aquece e abriga. Desacostumados de carinhos públicos, ele hesita um momento antes de afagar o rosto que lhe sorri, triste, mas sorri. Ela reclina a cabeça e deixa a dor futura 
repousar naquela mão. Ele limpa a garganta e ela sabe as palavras, as promessas, o eterno, um negócio em uma rua qualquer, um outro lugar, eles tão outros, o casal que ensaiaram ser. Ela sabe o sentir em cada intervalo entre as frases a serem ditas, antecipa as cores deste horizonte, seria a narrativa do acordar em pernas entrelaçadas, a cumplicidade simples do café com torrada, as miudezas do dia sussurradas antes do sono. Ela sabe que é preciso descerrar os olhos. Ela sabe que é preciso se afastar da mão. Ela sabe que é preciso não ouvir. Mas teima e fica mais um minuto naquele eterno. É o som que ele repete de limpar a garganta antes do falar – e que a obrigaria a dizer que não acredita, que não pode, que não conseguiria ser essa ela nesse outro lugar com esse outro ele - que a impele ao movimento. Ela chora. Lágrimas tão grossas que deixariam úmido e fértil o viver, se não fosse o sal. No seu sem jeito de sempre deixou casaco e bolsa escorregarem enquanto molhava a boca dele com sua, o sal virando sol, a língua luz aquecendo o dentro, o entre, o tanto. Sem nenhuma palavra, sem nenhuma promessa, sem nenhum eterno ela recolheu bolsa, casaco, futuros e partiu. Com infinito cuidado pra não tropeçar, sussurrou pra si mesma Leminski: um homem com uma dor é muito mais elegante. A si mesma enganando, contou os passos até ultrapassar o portão de embarque e não poder mais ser vista, nem ela, nem sua bolsa enorme, nem a ponta do casaco arrastando no chão.


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Eu vejo as listas das pessoas com coisas a fazer antes de morrer e fico aqui matutando porque não faço a minha.

Mas sei começar a lista do que gosto dessa época de festas: o amigo secreto lá de casa, tender, a festa do escritório, passar uma semana comendo pão com patê, esbarrar na tv com aqueles filmes antigos sobre Natal, brincar de contar iluminação de Natal quando saímos de casa...

O que eu não gosto e não sei: lidar com burocracia e papelada. E não menosprezo a burocracia não. Só sou incompetente mesmo.

Quase me convencendo que só vou ficar feliz cortando o cabelo aqui se raspar a cabeça. Até lá, insistem em usar uma cuia como molde. 

Uma saudade: cadeira de balanço na calçada. 

Gosto tanto de gente que tenho que me conter pra não abraçar pessoas completamente desconhecidas na rua.

A gente se veste pra sair: uma peça, outra, mais outra, camas e camadas na mais pura vibe cebola. Daí entra em um shopping tão aquecido que tudo que apetece é sair andando nua.


sábado, 6 de dezembro de 2014

Ausência

Daqui
O que ela gosta mesmo é do corpo dele estirado na cama. Não tem as marcas de sol que ela se acostumou a ver nos corpos mais ao sul. Mas tem outros registros, do tempo, da vida – nem sempre fácil. Cicatrizes, manchas, ausências. O que ela gosta mesmo é do corpo dele. Os fios mais macios na nuca. O braço dobrado sustentando a cabeça. Os cílios que fazem sombra na face. Os lábios um tantinho separados. A curva dos ombros e aquelas sardas miúdas. As duas covinhas no fim das costas. O quadril estreito. As coxas, estranhamente firmes e aí o lençol, empurrado pelo sono até os joelhos. O que ela gosta mesmo é do corpo dele, o morno que ele expira no sono, os pelos macios no braço que se repetem um tanto mais grossos nas pernas, os dedos longos. O que ela gosta mesmo é do corpo dele, um gosto salgado na pele, o cheiro de mel e madeira, o áspero da palma da mão. O que ela gosta mesmo é do corpo dele estirado na cama, o peso do sono marcando o colchão, enquanto ela se veste silenciosa, revira a bolsa, encontra a caneta, rabisca o bilhete, rasga, enfia o papel na bolsa, reúne as poucas coisas espalhadas e sai sem adeus.

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Detesto quando eu estou distraída de você, aí vem aquele afago repentino e fugaz e esqueço como era não te querer.

Em 2015 eu quero: letras, palavras, frases, parágrafos, capítulos. Uma tese.

É esquisito como uma ausência pode nos ocupar completamente.
  

Suspeito que o amor é meio como o vírus da gripe. A gente chama pelo mesmo nome todos os episódios, tem sintomas parecidos a cada adoecimento, pensa que se protege fechando o corpo vitamina c e sei que lá... mas dada sua capacidade de mutação, o danado é sempre novo e costuma nos pegar desprevenidos. E, claro, costuma nos deixar de cama.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Variações Sobre Os Mesmos Temas

Que importa que você não seja o enfim? eu não quero escrever finais felizes em histórias, quero é pegar estrada, quero é quarto sem vista pro mar, sem janela, sem porta, casa muito engraçada feita de cerveja, riso e suor. Quero é cama, pele e música, Quero é seu gosto de cigarro. E sua mão fazendo cócega no meu pé. Quero é você rindo das minhas perguntas e ensinado a mesma coisa vezes e vezes, como se o hábito de inventar desculpas pra ficar perto fosse um objeto antigo que tivéssemos prazer em guardar. Quero é acordar com tua perna pesando na minha, tua barba reescrevendo vontades no meu ombro, tua voz sussurrada acendendo um desejo que é tão meu e tão outro. Quero é fazer do quando, agoras. E fazer, de abraços, portos de ancoragem.



Há coisas que eu vou escrever e suspeito que já escrevi, vou procurar e, bem visto, existia mesmo. Suspeito que só me reste o eco. Era isso: já que não posso voltar pra casa, volto aos mesmos livros de sempre. Eu os conheço, eles me conhecem. São, por vezes, ariscos ou ríspidos, mas com aquele toque de afeto íntimo presente até entre inimigos que convivem a muito tempo.

Porque você sente frio e aí puxa o cobertor por cima de mim. Porque responde ao obrigada com uma piada interna. Porque você pergunta se eu não vou secar o cabelo, coloca as duas mãos na minha nuca e passa um tempão sacudindo os fios molhados. Porque diz: “sempre que quiser” e eu quase vou. Porque aquece o creme antes de espalhar nas minhas costas. Porque planeja futuros que não serão. Porque eu quase acredito. Que tenho um coração. Que há amanhãs.

Sabe o que é estar imerso mesmo no mundo capitalista? Confundir a data de validade do seu passaporte com a do cartão de crédito.



O mar, quando quebra na praia, é bonito... Não sou uma apreciadora ou apologista inconteste da natureza. Gosto das coisas que o homem faz, como almofadões, ventilador e leite condensado. Mas ainda não achei nada, nada, nadinha que me comova como o mar (talvez algum quadro do Caravaggio, a voz da Bethania ou um filme de Ford, mas é - ainda - um talvez). O mar me espanta, atrai, excita, acalma, anima, sacia, provoca. O sal do mar entranha nos desejos. A brisa assanha as idéias. O movimento do mar se instala nos quadris. À beira mar tudo parece mais certo, mais límpido, mais fácil. No mar tudo é flexível e sedento. Ansiado. Tudo que quero fica mais claro quando somos, mar e eu. Fica fácil saber: minha sede não é qualquer copo d´água que mata. Essa sede é uma sede que é sede do próprio mar. Essa sede é uma sede que só se desata se minha língua passeia sobre a pele bruta da areia...