sexta-feira, 18 de abril de 2014

Fundo ou Além dos Olhos de Ressaca

Viver é um aprendizado, né? Uma coisa que descobri sobre mim depois de morar por aqui: tendo que escolher, eu prefiro uma pia com balcão grande a uma máquina de lavar louça.

Pra mim as dores e tristezas da vida ou da morte não estão no “o quê” mas no “como”.

Quase sempre é riso, pele quente, vontade. Quase sempre é conforto. Quase sempre acredito. Quase sempre espero. Quase sempre encontro. Quase sempre é você.

Tenho vontade de te fazer promessas que nunca cumprirei, Lisboa.

Tá lá, na comédia da vida privada: “Se eu fosse o grande amor da sua vida e você fosse o grande amor da minha, a galinha tinha dois pescoços”. Porque é bem isso, nem adianta viver infeliz sacrificando o desejo de comer pescoço, nem adianta como prova de amor abdicar de um pescoço insignificante.

É preciso sentir medo. É preciso sentir falta. É preciso sentir. Recito baixinho, como uma prece. Pra me convencer. E não escutar o silêncio de um peito desabitado.

Eu queria te fazer saber. Conhecer. Ouvir as palavras que não sei dizer, a histórias que não sei contar, as memórias que não consigo partilhar. Queria te mostrar quem eu sou bem no fundo. Mas ninguém sobrevive a tal mergulho.



Eu me perco. Nunca aprendi a assoviar, piscar, nem levantar as sobrancelhas. Não ando deslizando. Empilho livros ao pé da cama. Rio alto, gesticulo muito, sento de perna aberta. Sei fazer panquecas. Não sei responder minhas perguntas. Detesto lavar roupa. Conjugo os verbos direitinho. Não falo italiano. Não faço bolo. Dou cafuné. Não aprendi a nadar estilo borboleta. Sento no chão, coloco salto. Às vezes confundo direita e esquerda. Nunca terminei de ler Ulysses. Abro os olhos, abro janelas, abro o peito. Tenho péssima memória. Durmo e acordo fácil. Não tenho frescura. Aprendi a dizer adeus. Invento origens pra palavra patagônia. Divirto-me na cozinha. Sei fazer perguntas. Gosto de aprender. Durmo nua. Vez em quando, escolho solidões. Tenho paciência. Bebo cerveja, bebo vinho e, em noites de lua, bebo sonhos. Fico quietinha. Nunca me falta assunto. Jogo buraco. Mudo de opinião. 


sábado, 12 de abril de 2014

Ficar Doente: Não Curto

Ficar doente. Não curto.

É isso: corpo de quem levou uma surra de pau. Um tantinho de febre. Nariz que parece um chafariz como na musiquinha infantil. E a garganta fechada para balanço. Esse é o quadro. E o que dói mais é o que está na parede da memória, vai entender.

Merendei chapéu de couro, almocei capitão... não sei vocês, mas acho que ficar doente me deixa meio vulnerável infantil.



A cozinha é minha. A casa é minha. Sozinha, passeio nos silêncios de cômodos que são espelhos do sem som que é o aqui dentro. Eu tenho um coração, acho. Mas está calado. Não há estetoscópio que capte o soletrar do vazio. Abro as janelas para despistar as trancas que mantenho firmes onde interessa. Há luz, é manhã. Faço café enquanto desafino uma música do Chico. O Buarque. Talvez a culpa seja dele. Uma boa idéia, essa: foi ele que me estragou para o mundo com seus que serás e todos sentimentos. Cantarolo a lembrança: preciso não dormir até se consumar o tempo da gente. Resultado: olheiras enormes me acompanham desde então. Rio um pouco, tão mais fácil colocar a responsabilidade em alguém. De preferência alguém assim, que nem ele, que nem sabe do meu existir. A xícara, quente, conforta. Seguro firme com as duas mãos. Encosto no rosto. Café forte, preto, denso, açúcar só pra brincar de não travar na boca. Me inclino na janela, deixo o vento frio fazer sal no olho.  Espio a parede. É só isso que tem pra ver da janela: uma parede branca, meu manjericão que morre-não morre, o varal de roupa sem nada pendurado. E o vento, que brinca no meu cabelo lembrando que o café é amargo pro dia não ser. Concordo e ensaio uma risada. Gosto do som. Se levantar a cabeça, o céu é azul, azul, azul. Nenhuma nuvem. Não levanto. Fecho os olhos, mais um tanto do quente na língua, e pinto meu céu das cores que quero. Laranja, vermelho, roxo. Indo um pouco mais longe, faço meu céu impressionista, deixo as formas perderem o contorno e borro os olhos de vontades. Chamo a isso fome e vou bulir nos armários. Tapioca? Não, lembranças demais. Pão com queijo na chapa? Não, apressado demais. Pão com ovo? Torradas francesas? Waffles? (começo a delirar, claro, nem sei fazer isso). Tenho vontade de mim. De me saber. De me lembrar. De mergulhar na solidão. Acolher. Aceitar. Que comida tem sabor de tempo e sertão? Chapéu de couro. Isso. Na mesa: tigela, colher de pau, farinha de milho (3 xícaras), farinha de trigo (3/4 de xícara), açúcar (1 colher, se for mascavo, melhor), sal (uma pitada ou duas), fermento, 1 ovo, manteiga (1 colher bem cheia), leite a gente coloca no olho, mexendo e esperando chegar no ponto. Mexer, mexer, mexer. Fez pasta? Bora temperar: canela, queijo coalho ralado ou em pedacinhos pequenos, cravo, coco ralado. Não tenha medo de sabores. Não tenha medo dos cheiros. Não tenha medo, eu vou fazendo e pensando no chapéu de couro e daí praqueles homens fortes, serenos, rústicos que me abraçavam com mãos calejadas e sobreviviam todo dia sem certeza nenhuma. Sou sertaneja. Sou a terra esturricada do meu sertão. Sou árida e sedenta. Esverdejo muito depressa, qualquer chuvinha me alegra. E logo passa. Vez em quando o coração racha em fendas, como o solo. Que qualquer úmido amor amolece. Pego a frigideira. Manteiga até cheirar, com a colher grande pensa que faz panqueca, não esquecer de virar, eu deixo as beiradas queimarem um pouquinho, isso concentra o sabor. Um, dois, três…vou empilhando, sei que vai durar o fim de semana inteiro, não faz mal, é comida virada que não deixa de ser gostosa. Mais café, chapéu de couro na mão sem guardanapo, lamber os dedos depois, mordidas grandes. Meu sertão é generoso. Deixo o gosto do bom chegar bem dentro, bem fundo, fazer saudade, fazer promessa. Respiro. Não é culpa de ninguém: a fome é minha. A cozinha também.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Espelho

Sabe aquela música do Noel Rosa, ô seu garçom faça o favor de me trazer depressa... pois é, eu queria saber o resultado do futebol e eu não tinha nem garçom, nem freguês na mesa ao lado. Só me restava procurar o jornal, não é? Aqui, uma pequena digressão: eu não tenho nada contra tecnologia, inovação, essas coisas. Eu gosto muito da internet. Eu não separo mundo real e virtual. Eu só sou meio lenta (era em 2010, permaneço ainda). E tem algumas coisas que me incomodam, pode ser que eu supere depois.
Enfim, o #mimimi do dia: eu queria saber mais sobre futebol e lá fui atrás do tipo de jornal que eu reconheço na net: a página do Terra. Mas fiquei completamente bêbada. Sabe o caos? É organizadinho perto do que encontrei. Uma profusão de imagens e manchetes em movimento e uma série de promessas do tipo: quanto mais você usar, mas o site vai ficar parecido com o que você gosta, mais ele vai te oferecer as notícias que parecem ser as que você sempre procura. Fui até o UOL e que coisa difícil saber o basicão: quem jogou, quanto foi, quais os próximos jogos. Eu sei que pras pessoas que navegam com frequência por essas ondas pode ser atraente. Pode ser. Não sei. Pra mim, que venho espiar a janela em busca de horizonte, foi assustador. Ponto, parágrafo. 
Esse lance aconteceu também com o google, né. Não com o mesmo aspecto zoado, visualmente parece o mesmo, mas agora as respostas que ele me dá não são as mais comuns, mas as que ele julga mais parecidas comigo. Eu não estou pronta e acho que não quero esse mundo customizado. Me inquieta. Me preocupa. Me perturba. Um mundo feito à nossa imagem e semelhança. Mais e mais do mesmo. Todos os dias abrir a janelinha do mundo e ver apenas o que se espera. Uma profusão de narcisos, um mundo em que não temos rachaduras (e eu lembro da professora de psicologia social e sua tese bem interessante sobre como o capitalismo flexível constitui mais e mais estruturas narcísicas e daí deslizei pra o estudo dos discursos e como o discurso do capitalista "não promove laço social" e como para que haja laço social é necessário reconhecer a incompletude, é preciso reconhecermos que não podemos fazer, nem dizer nem pensar tudo sozinhos. Precisamos que o Outro nos aponte nossas falhas de pensamento, precisamos nos dirigir a esse Outro como lugar que nos faz ir além de nós mesmos. O enfraquecimento do laço social se dá justamente nesse processo de localizarmos nossos “parceiros” como simples objetos de fruição, que nada acrescentam, que nada questionam, que nada retiram - retirar também, né, é preciso questionar as certezas - do nosso saber). 

Eu não quero as buscas do google mais similares às que já fiz, eu quero as buscas do google apenas. Eu não quero propagandas pinçadas das minhas conversas me oferecendo coisas que eu já sei que gosto. Eu não quero encontrar as notícias mais parecidas comigo, Terra, eu queria chegar aí, na sua página e ter um panorama do mundo. Queria ter a oportunidade de ver notícias de Costa Rica e do Afeganistão e de Crateús sem filtro prévio. Não quero apenas os resultados do Flamengo. Não quero apenas as matérias sobre feminismo. Não quero apenas o meu mundo. Quero poder saber. Eu não quero ver e saber apenas sobre o que eu já sei e vejo. Não quero apenas o que me é idêntico. Não quero uma bolha construída por outrem, minha bolha (assim como meu caminho pelo mundo) eu mesma faço. Eu quero descobrir. Eu quero aprender. Eu quero pensar. Eu quero diversidade. Eu já tenho espelho, obrigada. 
Ou assim
Esfrego os olhos, borrando o agora e brinco de confundir sonhos e realidade. Faço caretas pro espelho que não me sorri. A imagem no espelho é sempre de uma aterradora atualidade, não há antecedentes. Nenhuma história. O espelho ignora futuros. Despreza intenções. A imagem é o que é o que é o que é. Abandona a interrogação. Ela simplesmente está. A imagem no espelho não sabe sobrenomes e desconhece o passado. Como saber o viver se nenhuma memória é possível? O espelho decifra e devora. 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Solidão, Mariscos e Outros Devaneios

"Amor feinho não tem ilusão
o que ele tem é esperança"

Acho que o que mais me aperta o coração é não ter com quem partilhar esse cheiro na cozinha. Faz assim: corta o frango em cubos ou tiras e tempera com suco de limão siciliano. Deixa esperando. Em um potinho mistura gengibre, curry, açafrão, páprica picante, canela, pimenta do reino moída. Corta pimentões e cebolas em tiras finas. Refoga o pimentão, acrescenta a cebola até ela ficar translúcida. Escorre e reserva. No mesmo azeite, bem quente, joga os condimentos, deixa o odor tomar conta da casa, junta o frango e gergelim. Deixa dourar. Coloco uns tomates pelados e a metade do leite de coco. Cozinha por uma meia hora. Junta grão de bico lavado, os pimentões e a cebola reservados, o resto do leite de coco e deixa o fogo baixo completar o trabalho em mais uns dez minutos. Desliga o fogo e joga uma porção de cebolinha picada. Fica gostoso, fica bonito, fica colorido. Só o que me entristece é não ter com quem partilhar esse cheiro que vem da cozinha. O que, claro, é uma dessas ilusões humanas. Ia escrever ilusão romântica, mas nem é exatamente isso, porque mesmo que não estejamos esperando o-grande-amor-da-nossa-vida de vez em quando a gente acredita que alguém, uma amiga, um irmão, um professor, whatever, alguém seria capaz de pensar o que a gente pensa, sentir o que a gente sente, dizer como a gente diz. Inspirar com força e sentir o misto de conforto e sensualidade que esse odor me provoca, por exemplo. Ou o riso no peito de ver o mar. Ou o misto de medo e gozo de ler-me no Kundera. Mas não, né. Ninguém vai. Porque essa é a maior beleza de ser gente: essa inexpugnável solidão. Essa impossibilidade de comunicar da qual, diária e insistentemente, duvidamos, e à qual, insistente e diariamente, combatemos. Sem esperança. A não ser a de continuar tentando. E cozinhando, no meu caso.



Eu vi essa imagem aí de cima no blog da Fal (vocês lembram que eu sempre digo pra vocês lerem, né). E ela passou o dia comigo. Achei tão bonito o que a Fal escreveu. E tão diferente do que eu pensei. Ah, a solidão, da imagem, das palavras, do sentir. A solidão das identificações, até. Das histórias. Ela disse: cavalo. Eu pensei: jumento. Ela falou: desamparo. Eu pensei: propósito. Ela arrematou: fim do mundo. Eu pensei: decisão. Olhei e me vi, meio por fora, na contramão, atrasada, talvez, mas como essa certeza de ter uma porção de perguntas ainda por responder. Todos os dias é meio isso, eu e minhas armas um tanto risíveis, no meu jumentinho manso, indo pra algum lugar que geralmente me ignora.

E eu nem contei pra vocês que apesar dos percalços da tentativa passada continuei minha investigação dos sabores do mar daqui. Mariscos. Já foram as amêijoas (a bulhão), a sapateira e, ontem, navalheiras e percebes, seguido de um Arroz de Marisco (ainda faltam santola, lavagantes e um outro que não aprendi o nome. Mas eu chego lá). O mais divertido foi comer o percebes. Certamente é um gosto adquirido (é bem salgado, sabe a mar) que eu adquiri rapidinho. O menos empolgante foram as navalheiras, parecem caranguejos mirrados e são servidos frios. O restaurante era sensacional, começando pelo nome: Marisqueira dos Pobres. Fica em Matosinhos que tem a maior concentração de restaurantes de mariscos que já vi na vida. Recomendo com empolgação. 

Eu gosto demais. Até aceito o Peninha.

A sensação de que todas as camas vão ficar enormes.

Escrevi esse post aqui no Biscate: Ralo. Tem gente que gostou, gente que elogiou. Era um desses lembretes que a gente escreve a batom no espelho, em brasa na pele, com o dedo na areia da praia, em qualquer lugar, pra ficar ao alcance da mão, do olho, só pra garantir que não vai esquecer. Porque também sou humana e tenho esse ralo enorme no peito.





quinta-feira, 27 de março de 2014

Garrafinhas da Lu


Abrir a janela, inclinar o corpo, espiar o azul até o olho doer. Deixar a noite ficar mais um pouco, como memória, no pijama, nos pés encolhidos em cima da cadeira enquanto assopro o café, no pensamento que vadia. Fazer o cotidiano: banho, dente, arrumar a cama, a pia, temperar a carne da futura fome. Espiar como os amigos viveram a noite nas redes, pitaquear um pouco, começar novas conversas com os ausentes. Blusa, casaquinho, casacão, calça, meia, bota, espelho, riso, que cabelo esquisito, pensar em arrumar, desistir, rua. Ir pelo caminho mais longo só pra beber sol. Gosto do correio, de fantasiar pequenas narrativas para as correspondências alheias. Azulejos nas fachadas. Lilás nas árvores. Vento na pele. Mais esquinas, sacolas de supermercado, o tomate em rubro, o cheiro do manjericão, os cogumelos. Quase Alice. Tirar: bota, meia, calça, casacão, casaquinho, blusa. Deixar os pelinhos do braço gritarem o frio, colocar um vestido leve. Dizer afetos. Trabalhar. Folhear livros, separar artigos. Fazer perguntas. Tatear. Ler e ler e ler. Ouvir: é a chuva. Vez em quando: moldura azul do FB. Cozinhar. Acender o fogo. O forno. A lua, como diria o moço das crônicas. Amassar a batata, lenta, lenta, como quem molda um sonho. Usar as mãos no ofício, cozinhar é íntimo. Refogar, o azeite amorenando grãos e cogumelos. Montar o prato, comer com os olhos. Fotografar pros amigos. Rir de mim mesma. Reconhecer a solidão que faz desejar partilhar o momento. Mastigar: o tempo, a carne, triturar saudades. Engolir o dia. Ainda: chuva. Enroscar no sofá com o livro tão conhecido como um amigo de tanto tempo que a gente nem lembra como era sem ele. Deixar a Bethania cantar o meu sentir. Abrir a janela, aceitar o escuro, de fora pra dentro, de dentro pra fora. Ser a minha noite. E esperar, toda noite, o milagre antes de dormir.
Clandestino. Adoro esse nome. Me lembra viagens, perigos, lugares desconhecidos. Mar. Amar. Ontem fomos a um chinês clandestino. Fartei-me de comida e suspiros.
De vez em quando eu vejo status no FB de pessoas condenando (condenando é uma palavra forte? questionando, avaliando, fazendo considerações sobre) as demais pessoas que, segundo elas, passam tempo demais no FB. Ou que postam fotos demais, de viagem, de comida, de bobices que não interessam a mais ninguém a não ser à pessoa que posta. E eu rio porque, né, essa pessoa sou eu. Meu FB fica funcionando até quando eu não estou - mas eu estou quase sempre. Aqui, do lado de cá do mar, é quase uma âncora. Permite que eu fique. Que eu seja. Que eu permaneça com. Porque eu gosto de gente. Muito. Mas é fácil demais ficar só. Um livro, filmes, comida, música, séries na tv.  E eu tenho um pouco de medo de ser tão fácil. Daí eu lanço minhas garrafinhas. Cada email que me enviam, cada curtida ou comentário no FB, cada pequena conversa no skype são um laço que impedem a deriva. Não sei se há balança ou fita métrica pra definir o quão longe eu poderia ir. E se saberia voltar, aliás.