segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Bóias 6

"ai quem me dera terminasse a espera
retornasse o canto, simples e sem fim"

Fiz 3 pães. Apesar do histórico, um deu errado e os outros, também.

Eu queria que já fosse. Um aparador, um quadro, um riso. Um risco. Tapete na sala. Projeto encerrado.Uma casa encantada. Muito engraçada, mas com teto. Um ano de caramujo.

Eu podia te fazer feliz, mas a felicidade não existe, escrevi em algum lugar e acreditei.

A gente vai acumulando marcas da vida.



Não é difícil saber do que se trata. Já escrevi tantas vezes que só tenho vontade de fazer bricolagem. Aquele ralo na alma. Voraz. E a voz de Meredith narrando a minha vida: More tequila. More love. More anything. More is better.

Eu me espanto como depois de um montão de tempo de convivência, palavras trocadas, textos escritos, ainda ver repetidas as mesmas distâncias. Estilo é foda.

Eu queria falar tudo. Explicar. Esclarecer. Apertar os laços. Encostar caminhos. Responder. Agradecer. E faria já, agora, se não tivesse desaprendido tudo sobre mim e, de quebra, sobre os outros todos.

Escrever até encontrar a palavra certa: o blog como caverna.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Eu li e vi Animais Noturnos. Sugestão: escolham uma coisa ou outra.

Eu vi Animais Noturnos. Eu li Animais Noturnos (mais exatamente li Tony & Susan, livro que foi adaptado para o cinema). Talvez se o filme fosse só sobre o livro dentro do livro tivesse sido melhor. Explorado mais o desenvolvimento de Tony, por exemplo. E a relação com o investigador. Modus que o que se segue sou eu me ressentindo por um livro do qual eu nem gostei tanto.

O livro não é ruim, mas não é bom. Tem umas sacadas bem inteligentes, a idéia é melhor que a execução. O filme é bom. Não excepcional. Toda a parte do suspense e a construção do personagem líder da “gangue” é muito bem feita. Mas o filme todo, pra mim, meio esquecível, apesar das cores maravilhosas. Talvez por eu ter lido o livro, o maneirismo nas reviravoltas não me cativou tanto. Ou talvez por achar que o roteiro acabou escolhendo alternativas fáceis para ficar mais didático. A mudança no perfil dos personagens fez muita diferença, acho. O Edward bonzinho, irgh. As mudanças na trajetória dele, nunca ter voltado a casar e tal, tudo isso afasta o personagem da sombra que ele é na vida futura de Susan. No filme fica parecendo apenas que ela foi escrota em trocá-lo por outro cara. Fica faltando nuance no Edward. O marido atual ser meio fracassado, isso também afeta a insatisfação de Susan. Fica parecendo que é a mesma insatisfação (nenhum homem está à altura das ambições e do sucesso dela) enquanto no livro se trata justamente do espelho, mesmo com um cara bem sucedido e estável o animal noturno que nela habita a invade e domina nas poucas horas em que ela se permite ficar sem controle do que pensa e sente. E, principalmente, Susan ser um sucesso nos negócios e ter tanta vida “fora”, isso muda demais os signos todos da história. Acho que facilitou o pareamento casamento Edward e Susan/O que rola no livro escrito por Edward. Daí os expectadores “entendem”. Mas acho que perde na sutileza. 

No livro Tony & Susan a inquietação e a não compreensão da mensagem são a tônica. Susan vai se envolvendo com a história, mas não compreende direito por quê. Porque é tão bem escrito? (no livro ela sempre o considerou medíocre e sempre duvidou da possibilidade dele ser escritor, ao contrário do que aparece no filme onde ela no primeiro jantar de reencontro dá corda pra ambição dele). E porque é dedicado a ela? Ela não entende e se debate e até na hora de tentar marcar o encontro com ele o que ela quer é uma chave pra sua vida, mas sem se comprometer nisso. Ela ainda acha que está marcando o encontro pra falar sua opinião sobre o livro. Porque ela importa. Toda a vida de Susan é “pra dentro”. Ela cuida da casa, dos filhos e tenta ignorar sua rica vida interior que lhe coloca perguntas, reminiscências e alguma revolta. O livro de Edward vem sacudi-la em um mundo “lá fora”, apesar de ficcional, que não é possível controlar ou ignorar. A relação dela com o livro é cheia de nuances. Apesar da empatia pelos personagens, em muitos momentos ela se empolga com o sofrimento de Tony. Fica ansiosa por saber o que vem depois. E tenta se lembrar que não é algo construído por Tony, mas que tem Edward por trás. E isso também é meio excitante. Parece-me que a tal vingança não é dizer “olha o que você me fez” apenas. Talvez um pouco de olha o que você é, mas também um olha o que você não é...não é capaz de ser, de se saber, de se olhar durante o dia.

Outra coisa que eu acho que ficou menos interessante foi o momento da abordagem. Por força do meio (acho) a situação perdeu aquele clima de ameaça intangível. No livro, Tony sabia o tempo todo que algo não ia bem, era perigoso, mas não era possível identificar exatamente o quê até ser irremediável, no filme tudo se tornou uma ameaça explícita, palpável e incontrolável. No primeiro caso Tony não se posicionava por não conseguir identificar contra o quê. No filme, ele até tenta, mas é inócuo. E, claro, no filme não acompanhamos a noite insone, andando, perdido, que é de uma imensa riqueza na definição do personagem. Acho que faz uma imensa falta a vida pós-tragédia do Tony pra gente ir entendendo como ele foi se relacionando com a mesma, com a memória do que aconteceu e foi reconstruindo um ele-mesmo mais capaz, mais feroz, menos civilizado para o momento final. Por isso, retomo, se tivesse sido um filme só sobre o enredo do livro do Edward poderia ter sido um filme melhor. 

E, vamos combinar, aquela sobreposição das banheiras foi uó (de todos os banhos, aliás). Que solução paia. Mas as cores, ai, ai, que cores. Se estou pensando em copiar aquele escritório? ô se estou.


sábado, 14 de janeiro de 2017

Bóias 5

Quem não tem cão, caça como gato. Se não vai ter estilo, charme, personalidade ou qualquer outro termo usado para definir casas bem decoradas e aconchegantes, pelo menos vai ter piada interna. Ou cartão de visita. Melhor dizendo: uma declaração de intenções. Mandei fazer um quadro dessa cena aí embaixo de C'eravamo tanto amati. Onde todos amam Luciana e se amam entre si. Tinha trazido o poster da viagem a Roma (eita nós) e não me decidia a fazer nada com ele. Pois bem, vai decorar o hall de entrada. O resto ainda não sei. Talvez não haja mais nada. Mas a piada vai estar lá.



Uma coisa que sempre me comoveu em E o vento levou foi aquele prólogo onde o moço, sonoro e melancólico, dizia: uma civilização que o vento levou. Eu chorava (choro?). O filme nem tinha começado e eu já sentia a angústia do irrecuperável. Doía não aquela civilização em si ter acabado (por motivos óbvios não dá pra lamentar) mas pelo que está na entrelinha disso e que eu nem sei explicar direito. Uma finitude que não é só minha. E a tristeza de ver desaparecendo algumas coisas que se perdem no percurso, coisas maiores e melhores que as civilizações específicas que findam (e merecem fenecer). Nem sei que palavra usaria pra definir, mas identifico fácil. Uma certa graciosidade. Alguma ingenuidade. Gentilezas. Mas é isso. A gente acaba. Pior, nosso mundo acaba. Alguns, sortudos, não vêem nem ficam sabendo. Os que vivem o miolo de uma era. Mas eu, eu sei. Eu vejo. Acaba-se o Maracanã. E ele, o maior e mais sagrado templo, vai sendo violado, expropriado, arruinado. A canalhice se sobrepõe à arte, à história, à beleza, às narrativas intensas e emocionadas. Acaba-se o Maracanã e, com ele, um tanto de mim. Necrose na alma.



I can't listen to that much Wagner, you know. I start to get the urge to conquer Poland. Tem disso, filmes, canções, pessoas, imagens que nos despertam o gosto pelo impossível. 

Estava vendo o programa sobre pessoas que juntam cupons e compram com eles e não estou conseguindo nomear o que senti. Pessoas passam de 20 a 30hs por semana cortando e organizando cupons. E gastam de seis a dez horas dentro do supermercado organizando os carrinhos e passando as compras que precisam ser divididas em várias operações (nunca menos de vinte, pelo que percebi). E estocam. Enormes armários para guardar centenas de produtos que vão de sabonete líquido a mostarda, passando por escovas de dente e centenas de enlatados que precisam de prateleiras especiais para serem organizados de forma a gastar primeiro os que tem menor validade. Sim, uma compra de quase mil dólares sai por oitenta e pouco e com isso uma jovem recém casada equilibra as contas da sua casa e contribui com sua família que tem baixíssima renda. Aí você vai ver os carrinhos e tem um deles cheios de tic-tac. 30 horas cortando cupons por semana pra comprar 280 caixinhas de tic-tac. Eu fico só pensando na capacidade de organização, planejamento e raciocínio matemático dessas mulheres (sim, são mulheres). Quanto talento elas tem e que bosta de sistema esse em que vivemos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Boias 4

A verdade é que nunca vai ser uma casa com estilo. Nem mesmo uma casa boa de morar. Não enquanto estiver na minha mão. Vai ser esse buraco branco repleto de coisas inacabadas. Banheiro sem box. Sala sem quadros. Camas sem colchão, livros empilhados em estantes entulhadas. Não vai ter cara. Não vai ter charme. Para isso é preciso gosto ou dinheiro. Não tenho gosto. Nada nem mesmo perto disso. Sabe chegar em uma loja, ver um móvel ou objeto e imaginar como ele fica em determinado lugar? Pois é, eu não sei. Pra “ver” uma coisa em um lugar da casa preciso que ele realmente esteja lá. E dinheiro? Nunca terei. Cada mirréis que eu pegar na vida vai ser pra comida, conta, e, em tempos melhores, alguma estrada.  

E é isso. O que a vida nos pede é coragem. Pois eu não tenho. Nem medos. Só essa insossa perseverança que me leva ao sono e dele me desliga. Um dia. Outro dia. Todo dia.

O amor não é uma questão de mérito. Isso é bonito. Quase sempre. A não ser quando parece um afogamento.

deixa tudo que eu pedia, mas pensei que dava



Era uma vez, ela. De tudo que ela era e pensava, o que de mais certo havia é que sobrava. Que era tanto. Muito. Demais. Falava. Estava. Dava. Até recuava aqui e ali pra não transbordar. Copo cheio. Tudo. Anéis e dedos. Mas já não era mais a vez. Ou era a única vez, o resto era rascunho. E o recado: não bastava. Onde ela se achava pororoca mal chegava a córrego.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Bóias 3

Fiquei pensando e pensando. Minto. A palavra certa é matutar. Matutei e matutei. O juízo queimava no porquê de eu não acertar nem mesmo o que eu queria (conseguir fazer já são outros quinhentos). Porque eu não tinha gosto? Porque minha casa tem cara de nada? Porque eu não tenho estilo, essência, whatever (além de dinheiro) que faz a pessoa fazer uma casa parecer que veio pronta, certinha, redonda, ajustada, perfeita pra pessoa? Eu não tenho cara de nada? Nem mesmo sei que cara queria ter? Eu gosto de vidro. Mas vidro parece não gostar de mim. Gosto de gente, mas a não ser que a gente seja a Medusa não dá pra decorar a casa com esse material. E os miolos fritando. Não tenho paciência para sites de decoração, mas até tentei. Passei virtualmente em lojas de móveis e nada parecia ser o que eu não sabia que ia querer, mas tinha esperança de saber quando visse.

Daí comecei a receber umas mensagens do amarelo e do laranja, cores que tem a tarefa de animar o bege do resto das paredes. Pus cuidado e fiquei de butuca ligada pra ouvir direito. Pois num era a canção? “o sertão vai virar mar, dá no coração, o medo que algum dia o mar também vire sertão”.  


Nem sei se algum dia será, mas agora tenho umas vontades. No hall, tapete compridinho e meio estreito, do lado de cá aparador rústico e um caminho de mesa de fibra de coco, uma namoradeira em cima, em baixo aqueles negocinhos, banco, alguma coisa de barro, cabaça grande, qualquer coisa com fuxico. Do lado de lá, quadrinhos de xilogravura. Em algum lugar, cactos. Passa pra sala de estar e é sertão que vira mar num azul escuro feito manta no sofá. Na tonalidade dos quadros e almofadas. Nos enfeites menores da sala alguma coisa azuleja na mesinha de canto, outra coisa azulzinha na mesa baixa de centro. Será preciso uma poltrona, ou duas. Mais tapetes. Outra luminária ali perto da porta do escritório. Alguma coisa embaixo da escada. Quem sabe uma rede separando os ambientes. Já me perdi de novo. Melhor juntar dinheiros pra pagar alguém pra desenhar quem eu não posso ser, aka: uma decoração pra minha casa. Ou conseguir entrar naquele programa americano, ame-a ou deixe-a.

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Será que vou voltar a dizer, escrever, pensar qualquer coisa sem esse embaraço, sem esse vínculo imediato com a ausência? Até um texto bobo sobre reformas improváveis vai sempre provocar essa vertigem?
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