sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Tempo e Espaço

Da beleza avassaladora do tempo. Tempo houve em que eu não lembrava como viver sem você de tanto tempo que você estava no meu tempo. Acordei hoje e, encantada, percebi o tanto de tempo que já foi depois do tempo do esquecimento e que agora o que não lembro direito é do tempo em que nossos tempos eram um. O tempo de depois já passa da metade do tempo do enquanto e nesse tempo tenho sido tão feliz, ora no meu próprio tempo, ora passando o tempo em tempos acolhedores, que fazem esse tempo não caber em calendário mas apenas em suspiros.


Quanto mais desejo menos ditos?

O amor é um tropeço

E porque já não é possível o silêncio, abre a veia e escreve na parede branca do hospital o cabeçalho do que seria mais uma carta de amor, inacabada ante uma dose maior de calmantes apressadamente injetados por enfermeiros de rostos assustados.  

Tento me consolar pensando que no clima de Mossoró não é mesmo necessário alguém que se preocupe em esquentar antes o meu lado da cama.



Porque ela era fácil, quase disse o eu te amo. Engasgou, tossiu, entrelaçou os dedos e murmurou baixinho: gosto tanto de você. Ele apertou os dedos dela com os dele, ela gemeu, ele aproveitou a distração pra dizer o eu também. E dormiram juntos, que ficar juntos era o que melhor faziam. O que era bem contraditório, porque eles eram em lonjuras. Distâncias. Espaços, estradas, oceanos, o muito que separava. Ela, cada vez menos cá. Pegando impulso. Abrindo asas. Ele, raiz. Eles, um por enquanto. E eram tão bons nisso que faziam que não viam que o tempo vinha. E veio. E ela fez malas, comprou passagens, conjugou o verbo partir. Eles eram em onde. O futuro perguntava quandos e eles calavam. E ao silêncio de sempre, mais um. O que dizer quando não se sabe dizer: fica? O que dizer quando não se sabe dizer: vem? Entrelaçaram, outra vez, dedos, pernas, braços, era um abraço, era um soluço, era uma mentira. Apertavam-se, misturavam-se, mais e mais juntos como se fosse possível. Não era. Ela se desembaraçou devagar, lembrando de Sá Marica parteira: aproveita a dor. Mas não disse nada. Ele não ia entender. Ele segurou a mão um minuto a mais. Abriu a boca como se fosse dizer alguma coisa. Não disse. Soltou a mão com um suspiro. Respirar era sua forma de comunicação. Ela sorriu. Ele não. A gente se fala. E era verdade. Mas era, também e mais, uma mentira. Sim, eles se falariam, mais não diriam nada. E não haveria o juntos, que era a forma de ser a que eles conseguiam dar sentido. Juntos não ouviam o silêncio. Depois do enquanto, eles nunca mais foram os mesmos. Mas nunca souberam dizer isso um ao outro. Nem a ninguém. Calar era a forma de preservar algum sentimento. Que, vez ou outra, quase diziam: amor.  

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Saindo de Mim


Ir embora de Lisboa envolve uma série de atividades assustadoramente simples: comprar passagem, separar as roupas que vão na mala com azeites e vinhos verdes, empacotar livros e cds, faxinar e entregar o apartamento, pegar um taxi na hora certinha, fazer checkin e tirar um cochilo enquanto o avião atravessa o mar. Pronto. Fui embora de Lisboa. Ir embora de Lisboa, pelo menos no planejamento, é bem fácil. Mas como fazer Lisboa ir embora de mim?

Não há nada de simples ou fácil nisso. Lisboa é uma cidade amável. Nem sei direito quando foi que os azulejos, o cheiro de sardinha, a fumaça das castanhas, o eco do fado, o azul do Tejo, o irregular das calçadas - quando tudo foi se entranhando em mim. A rua em frente de casa, sempre mais fresca que o resto da cidade. Os sons do mercado de manhã cedo. A Baixa sempre viva e acolhedora. Esticar a vista procurando o 709. Sacolejar espremida e renovadamente deslumbrada no eléctrico. O Jardim logo na esquina. O som dos sinos aos domingos. O leite com nescau na garrafinha. Fica tudo misturado. Ela em mim. As coisas imensas. As miudinhas. O dia todo dentro de casa, espiando o computador, os distantes sons da rua. O dia todo na rua, o sol frio, o azul intenso, as ladeiras.

Eu vou embora. E, comigo, um nunca mais. Mesmo que aqui volte – e voltarei, não seremos as mesmas e nem as mesmas serão nossas relações. Não vou ter um CEP, vizinhos ou problemas com canos entupidos. Não sou daqui, mas por aqui ter estado, suspeito que nunca mais serei completamente em algum outro lugar.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Panoramas

Panorama 2015: voltar com nada pra lugar nenhum. Nenhuma conquista, nenhum mérito, nada nos bolsos ou nas mãos. Me sentindo menos do que era. Precisando de coisas que nunca precisei. Sei não, mas acho que ficar borocoxô qualquer hora dessas tá no script, né.




Você pergunta o que eu fiz durante o dia e eu engasgo e gaguejo na resposta. Desaprendi a dizer: estava pensando em você.

Ando apostando quanto tempo vou levar pra redescobrir como acordar sozinha.

Seria mais fácil se entre a gente fosse mais difícil.


E como viver no depois de agora?




Hoje, ônibus na estrada, veio-me essa ternura. Eu durmo fácil em qualquer viagem. Porém, em toda parada, em qualquer parada, acordo. O ônibus diminui a velocidade e eu já me arrumo na cadeira, alerta. Mas na poltrona atrás da minha tinha uma moça que não acordou. O ônibus parou e ela continuou dormindo. Durante toda a parada, pessoas subindo e descendo no ônibus, luzes acesas e ela dormia. Fiquei fascinada. Dormir é estar entregue. Despida de toda tentativa de ser quem se quer ser. Despida, apenas - se isso pode ser um apenas. Quando eu namorava a lua (rá, quem tem um currículo assim?), uma dos mais constantes rituais de amor era dormir em seu colo. Mãos juntas, conversa ritmada e o peito feito travesseiro, eu dormia. Passou o tempo, mudaram os colos, as conversas, as mãos que eram dadas, mas a entrega estava ali. Até aquele. Até aquilo. Até não mais. Cheguei a você de olhos abertos. Desperta. Eu, que me orgulho de me jogar em abismos, inquietava-me de já não saber dormir a não ser sozinha. Eu queria. Não ter medo. Esperar o bom. Saber o riso. Mas não. Queria exatamente assim: poder ser vista, mais do que ver ou mostrar. Mas não. Não mais. Achei que tinha perdido essa capacidade. Achei que tinha me perdido ao perder a possibilidade de não ser. Aí, a gente. E no seu abraço fui balançando. Um bem querer que nina. Dormir, no seu braço, no seu olho, no tempo incerto, cafuné, chamego. Eu ainda posso. Olhos fechados, coração aberto. Se tudo mais não fosse beleza e gozo, moço de agora, seria, ainda, gratidão, porque você me devolveu esse sono que é entrega.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Anos

Em 2014 eu: amei, bebi cerveja, abracei amigos queridos, viajei com minha irmã, recebi meu filhote aqui, participei de amigo secreto pelo Skype, me desmanchei com as fotinhas dos sobrinhos no zapzap. Eu cozinhei. Em 2014 eu não sabia o que escrever, tive medo, chorei de solidão, chorei de cansaço, chorei de raiva, chorei de decepção. Chorei de tanto chorar. Eu comi pastel de nata, bacalhau e coloquei azeite na comida em níveis indecentes. Andei de ônibus, metro, avião, carro, barco, a pé. Comprei um livro com capa de madeira. Vi futebol. Um monte mesmo. Fui mimada. Apanhei castanhas – e as comi. Senti saudades. Cruzei o oceano. Trabalhei. E trabalhei, trabalhei e trabalhei mais. Escrevi textos, tirei fotos, fiz registros do transitório que são minhas pequenas âncoras. Estive em bares. Mares estiveram em mim. Ouvi música. Fiz e desfiz malas. Desfiz planos. Abri mão de certezas. E sorri. E ri. E gargalhei. Bem alto. Um ano de risos, é assim que ele permanece em mim.


Para o ano que vem, o pedido de sempre: mais. Mais eu. Mais risos. Mais feliz.





Já é quase 2015, né? Eu estou, em relação a 2015 como aquelas pessoas que se decepcionaram com o ano 2000 porque esperavam teletransporte, carros voadores e modo de viver Jetsons. Eu esperava que sexo e mulher fossem palavras cada vez mais próximas, mas pelo andar da carruagem vão entrando no ano que chega bem mais distantes do que começaram esse. Meus planos para 2015: continuar aproximando as tais palavras, ou seja, permanecer alienada pelo patriarcado.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Eu, Só

Eu só preciso de um tempo pra sentir essa dor, pensava ela, entre afazeres. Limpou janelas, arrumou estantes, moveu móveis, cozinhou, lavou, passou. Talvez semana que vem. Poliu, dobrou engomou, varreu, esfregou. Nem percebeu que o que enxugava no chão, com vigor, eram lágrimas.

Eu só quero que o tempo já passe e você se torne uma fotografia amarelada na gaveta, daquelas que a gente vira pra ver se tem nome e data, porque nem lembra o motivo do sorriso que deixou na foto. Deve ser um sorriso, aliás, mas pode ser só um leve desbotado.

Eu só soube naquele momento, juro. Foi quando você me abraçou e eu baixei os olhos e escondi meu rosto no seu peito como quem se aconchega. Sim, eu estava fugindo. Não, não tenho certeza de quem. Provavelmente de mim, a quem desprezo um número significativo de vezes. Como quando você me abraçou e eu baixei os olhos para que você não visse que você não estava lá. Ficamos abraçados e eu podia escutar o seu coração, mas era um som cada vez mais distante e quanto mais eu me aninhava menos te sabia. Ainda nos abraçamos muitas vezes depois. Eu baixava os olhos, sempre. E você beijava o topo da minha cabeça e seu hálito era quente, mas eu sentia no peito o frio dos lugares há muito vazios. Não é por mal, eu sussurrava à noite, enquanto você dormia, a boca encostada em seu peito, seus braços como travesseiro, meus olhos desabitados. Sussurrei muitas vezes, mas nunca acreditei em mim mesma.

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