sexta-feira, 24 de abril de 2015

Faxina

2015 não tem sido fácil. Muitas mortes, muito moralismo, machismo e tantos outros preconceitos dolorosos. Mas aqui, na minha conchinha, nem posso reclamar dos últimos dias, tenho entrevistas marcadas, tenho carinho, tenho um conjunto de panelas vermelhas me esperando.

O problema não é fazer más escolhas, como faço. É escolher o mesmo erro vezes seguidas, esperando resultados diferentes. #AQuestãoDosSalgadosFrios

Cantava a Simone: estou fora de mim, por aí, com você por dentro. Acrescento: e por fora. Como um abraço que se estende, visto suas roupas, me enrolo em seus lençóis, me encontro em sua casa.


Era um desses lembretes que a gente escreve a batom no espelho, em brasa na pele, com o dedo na areia da praia, em qualquer lugar, pra ficar ao alcance da mão, do olho, só pra garantir que não vai esquecer. Mas não adianta lembrar, na hora de doer, dói. 

Tem gente que faz faxina para dar uma mãozinha ao pensar, quase como um acerto: enquanto arrumo fora, você se arruma por dentro. Eu, não. Faço faxina para procrastinar ou para me consolar. Hoje limpei o blog. Façam suas apostas.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Mentiras

Ando contando mentiras. Bom, não exatamente isso. Na hora que digo são verdades. Ou quase. Eu quase acredito. Que sim. Que dá. Que somos. Quase acredito em futuros do presente. Não chegam a ser meias verdades. São inteiramente mentiras no momento antes e no logo a seguir. Mas quando digo, sim, são. O que você quer ouvir. Pretérito perfeito.

Aquele momento em que você percebe que nunca ficou pra ver alguém indo embora.

A saudade dói latejada, é assim como uma fisgada num membro que já perdi. Suspeito que, dessa vez, vou saber essa canção.

Eu tenho pouquinhos arrependimentos. Gosto demais da vida que tenho e que me tem. Mas. Quando eu tinha onze, doze e me chateava com meus pais, imaginava que minha família era outra. Que eu era filha do Zico, sei lá. Hoje, de muito em quando, brinco de imaginar quem eu seria se. Se tivesse compreendido que era imenso pra você. Se tivesse ficado mais um pouco. Se tivesse ido. Se tivesse ouvido. Se vestisse a meia, usasse o batom. Um vestido e um amor. Miragens. Com a idade, os desejos, os caminhos, os moços que eu tinha, eu não podia saber. E, se soubesse, não sei se teria a coragem. Ou a vontade. Mas, sei lá, como exercício, insisto. E rio de pensar bobamente: seriam lindas as fotografias.



Promete? quase pergunto. Mas calo. Mastigo, devagar, o desejo do desejo do outro e recordo que a fome pode ser aplacada mas não extinta. Aceito o oco. Pelo minuto a mais. Que é, sempre, tempo a menos. Depende pra onde se olha. De onde se conta. Suspiro e aceito, no peito, o bem querer girassol. Grande demais pra ser o que é. Mas insiste. Colorido. Estabanado. Caloroso. Exuberante. Que só se sabe assim, voltando-se pro riso. Que se faz no repetir-se da cama bagunçada, do suor nos lençóis, da janela fechada, nesse quarto que é sempre noite. Que se firma na forma como os corpos se sabem um momento antes do sono, no morno de estar junto muito tempo, nos sons que se fazem íntimos. Que se nutre nos afagos, no gostoso de caber na mão, do nariz no pescoço, do joelho entre joelhos, da ilusão. Que vinga exatamente no agora, espaço sendo tempo, tempo sendo gosto. Girassol que é justamente porque finda. Murcha. Mas não hoje. 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Salgado

Tem dia que as coisas parecem dar mais certo do que sempre. Hoje. Dias em que o 28 está bem vago. Em que o cabelo está lindo, a pele boa, o batom ornando. Dias em que o céu no Terreiro do Paço está azulzinho com nuvens brincando de renda. Em que se recebe mensagem do filho. Falando de livros. Dias em que o abraço das amigas está mais risonho, que as degustações em evento divertido estão deliciosas, em que o espumante rosé está refrescante. Em que a irmã manda zap zap que mareja olho. Dias em que se vai sentada no 15 até o Gênesis.

Pois é, hoje fui ver o que o Sebastião Salgado viu. Fui achando que devia ir, porque, né. Mas com receio de não me envolver. De não reconhecer o que eu sabia que era enorme. É que, quem me conhece sabe, não sou muito da natureza. Temi que o registro de plantas, animais, paisagens e afins não me tocasse como eu imaginava que deveria. Tolinha. Não foi a primeira vez que me encontrei em uma exposição dele (e essa frase não é a toa). As duas vezes eu estava na Europa. E me vi, de repente, em algum lugar outro, de alteridade, mas íntimo.

A exposição é incrível. Cada fotografia parece propor um convite e contar uma história particular. Ao mesmo tempo, elas se qualificam, se espelham, se implicam. Tem paisagem, planta e bicho? Tem. Mas cada bicho, planta, paisagem parece interrogar minha humanidade. É perturbador. Bonito. Aliciante.

Foto de Sebastião Salgado. Exposição Gênesis.

 Do que mais gostei foi desse moço na foto aí em cima. Voltei algumas vezes pra olhar ele “me olhando”. Quanto mais o olhava, mas me sabia. Mais me dizia. Mais o via, mais me sentia. Eu. Saí de lá com o coração inquieto. Com aquela vontade de ser. De fazer. De viver.

Tem dias que as coisas parecem dar mais certo do que sempre. E que se estendem bons além do que se conta. A gente chega em casa e ainda tem amor feito convite e presente. Vou dormir com aquela alegria do dia que é um abraço.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Estilo

Eles fazem planos como quem se despede. Tecem futuros, como manta grossa e aconchegante, para se protegerem do frio que virá. Na alma. E nos pés gelados que costumavam se enroscar.

Anos depois ainda não sabiam explicar, mas tentavam: foram os olhos de ressaca. Ele, curioso, chegou perto, tão perto, tão perto, que quando deu por si já tinha mergulhado. Ela, distraída, o procurou e não achou ali, bem junto, como gostavam. Entristeceu. Mal sabia que não o via porque ele estava dentro. Até que soube: aquele incômodo no peito era ele, construindo abrigo para se proteger do frio no ambiente inóspito. Viveram assim, ele bem dentro dela. Quase sempre bom. Mas, às vezes, doía. Um homem por dentro, ora, é preciso espaço. Ele devastava, construía, reorganizava. Acendia fogueiras. Ocupava. Ela trincava os dentes e seguia. Até que um dia. Nunca souberam explicar, mas tentavam: foram os olhos de ressaca. Ela chorou e foi assim, na vazante, que se despediram. Ele banhado de sal. 



Eu sempre quis ser uma pessoa com estilo. Mas necasquipitibiriba. Nunca tive o gosto, o olho, o jeito ou, pelo menos, o dinheiro – que não resolve, mas compensa um bocado. Agora comprei um chapéu. Marrom, abinha curta, meio fiote. Estou querendo ser a “professora esquisita que anda de chapéu e lenço”. A nuvem no horizonte é que minha memória é uma geleia e corre o risco do chapéu ficar penduradinho no seu gancho mais vezes do que o razoável. Daí nada de epíteto.

Das coisas que faço: um café mais forte pra compensar o açúcar. Esquecer de colocar o açúcar. Só perceber no penúltimo gole. Colocar açúcar. Mexer. Beber o último gole. Fazer mais café pra compensar o açúcar. Posso continuar assim por horas.

É tão simples que muitas vezes me espanta as pessoas não considerarem assim. Eu gosto de cozinhar. Eu não gosto de limpar. Eu limpo e cozinho. Porque me apetece comer e viver em um ambiente razoavelmente higienizado. Nem homens nem mulheres nascem sabendo e gostando de limpar e/ou cozinhar. Cozinhar e limpar são tarefas e comportamentos necessários para a manutenção do espaço de vida. Necessário para pessoas de todos os gêneros. O machismo não está na luciana cozinhar ou limpar, mas na naturalização dessa tarefa como minha porque “própria” do meu gênero.

Estou rindo alto aqui. "Dicas para ter um quarto mais aconchegante". Daí todas elas versam sobre como torná-lo mais quentinho: cores escuras, tapete felpudo, cortinas grossas, etc. Obviamente a pessoa que escreveu o lance nem pensou que existem pessoas que moram em lugares como Mossoró. O meu quarto vai ter verdinho claro nas paredes, cortina de rendinha, conchinha na prateleira, cama baixinha e todos os diminutivos carinhosos que eu conseguir acrescentar. Daí, com o resto miudinho, fica grandão o espaço de ser feliz. Quer coisa mais aconchegante do que o riso?

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Lá em Casa, Quem Sabe

Eu ontem falei das dificuldades de escolher. Mas o Cláudio bateu a real e disse que, né, caso de analista isso de deixar a decisão sobre a minha casa, meu lugar, na mão de outras pessoas. Eu quis responder com piadinha, dizer que sou tartaruga e minha casa é onde está meu coração, mas preferi ser honesta comigo mesma e espreitar o bem dentro de mim. Escrevi um monte pra ele. Um pouco do tanto, trouxe pra deixar aqui e me lembrar dessa eu que se olhou e pensou. Começo com o bule vermelho, claro. 



Tem umas coisas que sei. Umas pouquinhas. Um bule vermelho. Aliás, uma cozinha em vermelho. Uma prateleira com temperos na janela. Uma tinta magnética na horizontal pra colocar ímãs, receitas, minhas sardinhas e imagens engraçadinhas de comidinhas. Uma mesa redonda. Uma cadeira colorida, amarela talvez. Uma sala com poucas coisas. Um aparador delicado. Um forno grande. Quero um negócio de pendurar chapéus pra pendurar lenços. Uma luminária de chão. Um baú no pé da cama. Vidro. Potinhos de vidro com temperos. Vidros com sal, arroz, café, cereais. Um cesto de frutas. Uma cesta de piquenique com coisinhas saindo de dentro. Armários sem portas. Guarda-roupa sem portas. Tipo uma arara. Um negózi pendurado tão fofo que vi na foto e já coloquei aqui pra lembrar. Quero um vasinho na escada. Tenho taças, gosto delas, elas devem estar em algum lugar. E bebidas. No escritório, uma escrivaninha com cara de velhinha. Com gavetinhas. Dessas pequenas que só servem pra gente perder coisas. Eu quero uma casa que as pessoas queiram estar nela. Inclusive eu. Uma casa com jeito de abraço, sabe? 

Peguei do tumblr da Karen

No por enquanto do sonho, ficar uns dois meses na casa da irmã, pintar a casa e comprar uma cama, a geladeira e o fogão. Acho. Deixa as roupas na mala. Deixa as panelas empilhadas na pia. Empilha os livros no chão. O computador no colo. Coloca uns ímãs na geladeira pra fazer de conta que. Depois, devagar, o que for achando e for cabendo no bolso. 
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